
DECEPCIONADO COM DEUS
TRS PERGUNTAS QUE NINGUM OUSA FAZER.

PHILIP YANCEY

Ttulo original:
Disappointment with God:
Three Questions No One Asks Aloud
Traduo: Mrcio Loureiro Redondo
Editora Mundo Cristo - 4a ed. - 1997
ISBN 85-85670-39-8
Digitalizado, revisado e formatado por SusanaCap
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Para meu irmo, ainda decepcionado.

* * *
Sumrio
LIVRO I - DEUS NAS SOMBRAS
PRIMEIRA PARTE: OUVINDO O SILNCIO
SEGUNDA PARTE: ESTABELECENDO CONTATO: O PAI
TERCEIRA PARTE: APROXIMANDO-SE: O FILHO
QUARTA PARTE: TRANSFERINDO-SE: O ESPRITO
LIVRO II - ENXERGANDO NO ESCURO

Contracapa:

* Na hora da tragdia, Deus sumiu. Deixou-me sozinho na minha angstia.
* Deus no fala mais comigo. Calou-se h muito tempo.
* Deus pode at existir, mas certamente no se importa comigo.
* Desconfio que as minhas oraes so monlogos patticos.
* Se Deus existe, por que ele no d nenhum sinal de vida?
      
      Este  um livro heterodoxo. O autor pe fogo no jargo "crents", nas frases feitas e nos argumentos pseudopiedosos.
      Ele se prope a ouvir com cuidado e carinho as vozes da desiluso, do ceticismo e da incredulidade. e a procurar minuciosamente as respostas.
      
      Decepcionado com Deus ser uma fonte de conforto para todo leitor que j sofreu alguma perda significativa.
      Atravs da Bblia o autor descobre solues s perguntas que mais torturam a alma humana.
      
      Deus  injusto?
      Deus est calado?
      Deus escondeu-se de mim?
Prefcio
      APS TER COMEADO A TRABALHAR neste projeto, recebi alguns telefonemas de pessoas de minha igreja, que haviam ouvido a respeito dele.
      -  verdade que voc est escrevendo um livro sobre pessoas decepcionadas com Deus? - indagavam elas pelo telefone. - Nesse caso eu gostaria de dizer algo. 
Nunca antes contei isso para algum, mas a minha vida como cristo tem includo pocas de grande desiluso!
      Entrevistei algumas daquelas pessoas que me telefonaram, e as histrias que elas contaram ajudaram a estabelecer o rumo deste livro.
      Descobri que para muitas pessoas existe um grande abismo entre o que esperam de sua f crist e o que de fato acontece. A partir de um verdadeiro mundo de 
livros, sermes e testemunhos, todos prometendo vitria e sucesso, elas aprendem a esperar que Deus atue impressionantemente em suas vidas. Se no enxergam tais 
intervenes, sentem-se desapontadas, tradas e freqentemente culpadas. Como disse uma mulher: "Eu ficava pensando na frase Relacionamento pessoal com Jesus Cristo'. 
Mas, para minha surpresa, descobri que isso  diferente de qualquer outro relacionamento pessoal. Nunca vi a Deus, nunca o ouvi, nunca o senti, nunca experimentei 
os elementos mais bsicos de um relacionamento. Ou existe alguma coisa de errado com o que me ensinaram, ou existe alguma coisa de errado comigo."
      As entrevistas me convenceram de que essa desiluso depende em grande parte daquilo que, em primeiro lugar, esperamos de Deus. Por essa razo, a primeira parte 
deste livro explora a Bblia para ver aquilo que realmente podemos esperar de Deus. Hesitei em comear por a, pois sei que algumas pessoas, de modo especial as 
que esto decepcionadas, quase no procuram mais a Bblia. Mas como comear seno deixando Deus falar por si mesmo? Procurei me livrar de preconceitos e ler a Bblia 
como uma histria com um "enredo". O que descobri me surpreendeu grandemente. Era uma histria bem diferente daquela que haviam me ensinado quase a vida toda.
      Certa vez, quando expliquei este projeto a um amigo, ele franziu as sobrancelhas e balanou a cabea. - Acho que nunca tentei "psicanalisar" a Deus - disse. 
Espero que no seja isso o que estou tentando! Mas quero mesmo entender Deus melhor, aprender por que ele algumas vezes age de maneira misteriosa - ou nem parece 
agir.
      Na verdade tive o propsito de escrever dois livros diferentes; foi o que fiz. Mas terminei pondo os dois sob a mesma capa. O segundo livro se dirige para 
questes mais prticas e existenciais, e aplica as idias que desenvolvi a situaes reais - situaes do tipo que cultiva o desapontamento com Deus. Por fim, cheguei 
 concluso de que os dois enfoques deveriam fazer parte do mesmo livro; isoladamente qualquer um dos dois enfoques estaria incompleto.
      Algumas palavras de advertncia, entretanto. Este no  um livro de apologtica, por isso no me darei ao trabalho de apontar para as provas em favor da existncia 
de Deus na natureza, nas profecias, em Jesus. Outros autores tm feito isso com sucesso, e, alm do mais, estou lidando com dvidas que so mais emocionais do que 
intelectuais. A decepo normalmente ocorre quando algum querido no se porta como esperamos.
      Tambm, no irei discutir a questo "Ser que Deus realiza milagres?" Para mim  evidente que ele possui poderes e que os tem empregado. Deus pode intervir. 
Ento por que no o faz com mais freqncia? Por que no evidenciar-se aos cticos sinceros, que gostariam de crer caso apenas vissem um sinal? Por que permitir 
que a injustia e o sofrimento proliferem na terra? Por que as intervenes divinas so raras e no freqentes?
      Uma ltima advertncia: de modo algum estou apresentando um ponto de vista equilibrado acerca da f crist. Afinal, estou escrevendo para pessoas que, numa 
hora ou outra, tm ouvido o silncio de Deus. Estudar pessoas como J e Abrao como sendo exemplos de f  um pouco parecido com estudar a histria da civilizao 
examinando somente as guerras. Por outro lado, h muitos livros cristos que no fazem qualquer meno s guerras e prometem somente vitrias. Este  um livro sobre 
a f, mas examino a f atravs dos olhos daqueles que duvidam.
      Finalmente, devo explicar o mtodo que escolhi para lidar com as referncias bblicas. Resisti  idia de coloc-las em notas de rodap ou em parnteses dentro 
do texto: isso cria uma dificuldade de leitura, algo no muito diferente de ouvir algum gago. Em vez disso, estou indicando as fontes de citaes diretas no final 
de cada captulo. Os detetives de verdade devem ser capazes de identificar a passagem bblica correta.
***
Desperta! Por que dormes, Senhor?
Desperta, no nos rejeites para sempre.
Por que escondes a tua face?
- Salmo 44:23-24
***
LIVRO I - DEUS NAS SOMBRAS
Voc no precisa ficar sentado l fora no escuro.
Se, todavia, desejar olhar para as estrelas,
descobrir que se requer escurido. As estrelas
no a requerem nem a exigem.
- Annie Dillard
      
Primeira Parte: Ouvindo o Silncio
Captulo 1 - Um Erro Fatal
      DESDE QUE meu livro Where Is God When It Hurts ("Onde Est Deus na Hora da Dor") foi publicado, venho recebendo cartas de pessoas decepcionadas com Deus.
      Uma jovem me escreveu que sua alegria se tornou em amargura e profunda tristeza quando deu  luz uma menina com spina bifida, um defeito de nascimento que 
deixa exposta a medula vertebral. Pgina aps pgina de caligrafia minscula e trabalhada, ela relatava como as contas mdicas exauriram as economias da famlia 
e como seu casamento ruiu quando seu marido passou a ficar ressentido com todo o tempo que ela devotava  filhinha enferma.  medida que sua vida se desintegrava, 
ela comeou a duvidar do que antes havia crido acerca de um Deus amoroso. Tinha eu algum conselho?
      Um homossexual me contou sua histria gradualmente, numa sucesso de cartas. Por mais de uma dcada ele havia buscado uma "cura" para suas tendncias sexuais, 
experimentando cultos carismticos de cura, grupos cristos de apoio e tratamento qumico. Ele at mesmo se submeteu a uma forma de terapia aversiva, em que psiclogos 
aplicavam choques eltricos em seus rgos genitais, caso ele reagisse a fotografias erticas de homens. Nada funcionou. Finalmente ele se entregou a uma vida de 
promiscuidade com outros homens. Ocasionalmente ainda me escreve. Insiste em que deseja seguir a Deus, mas sente-se sem condies devido  sua maldio pessoal.
      Uma jovem escreveu, um tanto quanto constrangida, sobre sua contnua depresso. Segundo disse, ela no tem motivo para ficar deprimida. Tem boa sade, ganha 
bem e possui uma slida base familiar. Mas na maioria dos dias, quando acorda, ela no consegue imaginar uma nica razo para continuar vivendo. J no se importa 
com a vida ou com Deus. Quando ora, no sabe se algum est de fato ouvindo.
      Essas e outras cartas que tenho recebido ao longo dos anos conduzem, todas elas,  mesma pergunta bsica, expressa de diferentes maneiras.  uma pergunta algo 
assim: "Seu livro trata da dor fsica. Mas que dizer da dor como a minha? Onde Deus est quando sinto a dor emocional? O que a Bblia diz a respeito?" Respondo s 
cartas da melhor maneira que posso, pesaroso e consciente de que as palavras no papel so insatisfatrias. Ser que uma palavra, qualquer palavra, pode chegar a 
curar uma ferida? E devo confessar que, aps ler esses relatos angustiados, fao exatamente as mesmas perguntas. Onde Deus est diante de nossa dor emocional? Por 
que com tanta freqncia ele nos desaponta?
***
      A desiluso com Deus nem sempre surge de uma forma to marcante. Para mim, ele tambm aparece inesperadamente nos detalhes corriqueiros da vida diria. Recordo-me 
de uma noite de inverno; uma noite de um frio glido e inclemente em Chicago. O vento assobiava, e um misto de neve e chuva caa forte, cobrindo as ruas com uma 
camada de gelo escuro e brilhante. Naquela noite o motor de meu carro parou num bairro pouco seguro. Enquanto eu levantava o capo e me debruava por cima do motor, 
com aquela chuva e neve aoitando minhas costas como minsculos pedriscos, orei repetidas vezes: Por favor, ajude-me a fazer funcionar o motor do carro.
      Por mais agitado que eu estivesse, mexendo com fios, mangueiras e cabos, nada disso dava partida no motor. De maneira que passei uma hora numa velha lanchonete, 
aguardando um guincho. Sentado numa cadeira de plstico e com as roupas encharcadas formando uma poa d'gua cada vez maior ao meu redor, fiquei imaginando o que 
Deus pensava do meu infortnio. Eu ia perder um encontro que fora marcado para aquela noite e provavelmente ia desperdiar muitas horas nos dias seguintes tentando 
fazer com que alguma oficina, estabelecida para se aproveitar de motoristas desamparados, fizesse um servio honesto e direito. Ser que Deus se importava com a 
minha frustrao ou com as minhas energias desperdiadas ou com o dinheiro perdido?
       semelhana da mulher constrangida diante de sua depresso, sinto vergonha at mesmo de mencionar uma orao assim que no foi respondida. Parece algo sem 
importncia e egosta, talvez at mesmo tolo, orar para que o carro d partida. Mas descobri que pequenos desapontamentos tendem a se acumular com o passar do tempo. 
Comeo a imaginar se Deus de fato se importa com os detalhes da minha vida, ou se ele se importa comigo. Sou tentado a orar com menos freqncia, tendo chegado antecipadamente 
 concluso de que no vai adiantar. Ou vai? Minhas emoes e minha f oscilam. Quando essas dvidas se instalam, estou ainda menos preparado para pocas de grandes 
crises. Uma vizinha est morrendo de cncer; oro diligentemente por ela. Mas, mesmo enquanto oro, fico pensando: Pode-se confiar em Deus? Se tantas oraes pequenas 
ficam sem resposta, que dizer das grandes?
      As lutas dirias da vida parecem bem distantes das frases otimistas e triunfalistas sobre o amor e o interesse pessoal de Deus que ouo s vezes em igrejas 
evanglicas. At mesmo a Bblia parece confundir: contm tantas tragdias quantos triunfos. O que podemos esperar de Deus afinal?
      Certa manh, num quarto de hotel, liguei a televiso, e o rosto gorducho e quadrado de um conhecido evangelista encheu a tela. "Estou com raiva de Deus", disse 
com um olhar furioso. Parecia uma confisso surpreendente da parte de um homem que havia feito carreira em cima da idia de "f do tamanho da semente de mostarda". 
Durante anos tinha pregado que Deus intervm diretamente em favor de seus seguidores. Mas, disse ele, Deus o tinha decepcionado, e ele passou a explicar. Deus lhe 
dera ordens para que edificasse um grande ministrio e, no entanto, o projeto se revelou um desastre financeiro. Agora ele era obrigado a vender propriedades a preo 
baixo e a reduzir programas. Ele tinha feito sua parte do acordo, mas Deus no tinha.
      Algumas semanas depois vi novamente o evangelista na televiso. Dessa vez ele estava transpirando f e confiana. Inclinou-se em direo  cmera, o rosto 
enrugado se abrindo num amplo sorriso, e apontou o dedo para um milho de espectadores.
      - Algo bom vai acontecer com voc nesta semana! - disse, esticando ao mximo a palavra "bom". Era como um bom vendedor, profundamente convincente. Alguns dias 
depois, contudo, ouvi pelo noticirio que seu filho havia se suicidado. No pude deixar de imaginar o que o evangelista disse para Deus naquela semana fatdica.
      Aconteceu com pessoas como o tele-evangelista, e com pessoas como as que escreveram cartas, e acontece com cristos comuns. Primeiro surge o desapontamento, 
ento uma semente de dvida, depois uma reao confusa de ira ou de sensao de ser trado. Comeamos a questionar se Deus  digno de confiana, se de fato podemos 
confiar a ele as nossas vidas.
***
      Venho refletindo sobre essa questo da decepo com Deus h bastante tempo, mas hesitei em escrever a respeito por duas razes. Primeiro, eu sabia que teria 
de me defrontar com questes que no tm respostas fceis - questes que, na verdade, podem no ter resposta alguma. E, em segundo lugar, eu no desejava escrever 
um livro que, por tratar da questo do fracasso, desencorajasse a f de quem quer que fosse.
      Sei que alguns cristos rejeitariam sem mais nem menos a expresso "decepo com Deus". Tal idia  inteiramente errada, dizem. Jesus prometeu que a f do 
tamanho de uma semente de mostarda  capaz de transportar montanhas, que qualquer coisa pode acontecer se dois ou trs se reunirem para orar. A vida crist  uma 
vida de vitria e triunfo. Deus quer que sejamos felizes e prsperos e que tenhamos sade; qualquer outra condio revela uma falta de f.
      Foi durante uma visita a pessoas que crem exatamente assim que finalmente tomei a deciso de escrever este livro. Incumbido por uma revista, eu estava investigando 
a questo da cura divina, e a pesquisa me levou a uma grande igreja de triste fama na regio rural de Indiana, um Estado norte-americano. Eu havia tomado conhecimento 
da igreja atravs de uma srie de artigos publicados no jornal Chicago Tribune e de uma reportagem especial no noticirio "Nightline" da rede ABC de televiso.
      Os membros dessa igreja criam que a f pura podia curar qualquer doena e que buscar ajuda em qualquer outro lugar ou pessoa - por exemplo, de mdicos - demonstrava 
uma falta de f em Deus. Os artigos do Chicago Tribune mencionaram pais que, atnitos, observavam seus filhos travarem batalhas perdidas contra a meningite, ou a 
pneumonia, ou um vrus comum de gripe - enfermidades que facilmente podiam ter sido tratadas. Em um mapa dos Estados Unidos que mostrava onde as pessoas ligadas 
a essa igreja atualmente vivem, um artista do jornal desenhou pequenas lpides de tmulo para assinalar os locais onde pessoas haviam morrido depois de recusarem 
tratamento mdico, em obedincia ao ensino da igreja. Havia cinqenta e duas lpides ao todo.
      De acordo com as reportagens, mulheres grvidas que seguiam o ensino da igreja morriam ao darem  luz numa proporo oito vezes maior do que a mdia nacional, 
e a taxa de mortalidade infantil era trs vezes maior. Apesar disso, a igreja estava crescendo e tinha-se estabelecido em dezenove Estados e em outros cinco pases.
      Visitei a igreja-me, no Estado de Indiana, num quente dia de agosto. Ondas de calor se espalhavam por cima do asfalto das estradas, e nos campos de milho 
os talos estavam murchando e ficando queimados do sol. O prdio da igreja jazia sem placa indicativa no meio de um daqueles milharais, isolado, tal como um gigantesco 
celeiro comunitrio. As pessoas estavam apreensivas devido a toda publicidade, especialmente desde que ex-membros haviam recentemente entrado com processos na Justia. 
E no estacionamento tive de convencer dois guardas a me deixarem passar.
      Acho que eu estava esperando um sinal de fanatismo durante o culto: um sermo hipntico, que levasse pessoas ao desmaio, pregado por algum do tipo Jim Jones. 
No vi nada disso. Durante noventa minutos, setecentos de ns estvamos sentados num grande semicrculo, cantvamos hinos e estudvamos a Bblia.
Eu estava entre pessoas simples. As mulheres no usavam calas, mas vestidos ou saias, e utilizavam bem pouca maquiagem. Os homens, de camisa e gravata, sentavam-se 
junto de suas famlias e ajudavam a manter as crianas comportadas.
      Ali as crianas eram bem mais onipresentes do que na maioria das igrejas; estavam em todo lugar. Ficar quieto durante noventa minutos  algo que est alm 
dos limites que uma criana pequena consegue suportar, e observei os pais tentando contornar a situao. Livros para colorir havia aos montes. As mes faziam jogos 
com os dedos dos filhos. Algumas traziam montes de brinquedos em bolsas enormes.
      Se eu tivesse vindo  procura de sensacionalismo para o meu artigo, teria ido embora de mos vazias. Eu tinha visto uma pequena amostra da velha cultura americana. 
A famlia tradicional estava passando bem, pelo menos nesse local. Ali os pais amavam seus filhos tanto quanto o fazem quaisquer outros pais na terra.
      E, apesar disso (o mapa com as pequenas lpides saltava  mente), alguns daqueles mesmos pais tinham estado sentados  beira do leito de seus filhinhos morrendo, 
e no fizeram nada. Um pai contou ao jornal Chicago Tribune da sua viglia de orao enquanto observava seu filho de quinze meses de idade lutar contra uma febre 
durante duas semanas. A doena primeiro provocou surdez, depois cegueira. O pastor da igreja conclamou a ainda mais f e persuadiu o pai a no chamar um mdico. 
No dia seguinte o menino estava morto. A autpsia revelou que ele morrera de uma forma de meningite facilmente tratvel.
      No geral, os membros da igreja em Indiana no culpam Deus pelo que aconteceu, ou pelo menos no o admitem. Em vez disso, culpam-se a si mesmos de uma f fraca. 
Enquanto isso as lpides se multiplicam.
      Sa daquele culto dominical com uma profunda convico de que aquilo que pensamos a respeito de Deus e cremos a respeito de Deus  importante - importantssimo. 
Aquelas pessoas no so bichos-papes nem assassinos de crianas, e assim mesmo algumas dezenas de seus filhos morreram simplesmente devido a um erro (creio eu) 
de teologia.
      Por causa daquelas pessoas sinceras em Indiana, junto com as pessoas questionadoras que me tm escrito, decidi enfrentar temas que estou profundamente tentado 
a evitar. (Na realidade, o ensino da igreja em Indiana no  to diferente daquele que ouo em muitas igrejas evanglicas e em programas religiosos no rdio e na 
televiso; ela simplesmente aplica as extravagantes promessas de f de uma forma mais coerente.) Dessa forma, este  um livro de teologia; com toda certeza no um 
livro tcnico, mas um livro acerca da natureza de Deus e de por que ele age de formas que causam perplexidade e de por que s vezes ele no age.
      No ousamos restringir a teologia s cantinas dos seminrios, onde professores e alunos jogam uma espcie de tnis mental. A teologia afeta todos ns. Algumas 
pessoas perdem a f devido a uma profunda sensao de decepo com Deus. Esperam que Deus aja de uma certa maneira, e as coisas acontecem de forma diferente. Outras, 
como as de Indiana, podem no perder sua f, mas tambm experimentam uma forma de desapontamento. Acreditam que Deus intervir, oram por um milagre, e suas oraes 
voltam sem resposta. Pelo menos cinqenta e duas vezes aconteceu daquele modo na igreja de Indiana.
Captulo 2 - A Dor da Traio
      CERTA TARDE meu telefone tocou, e a pessoa do outro lado da linha se identificou como um aluno de teologia da escola de ps-graduao da Wheaton College, uma 
conceituada universidade crist.
      -  Meu nome  Richard - disse. - No nos conhecemos pessoalmente, mas sinto uma afinidade com voc por causa de alguns de seus escritos, especialmente o livro 
sobre a dor. Poderia me dar um minuto?
      Richard passou a me contar a respeito de sua vida. Na poca em que era universitrio havia-se tornado cristo quando um obreiro da Aliana Bblica Universitria 
fez amizade com ele e o conduziu  f. No entanto, Richard no falava como um novo crente. Embora me pedisse que recomendasse livros evanglicos que pudesse apreciar, 
j havia lido todos os que eu mencionei. Tivemos uma conversa agradvel, divagante, e s no final do telefonema soube qual era o seu verdadeiro propsito em fazer 
contato comigo.
      - No quero amolar voc com isto - disse com nervosismo. - Sei que voc provavelmente  uma pessoa ocupada, mas h um favor que eu gostaria de pedir.  o seguinte: 
acabo de escrever uma tese sobre o Livro de J, e meu professor me disse que eu devia escrever um livro em cima disso. Existe alguma possibilidade de que voc possa 
dar uma olhada e ver o que pensa a respeito?
      Respondi que sim, e o manuscrito chegou dentro de poucos dias. Na verdade, eu no esperava muito. Normalmente trabalhos de cursos de ps-graduao no so 
uma leitura irresistvel, e eu tinha minhas dvidas de que um recm-convertido pudesse chegar a novas idias sobre o maante Livro de J. Mas eu estava errado. O 
manuscrito revelou ser muito promissor, e, durante os poucos meses que se seguiram, Richard e eu tratamos por telefone e por carta sobre como a monografia podia 
ser reestruturada em forma de livro.
      Um ano depois, com um manuscrito pronto e tendo em mos um contrato assinado, Richard telefonou para perguntar se eu escreveria um prefcio. Eu ainda no tinha 
me encontrado pessoalmente com Richard, mas eu gostava de seu dinamismo, e ele havia escrito um livro que facilmente eu podia endossar.
      Passaram-se seis meses, durante os quais o livro foi objeto de edio e reviso finais. Ento, pouco antes da data de publicao, Richard telefonou mais uma 
vez. Sua voz soava diferente, tensa e desconfortvel. Para minha surpresa ele no quis falar sobre seu livro.
      - Philip, preciso ver voc - disse. - H algo que me sinto obrigado a lhe dizer, e isso deve ser feito pessoalmente. Ser que eu posso dar uma esticada at 
a alguma tarde desta semana?
***
      Raios quentes e intensos de luz solar fluam para dentro de meu apartamento no terceiro andar. A porta de folhas duplas, aberta, no possua tela, e moscas 
zumbiam, entrando e saindo da sala. Richard, de shorts branco, tnis e camiseta, sentou-se numa poltrona  minha frente. O suor reluzia em sua testa. Ele tinha dirigido 
durante uma hora no trnsito congestionado de Chicago para chegar a esse encontro.
      Richard era esguio e estava em boa forma fsica - "um ectomorfo puro" -, como diria um instrutor de aerbica. Um rosto ossudo e um corte curto de cabelo davam-lhe 
uma aparncia sria e impetuosa de um monge. Se a "linguagem" do corpo comunica, a sua era volvel: seus punhos fechavam e abriam, suas pernas bronzeadas cruzavam-se 
e descruzavam-se, e os msculos do rosto freqentemente estreitavam-se devido  tenso.
      Ele foi direto ao assunto.
      -  Voc tem o direito de estar furioso comigo - comeou. - Voc no tem culpa alguma se sentir-se enganado.
      Eu no tinha qualquer idia do que ele queria dizer.
      - Mas por qu?
      - Bem,  o seguinte: o livro que voc me ajudou a escrever, bem, ele est saindo do prelo no prximo ms, inclusive o seu prefcio. Mas a verdade  que no 
creio mais naquilo que escrevi naquele livro, e sinto que lhe devo uma explicao.
      Fez uma pausa momentnea, e observei os sinais de tenso em seu queixo.
      -  Odeio Deus - soltou repentinamente. - No, no  isso o que quis dizer. Nem mesmo acredito em Deus.
      Eu no disse nada. De fato, eu falei bem pouco durante as trs horas seguintes enquanto Richard me contava a sua histria, comeando pela separao de seus 
pais.
      -  Fiz tudo o que podia para evitar o divrcio - disse. - Eu tinha acabado de me tornar um cristo na universidade, e fui tolo bastante para crer que Deus 
se importava. Eu orava sem parar de dia e de noite para que eles se reconciliassem. Cheguei at mesmo a deixar a escola por um tempo e fui para casa para tentar 
salvar a minha famlia. Pensei que estava fazendo a vontade de Deus, mas acho que tornei as coisas piores. Foi minha primeira experincia amarga de orao sem resposta.
      -  Ento me transferi para a Wheaton College a fim de aprender mais sobre a f. Eu imaginava que devia estar fazendo alguma coisa errada. L em Wheaton eu 
me encontrei com pessoas que usavam expresses do tipo "falei com Deus" e "o Senhor me disse". Algumas vezes eu tambm falava daquela maneira, mas nunca sem uma 
repentina sensao de culpa. Ser que o Senhor de fato me disse alguma coisa? Nunca ouvi uma voz nem tive qualquer prova acerca de Deus, a qual eu pudesse ver ou 
tocar. Ainda assim, eu ansiava por aquele tipo de intimidade.
      - Todas as vezes em que eu me defrontei com uma deciso importante, eu lia a Bblia e orava pedindo orientao, exatamente como se espera que se faa. Sempre 
que eu me sentia bem quanto  deciso, eu agia de conformidade com ela. Mas juro que todas as vezes eu acabei me dando mal. No momento em que eu achava que eu tinha 
realmente entendido a vontade de Deus, ento as coisas davam para trs.
      O barulho da rua entrava na sala, e eu podia ouvir os vizinhos subindo e descendo as escadas, mas Richard parecia no reparar nas distraes. Ele continuava 
falando, de vez em quando eu assentia com a cabea, embora ainda no compreendesse a razo para sua exploso violenta contra Deus. Muitas famlias se desintegram: 
muitas oraes ficam sem resposta. Qual era a verdadeira origem de sua fria?
      Em seguida me falou de uma oportunidade de emprego que no deu certo. O empregador deu para trs e contratou algum com menos qualificaes, deixando Richard 
com dvidas na escola e sem qualquer fonte de renda. Mais ou menos na mesma poca, a noiva de Richard o largou. Sem qualquer aviso ela cortou o relacionamento, recusando-se 
a dar qualquer explicao para sua repentina mudana afetiva. Sharon, a noiva, havia tido um papel fundamental no crescimento espiritual de Richard, e, quando ela 
o deixou, ele sentiu parte de sua f tambm escapar de suas mos. Eles freqentemente haviam orado juntos acerca do futuro deles; agora essas oraes pareciam piadas 
de mau gosto.
      Dolorosas feridas de rejeio, sofridas quando seus pais se separaram, pareciam reabrir. Deus estava dando o fora nele assim como Sharon tinha feito? Ele visitou 
um pastor em busca de conselho. Disse que sentia-se como uma pessoa se afogando. Queria confiar em Deus, mas, sempre que estendia a mo para cima, apanhava um punhado 
de ar vazio. Por que devia continuar crendo num Deus que aparentemente no se interessava em seu bem-estar?
      O pastor no era muito compreensivo, e Richard ficou com a ntida impresso de que os seus lamentos pessoais eram minsculos em comparao com os dos outros, 
que pediam conselhos sobre casamentos arruinados, cncer, alcoolismo e filhos rebeldes. "Quando as coisas se endireitarem com sua namorada, voc tambm se endireitar 
com Deus", disse o pastor com um sorriso paternalista.
      Para Richard, os problemas no eram minsculos. No conseguia compreender por que um Pai celestial amoroso deixaria que ele sofresse tal decepo. Nenhum pai 
terreno trataria seu filho dessa maneira. Ele continuou indo  igreja, mas dentro dele comeou a se formar um ndulo de ceticismo, um tumor de dvida. A teologia 
que havia aprendido na escola e sobre a qual escrevera em seu livro j no servia para ele.
      - Era estranho - Richard me contou -, mas quanto mais eu descarregava a minha raiva em cima de Deus, parecia que eu ganhava mais energia. Percebi que durante 
os ltimos anos eu havia encolhido dentro de mim. Agora, quando eu comeava a duvidar, e at mesmo a odiar a escola e outros cristos ao redor, eu senti como se 
eu estivesse voltando a viver.
      Certa noite algo estalou. At o presente Richard no tem certeza sobre o que provocou esse estalo. Ele assistiu ao culto de domingo  noite numa igreja onde 
ouviu os testemunhos costumeiros e as manifestaes de louvor e gratido, mas um relato em particular o irritou. Naquela semana, alguns dias antes, um avio que 
levava nove missionrios havia cado na regio desrtica do Estado do Alasca, matando todos os passageiros. O pastor contou os detalhes em voz grave e ento chamou 
 frente um membro da igreja que havia acabado de sobreviver a um desastre de avio que no tinha qualquer relao com aquele outro. Quando o membro da igreja acabou 
de contar como havia escapado por pouco, a congregao reagiu dizendo: "Glria a Deus!"
      "Senhor, ns te agradecemos por trazeres nosso irmo a salvo e porque fizeste com que teus anjos da guarda tomassem conta dele", o pastor orou. "E esteja com 
as famlias daqueles que morreram no Alasca." Aquela orao desencadeou em Richard uma repulsa, algo parecido com a nusea. No d para conciliar ambos os caminhos, 
ele pensou. Se Deus  louvado por causa do sobrevivente, deve tambm ser culpado por causa das mortes. Todavia, as igrejas nunca ouvem testemunhos dados pelos que 
sofrem as perdas. O que os cnjuges dos missionrios mortos diriam? pensou Richard amargamente. Ser que eles falariam de um "Pai amoroso"?
      Richard voltou para seu apartamento bastante agitado. Tudo estava culminando numa pergunta: "Ser mesmo que Deus existe?" Ele no tinha visto provas convincentes.
***
      Richard interrompeu a histria a essa altura. O sol havia-se escondido atrs de um grande edifcio a oeste, e o crepsculo foi suavemente mesclando as sombras 
e os raios de luz na sala. Richard fechou os olhos e mordeu o lbio inferior. Com os polegares pressionava bastante os olhos. Parecia que ele estava formando uma 
imagem mental, como se para conseguir a imagem exata.
      -  O que houve depois? - indaguei, aps alguns minutos de silncio. - Foi nessa noite que voc perdeu a f? - Ele assentiu com a cabea e recomeou a falar, 
mas num tom mais suave.
      - Moro numa alameda arborizada e tranqila, num bairro afastado do centro. Eu fiquei acordado at tarde naquela noite, bem depois que meus vizinhos tinham 
ido deitar. Parecia que eu estava sozinho no mundo, e eu sabia que algo de importante estava para acontecer. Eu estava machucado. Foram tantas as vezes que Deus 
havia me desapontado. Eu odiava Deus, e assim mesmo eu tambm sentia medo. Eu era aluno de teologia, certo? Talvez Deus estivesse ali, e eu estivesse completamente 
enganado. Como  que eu poderia saber? Reexaminei toda minha experincia crist, desde o seu incio.
      -  Eu me lembro do primeiro lampejo de f que tive l na universidade. Naquela poca eu era bem novo, e vulnervel. Talvez eu tivesse apenas aprendido umas 
poucas frases otimistas e tivesse persuadido a mim mesmo a crer numa "vida abundante". Talvez eu tivesse apenas aprendido a imitar os outros. Comecei a imaginar 
se eu no estava vivendo s custas das experincias de outras pessoas. Ser que eu tinha me iludido acerca de Deus?
      -  Apesar disso eu hesitava em descartar tudo em que eu cria. Senti que tinha de dar uma ltima chance para Deus.
      - Naquela noite orei da maneira mais honesta e sincera que eu sabia. Orei de joelhos e estendido sobre o soalho de carvalho. "Deus! O Senhor se importa?" orei. 
"No quero te ensinar como dirigir o teu mundo, mas, por favor, d-me algum sinal de que o Senhor realmente existe!  tudo o que eu peo."
      -  Fazia quatro anos que eu vinha lutando para ter "um relacionamento pessoal com Deus", como a frase diz, e apesar disso Deus me tratou pior do que qualquer 
de meus amigos. Agora tudo se afunilava para uma pergunta derradeira: Como voc pode ter um relacionamento pessoal se voc nem mesmo tem certeza de que a outra pessoa 
existe? Com Deus, jamais pude ter certeza.
      - Orei durante pelo menos quatro horas. Em alguns momentos eu me sentia um tolo; em outros momentos, profundamente sincero. Eu tinha a sensao de estar no 
escuro, prestes a despencar, mas sem qualquer idia de onde ia pr os ps. Isso era problema de Deus.
      -  Finalmente, s quatro da manh, ca em mim. Nada havia acontecido. Deus no havia respondido. Por que continuar me torturando? Por que simplesmente no 
esquecer Deus e continuar vivendo, tal como a maioria das pessoas do mundo?
      -  No mesmo instante senti uma sensao de alvio e liberdade, como se eu tivesse acabado de ser aprovado numa prova final ou de receber a carta de motorista 
pela primeira vez. A luta terminara. A minha vida era minha, e de ningum mais.
      - Agora parece uma tolice, mas foi isto que fiz em seguida. Apanhei minha Bblia e alguns outros livros evanglicos, desci pela escada e sa pela porta dos 
fundos. Cuidadosamente fechei a porta atrs de mim, para no acordar ningum. No quintal havia uma churrasqueira, e eu empilhei os livros ali, joguei fluido para 
isqueiro sobre os livros e acendi um fsforo. Era uma noite sem luar, e as chamas balanavam altas e com fulgor. Versculos bblicos e pedaos de livros de teologia 
se retorciam, escureciam e finalmente se desmanchavam em partculas de cinza e ascendiam ao cu. Minha f tambm ia-se dispersando.
      -  Fiz mais uma viagem escada acima, e desci carregado com mais livros. Devo ter feito essa viagem umas oito vezes nas duas horas que se seguiram. Comentrios, 
livros usados no seminrio, o rascunho de meu livro sobre J - tudo isso foi embora com a fumaa. Provavelmente teria queimado todos os meus livros caso no tivesse 
sido interrompido por um bombeiro irritado que vestia uma capa de chuva amarela. "O que  que voc pensa que est fazendo?" disse ele. Algum havia telefonado dando 
o alarme. Fiquei procurando uma desculpa qualquer e, por fim, disse-lhe que estava apenas queimando lixo.
      -  Depois de o bombeiro lanar alguns produtos qumicos em minha fogueira e espalhar cinzas sobre ela, ele me deixou ir embora. Subi as escadas e me afundei 
na cama, cheirando a fumaa. J estava quase amanhecendo, e finalmente senti paz. Um grande peso fora tirado de cima de mim. Eu tinha sido honesto comigo mesmo. 
Qualquer fingimento tinha-se ido, e eu no mais sentia a presso para crer naquilo de que jamais poderia ter certeza. Eu me senti convertido, mas convertido de Deus.
***
      Fico feliz porque a minha profisso no  a de conselheiro. Quando estou sentado em frente a algum que derrama seu corao, tal como o Richard, nunca sei 
o que dizer. No disse quase nada naquela tarde, e talvez tenha sido melhor assim. No teria sido de muita ajuda para mim encontrar defeitos nos "testes" que Richard 
idealizou para Deus.
      Ele parecia muito preocupado quanto ao livro sobre J, que devia sair do prelo em poucas semanas. A editora sabia acerca de sua mudana de pensamento, disse 
ele, mas a primeira edio j estava sendo impressa. Eu lhe garanti que eu continuava endossando o livro. Era o contedo do livro que eu endossava, mais do que sua 
posio pessoal.
      -  Alm do mais, tambm j mudei de idia sobre algumas coisas que escrevi nos ltimos dez anos - disse a ele.
      Richard estava exausto depois de falar por tanto tempo, mas parecia mais descontrado quando se levantou para ir embora.
      -  Talvez todos os meus problemas tenham comeado com o estudo que fiz de J - disse. - Eu antes gostava muito de J - ele no tinha medo de ser honesto com 
Deus. Ele encarou Deus. Acho que a diferena entre ns  o que aconteceu no final. Com J, depois de todo seu sofrimento, Deus agiu  altura. Comigo ele no agiu 
 altura.
      Richard apertou minha mo e desapareceu escada abaixo.
      A noite havia cado, e uma clula fotoeltrica j acendera as luzes da escada. Enquanto eu ouvia Richard descer os degraus, senti uma profunda tristeza. Ele 
era jovem e bronzeado e com sade. Alguns diriam que ele no tinha motivos de verdade para se desesperar. Mas, enquanto eu o ouvia, observando-o cerrar os punhos 
e vendo os sinais de tenso em seu semblante, finalmente percebi qual a origem de sua ira.
      Richard estava sentindo uma dor profunda: a dor de sentir-se trado. A dor de um amante que acorda e de repente descobre que tudo acabou. Ele havia confiado 
sua vida a Deus, e Deus o havia decepcionado.
Captulo 3 - As Perguntas Que Ningum Faz em Voz Alta
      ALGUMAS VEZES as perguntas mais importantes, aquelas que so nebulosas e intangveis durante a maior parte de nossas vidas, podem se cristalizar num nico 
instante. A visita de Richard propiciou um instante assim para mim. Na realidade suas queixas - lar destroado, romance acabado, emprego perdido - no eram coisas 
incomuns. E, assim mesmo, naquela noite, junto  churrasqueira, ele havia, num final dramtico e teatral, resolvido as dvidas e perguntas que afligem quase todos 
ns. Por que Deus no conserta as coisas - pelo menos algumas delas? Ser que ele no podia agir de forma um pouco menos misteriosa?
      Richard, tomado de ira e dor, no expressou suas dvidas de maneira ordenada; experimentou-as mais como sentimentos de traio do que como questes de f. 
Todavia  medida que eu matutava sobre nossa conversa, tornava-se evidente que Richard tinha trs grandes interrogaes a respeito de Deus. Quanto mais eu ponderava 
acerca disso, mais eu percebia que essas perguntas esto instaladas em algum lugar dentro de todos ns. Porm, poucas pessoas fazem-nas em voz alta, pois na melhor 
das hipteses parecem mal-educadas; na pior das hipteses, herticas.
     1.  Deus  injusto? Richard havia tentado seguir a Deus, mas ainda assim sua vida se destroou. Como seus desapontamentos se reconciliavam com as promessas 
bblicas de recompensas e felicidade? E que dizer das pessoas que negam abertamente a Deus, mas assim mesmo prosperam?  uma velha queixa, to velha quanto J e 
os Salmos, mas continua sendo uma pedra de tropeo para a f.
     2.  Deus est calado? Trs vezes em que se defrontou com escolhas cruciais em sua vida educacional, profissional e afetiva, Richard implorou a Deus que lhe 
desse orientao clara. Em cada uma dessas vezes imaginou que tinha percebido a vontade de Deus, para no final descobrir que aquela escolha tinha conduzido ao fracasso. 
"Que tipo de Pai  ele?" Richard indagou. "Ele tem satisfao em me ver dando com a cara no cho? Disseram-me que Deus me ama e tem um plano maravilhoso para minha 
vida. timo. Ento por que ele no me conta que plano  esse?"
     3.  Deus est escondido? Acima de todas, essa pergunta obcecava Richard. Para ele parecia que um mnimo irredutvel, uma questo fundamental da teologia, era 
que Deus devia de algum modo provar sua prpria existncia: "Como posso manter um relacionamento com uma Pessoa que nem mesmo sei se existe?" No entanto, para Richard 
parecia que Deus havia-se escondido de propsito, at daqueles que o procuravam. E, naquela madrugada dramtica, quando a viglia de Richard no obteve resposta, 
ele simplesmente no quis mais saber de Deus.
      Refleti freqentemente sobre essas trs perguntas durante um trabalho jornalstico que me fora dado para realizar na Amrica do Sul. No Peru, um piloto missionrio 
me transportou at um pequeno vilarejo indgena da tribo shipibo. Ele pousou o avio anfbio, taxiou at a margem do rio, e me conduziu ao longo de uma trilha na 
selva at a "rua" principal do vilarejo: um caminho lamacento cercado por uma dzia de cabanas de palafitas, cobertas com folhas de palmeiras. Levou-me at ali para 
mostrar-me uma pujante igreja, estabelecida havia quarenta anos. Mas tambm me mostrou um marco de granito logo ao lado do caminho principal e me contou a histria 
de um jovem missionrio que havia morado no local.
      Quando seu nico filho, de seis meses de idade, faleceu devido a um ataque repentino de vmito e diarria, o jovem missionrio deu a impresso de que ia ter 
um colapso.
      Esculpiu um marco em pedra do prprio lugar - o marco que estvamos vendo - sepultou o corpo da criancinha e plantou uma rvore ao lado do tmulo. Diariamente, 
na hora mais quente, quando todas as outras pessoas procuravam estar  sombra, o missionrio caminhava at o rio e trazia de volta um jarro d'gua para regar a rvore. 
Ento permanecia de p ao lado do tmulo, como se, com sua sombra, fosse proteg-lo do escaldante sol equatorial. s vezes chorava, s vezes orava, e s vezes simplesmente 
ficava ali em p com um olhar vago. Sua esposa, os membros da igreja indgena e outros missionrios, todos tentaram confort-lo, mas sem resultado.
      Por fim, o prprio missionrio ficou doente. A mente delirava, ele tinha diarria sem parar. Foi levado de avio para Lima, onde os mdicos fizeram minuciosos 
exames em busca de quaisquer indcios de ameba ou de outros parasitas tropicais, mas nada encontraram. Nenhum dos remdios que tentaram deu resultado. Diagnosticaram 
seu problema como "diarria histrica" e mandaram-no, junto com a esposa, de volta para os Estados Unidos.
      Enquanto eu estava ali ao lado do envelhecido marco de granito, que as ndias agora usavam como um lugar para descansar seus cntaros d'gua, tentei me colocar 
no lugar daquele jovem missionrio. Fiquei imaginando o que ele teria orado enquanto ficava ali em p sob o sol do meio-dia, e aquelas mesmas trs perguntas vinham 
o tempo todo  mente. Meu guia havia dito que o homem se atormentava com a questo da justia. Seu filhinho nada fizera de errado. O jovem missionrio trouxera a 
famlia para servir a Deus na selva - era essa a recompensa deles? Ele tambm havia orado, pedindo algum sinal da presena de Deus, ou pelo menos uma palavra de 
conforto. Mas no sentiu nada disso. Como se ele estivesse inseguro quanto  prpria compaixo de Deus, o missionrio desenvolveu em seu prprio corpo uma forma 
de sofrimento por compaixo.
      Os ateus de verdade, creio eu, no se sentem decepcionados com Deus. Nada esperam e nada recebem. Mas aqueles que entregam suas vidas a Deus, no importa quem 
seja, instintivamente esperam algo em troca. Essas expectativas esto erradas?
      No vi o meu amigo Richard por um bom tempo. Eu orava regularmente por ele, mas todas as minhas tentativas de fazer contato com ele foram inteis. Seu telefone 
tinha sido desligado, e soube que havia-se mudado para outro lugar. Sua editora finalmente me enviou um exemplar de seu livro sobre J, e o livro descansava em minha 
estante como uma potente advertncia contra escrever apressadamente demais sobre questes de f.
      Ento num certo dia, cerca de trs anos depois, dei de cara com o Richard no centro de Chicago. Parecia bem, tendo ganhado um pouco de peso e tendo deixado 
o cabelo crescer alguns centmetros a mais, ele tinha perdido a aparncia sria e obcecada. Pareceu contente em me ver, e combinamos almoar juntos.
      -  Na ltima vez em que me encontrei com voc, acho que eu estava na pior - disse ele com um sorriso, poucos dias depois, ao vir ao meu encontro num restaurante 
de comida mexicana. - A vida est cuidando muito melhor de mim agora.
      Possua um emprego promissor e, fazia tempo, tinha deixado para trs o fracasso amoroso.
      Logo a nossa conversa se encaminhou para Deus, e rapidamente ficou claro que Richard no tinha-se recuperado completamente. Uma espessa crosta de cinismo cobria 
agora as feridas, mas estava com tanta raiva de Deus quanto antes.
      A garonete encheu a xcara com um caf recm-passado, Richard envolveu a xcara com suas mos e ficou com os olhos fitos no liquido escuro e fumegante.
      - Hoje tenho uma idia melhor sobre aquele perodo maluco - disse. - Acho que descobri o que houve de errado. Posso lhe dizer a hora e o minuto exatos em que 
comecei a duvidar de Deus, e isso no aconteceu em Wheaton ou em meu quarto naquela noite em que fiquei acordado at tarde orando. Ele ento contou um incidente 
que havia ocorrido bem no incio de sua vida crist.
      -  Uma coisa me aborrecia desde o incio: o conceito de f. Isso parecia um buraco negro capaz de engolir qualquer pergunta honesta. Eu perguntava para o assessor 
da A.B.U. sobre o problema do sofrimento, e ele despejava alguma coisa sobre f. "Creia em Deus, quer queira quer no", ele dizia. "Os sentimentos viro em seguida." 
Eu fiz que cria, mas agora posso ver que os sentimentos nunca vieram. Eu estava apenas patinando na lama.
      -  J naquela poca eu estava buscando uma prova concreta de Deus como uma alternativa para a simples f. E um dia eu a encontrei - justamente na televiso. 
Enquanto eu ia mudando de canal ao acaso, apareceu na tela uma grande reunio de cura que estava sendo dirigida pela evangelista Kathryn Kuhlman. Assisti por alguns 
minutos enquanto ela trazia vrias pessoas para o palco e as entrevistava. Cada uma contava uma histria maravilhosa de cura sobrenatural. Cncer, problemas cardacos, 
paralisia - era como se houvesse uma enciclopdia mdica ali no palco.
      -  Enquanto eu assistia ao programa de Kathryn Kuhlman, minhas dvidas gradualmente se desfizeram. Finalmente eu havia encontrado algo real e tangvel. Kuhlman 
pediu a um msico que cantasse sua msica favorita, "Tocou-me". Era isso que eu precisava, pensei comigo mesmo: um toque, um toque pessoal de Deus. Ela ofereceu 
aquela promessa, e eu me atirei a isso.
      -  Trs semanas depois, quando Kathryn Kuhlman veio a um Estado vizinho, matei as aulas e viajei durante meio dia para assistir a uma de suas reunies de cura. 
O ambiente estava carregado - uma suave msica de rgo ao fundo, o murmrio de pessoas orando em voz alta, algumas em lnguas estranhas, e a curtos intervalos uma 
alegre interrupo quando algum ficava em p e exclamava: "Estou curado!"
      -  Uma pessoa em especial causou impacto, um homem de Milwaukee, Estado de Wisconsin, que fora levado de maca para a reunio. Quando ele andou - isso mesmo, 
andou - no palco, todos ns aplaudimos entusiasticamente. Ele nos contou que era mdico. E eu fiquei ainda mais impressionado. Estava com um cncer incurvel no 
pulmo, ele disse, e haviam-lhe dado seis meses de vida. Mas agora, naquela noite, ele acreditava que Deus o havia curado. Estava andando pela primeira vez em meses. 
Ele se sentia timo. Glria a Deus!
      - Anotei o nome do homem e eu estava praticamente flutuando nas nuvens quando sa da reunio. Eu nunca tinha visto tanta certeza de f. Minha busca terminara. 
Eu tinha tido uma prova de um Deus vivo atravs daquelas pessoas no palco. Se ele era capaz de operar milagres tangveis nelas, ento com toda certeza ele tinha 
algo de maravilhoso reservado para mim.
      -  Eu quis entrar em contato com o homem de f que eu vira na reunio; tanto queria que exatamente uma semana depois liguei para o Auxlio  Lista de Milwaukee 
e consegui descobrir o nmero do telefone do mdico. Quando disquei, uma mulher atendeu. "Eu gostaria de falar com o Dr. S_____", disse.
      - Houve um longo silncio. "Quem quer falar?", finalmente ela disse. Imaginei que ela estava simplesmente filtrando os telefonemas de pacientes ou algo parecido. 
Eu disse o meu nome e disse a ela que admirava o Dr. S_____, e que tinha querido conversar com ele desde a reunio de Kathryn Kuhlman. Tambm disse que tinha ficado 
bastante emocionado com a histria dele.
      - Uma vez mais houve um longo silncio. Ento ela falou num tom montono, pronunciando lentamente cada palavra. "Meu... marido... morreu." S aquela nica 
sentena, nada mais, e ela desligou o telefone.
      - No consigo descrever para voc como aquilo me desmontou. Eu estava arrasado. Entrei meio atordoado no cmodo ao lado, onde minha irm estava sentada. "Richard, 
o que aconteceu?" ela indagou. "Est tudo bem com voc?"
      -  No, no estava tudo bem. Mas no dava para falar a respeito. Eu estava chorando. Minha me e minha irm tentaram arrancar de mim alguma explicao. Mas 
o que  que eu podia dizer para elas? Para mim, a certeza em que eu havia arriscado a minha vida tinha morrido com aquele telefonema. A chama da eternidade havia 
brilhado com fulgor durante uma nica, resplendente e maravilhosa semana. Agora tudo eram trevas.
      Richard tinha os olhos presos no fundo da xcara de caf. A msica de marimba, sendo tocada ao fundo, tinha um som metlico e soava desagradavelmente alto.
      - No estou entendendo - comentei. - Isso aconteceu muito antes de voc ir para Wheaton e se formar em teologia e escrever um livro...
-   verdade, mas tudo comeou naquela poca - ele me interrompeu. - Tudo que veio em seguida - Wheaton, o livro sobre J, os grupos de estudo bblico - foi uma 
tentativa desesperada de refutar aquilo que eu devia ter aprendido com aquele telefonema. No existe ningum l em cima, Philip. E, se por algum acaso Deus existe, 
ento ele est brincando conosco. Por que ele no pra de ficar brincando e se mostra?
***
      Richard logo mudou o assunto da conversa, e passamos o resto do almoo pondo em dia os ltimos trs anos. Continuou insistindo que era feliz. Talvez tenha 
insistido com excessiva veemncia, mas de fato parecia mais satisfeito.
      J no fim do almoo, quando saborevamos a sobremesa, um sorvete, ele trouxe  tona o encontro anterior, trs anos antes.
      - Voc deve ter pensado que eu estava meio maluco, invadindo sua casa e despejando a histria de toda minha vida, sendo que nunca antes tnhamos nos encontrado.
      -  Em absoluto - respondi. - Por alguma estranha razo, nunca fui capaz de afastar aquela conversa de minha mente. Na realidade, suas queixas contra Deus ajudaram-me 
a compreender melhor as minhas prprias.
      Ento contei a Richard acerca dessas trs perguntas. Depois de t-las explicado, perguntei-lhe se elas resumiam as queixas que ele tinha contra Deus.
      -  Bem, a minha dvida era mais uma espcie de sentimento - eu me sentia abandonado, como se Deus tivesse me enganado s para ver o meu tombo. Mas voc est 
certo quanto ao que penso sobre isso; essas perguntas estavam por trs dos meus sentimentos. Certamente Deus estava sendo injusto. E ele sempre parecia escondido, 
e calado. ...  isso mesmo.  exatamente isso!
      - Por que Deus no responde a essas perguntas?
      Richard erguera a voz e estava brandindo os braos, quase como um evangelista. Felizmente o restaurante j tinha-se esvaziado.
      -  Se Deus somente respondesse a essas perguntas - se ele somente respondesse a uma delas. Se, digamos, ele apenas falasse em voz alta uma nica vez para que 
todos pudessem ouvir, ento eu creria. Provavelmente o mundo inteiro creria. Por que ele no faz isso?
Captulo 4 - O Que Aconteceria Se...
      "SE SOMENTE", Richard havia dito. Se somente Deus solucionasse esses trs problemas, ento a f floresceria como flores na primavera. No  verdade?
      Aconteceu que, no mesmo ano em que eu me encontrei com Richard no restaurante mexicano, eu estava estudando os livros de xodo e Nmeros. E, muito embora as 
perguntas de Richard ainda estivessem martelando em minha mente, levou algum tempo para que eu reparasse num paralelo curioso. Ento certo dia de repente algo saltou 
da pgina: xodo descrevia o prprio mundo que Richard almejava! Mostrava Deus entrando quase que diariamente na histria humana. Mostrava-o agindo com absoluta 
justia e falando de tal forma que todos podiam ouvir. E mais do que isso: ele at mesmo se fez visvel!
      O contraste entre os dias dos israelitas e os nossos, o sculo vinte, me ps a pensar sobre como Deus dirige o mundo, e eu retornei e tornei a fazer as trs 
perguntas. Se Deus de fato tem o poder para agir justamente, falar audivelmenie e aparecer visivelmente, por que ento ele parece to relutante em intervir em nossos 
dias? Talvez o registro dos israelitas no deserto contenha alguma pista.
      Pergunta: Deus  injusto? Por que ele no age com coerncia, punindo as pessoas ms e recompensando as boas? Por que coisas terrveis acontecem a pessoas boas 
e ms, sem que se possa discernir um padro de comportamento?
      Imagine um mundo planejado de tal forma que experimentemos um pequeno belisco a cada pecado e uma agradvel sensao de prazer a cada ao correta. Imagine 
um mundo em que cada doutrina errnea atraia sobre si um relmpago, ao passo que cada repetio do Credo Apostlico estimule os pontos de prazer dos nossos crebros.
      O Antigo Testamento registra uma experincia quase to ostensiva de "modificao do comportamento": a aliana de Deus com os israelitas. No deserto do Sinai 
Deus resolveu recompensar e punir seu povo com uma justia estrita, baseada em leis. Ele assinou a promessa de justia com sua prpria mo, subordinando-a a uma 
condio: os israelitas tinham de seguir as leis que ele outorgara. Ele ento fez com que Moiss esboasse para o povo os termos dessa promessa:
     
Resultados da Obedincia
Resultados da Desobedincia
Cidades e reas rurais prsperas
Violncia, crime e pobreza em todos os cantos
Nenhum problema de esterilidade entre homens, mulheres ou rebanhos
Infertilidade entre as pessoas e os rebanhos
Sucesso garantido nas colheitas
Perda de colheitas, gafanhotos e vermes
Condies favorveis de tempo
Calor abrasador, seca, pragas e mangra
Vitrias militares asseguradas
Dominao por outras naes
Imunidade total a doenas
Febre e inflamao; loucura, cegueira, mente confusa

      Se fossem obedientes, disse Moiss, Deus os exaltaria "sobre todas as naes da terra"; sempre estariam "em cima, e no debaixo". Com efeito, aos israelitas 
prometeu-se proteo de praticamente todo tipo de misria e infelicidade humana. Por outro lado, caso desobedecessem, tornar-se-iam "pasmo, provrbio e motejo entre 
todos os povos a que o SENHOR te levar.... Porquanto no serviste ao SENHOR teu Deus com alegria e bondade de corao, no obstante a abundncia de tudo. Assim 
com fome, com sede, com nudez e com falta de tudo, servirs aos teus inimigos, que o SENHOR enviar contra ti."
      Continuei lendo, vasculhando os livros de Josu e Juizes para ver os resultados dessa aliana baseada num sistema "justo" de retribuio e punio. Num prazo 
de cinqenta anos os israelitas tinham-se desintegrado, passando a um estado de anarquia total. Grande parte do restante do Antigo Testamento relata a histria deprimente 
das maldies (no as bnos) preditas se tornarem verdade. Apesar de todos os abundantes benefcios da aliana, Israel deixou de obedecer a Deus e assim cumprir 
as condies estipuladas.
      Anos mais tarde, quando os autores do Novo Testamento olharam para aquela histria passada, eles no apresentaram a aliana como um exemplo em que Deus se 
relacionava com absoluta coerncia e justia com o seu povo. Ao invs disso, disseram, a antiga aliana servia como uma lio objetiva: demonstrava que os seres 
humanos eram incapazes de cumprir um contrato com Deus. A eles parecia claro que fazia-se necessria uma nova aliana (um "novo testamento") com Deus, uma aliana 
baseada no perdo e na graa. E  exatamente por essa razo que o "Novo Testamento" existe.
      Pergunta: Deus est calado? Se ele est to interessado em que faamos sua vontade, por que ele no a revela de uma maneira mais clara?
      Inmeras pessoas afirmam ouvirem a palavra de Deus hoje em dia. Algumas esto malucas, como  o caso do louco que, "por ordem de Deus", atacou com martelo 
a esttua Piet, de Michelangelo, ou do assassino poltico que afirma que Deus lhe disse para atirar no presidente. Outros parecem sinceros mas desorientados, como 
os seis estranhos que contaram  escritora Joni Eareckson que Deus os havia orientado a se casarem com ela. Ainda outros parecem genuinamente levar adiante a tradio 
dos profetas e apstolos, entregando a palavra de Deus a seu povo. Por isso podemos estar presos num estado de ambigidade, incertos se aquilo que ouvimos  realmente 
uma palavra da parte de Deus.
      Por que Deus no simplifica a questo simplesmente, dizendo-nos o que fazer? Descobri que ele o fez uma vez, entre os israelitas acampados no deserto do Sinai. 
Devemos desmontar nossas barracas e viajar hoje, ou devemos deix-las armadas? Para obter a resposta, um israelita inquiridor necessitava apenas dar uma olhada para 
a nuvem acima do tabernculo. Se a nuvem partisse, Deus queria que seu povo partisse.
      Se a nuvem permanecesse, isso significava que deviam permanecer. (Sem problema algum era possvel conferir a vontade de Deus a qualquer hora do dia ou da noite; 
 noite a nuvem era incandescente como uma torre de fogo.)
      Deus estabeleceu outras maneiras, como o lanar sortes e o Urim e o Tumim, para comunicar diretamente sua vontade, mas a maioria dos assuntos j estava previamente 
decidida. Ele havia dito sua vontade para os israelitas num conjunto de regras, codificadas em 613 leis que cobriam toda a gama de comportamentos, desde o assassinato 
at cozinhar um cabrito no leite de sua me. Naqueles dias pouqussimas pessoas se queixavam de orientao ambgua.
      Mas ser que uma clara palavra da parte de Deus aumentou a probabilidade de obedincia? Aparentemente no. "No subais nem pelejeis [contra os amorreus]", 
disse Deus, "pois no estou no meio de vs, para que no sejais derrotados diante dos vossos inimigos." E os israelitas imediatamente subiram e lutaram contra os 
amorreus e foram derrotados por seus inimigos. Marchavam quando instrudos a manter a posio, fugiam atemorizados quando instrudos a marchar, lutavam quando instrudos 
a fazer paz, faziam paz quando instrudos a lutar. O passatempo nacional deles passou a ser inventar maneiras de quebrar os 613 mandamentos. Orientao ntida se 
tornou para aquela gerao uma afronta, da mesma maneira como orientao obscura se tornou para a nossa.
      Tambm observei um padro marcante nos relatos do Antigo Testamento: a prpria clareza da vontade de Deus tinha um efeito desanimador na f dos israelitas. 
Por que buscar a Deus quando ele j se havia revelado de forma to clara? Por que dar um passo de f quando Deus j havia garantido os resultados? Por que lutar 
com o dilema de escolhas conflitantes quando Deus j havia solucionado o dilema? Em suma, por que os israelitas deviam agir como adultos quando podiam agir como 
crianas? Pois ento, comportavam-se mesmo como crianas, murmurando contra seus lderes, descumprindo as regras estritas quanto ao man, choramingando a cada vez 
que faltava gua ou comida.
       medida que estudava a histria dos israelitas, pensei duas vezes sobre o "ideal" da orientao clara de Deus. Talvez atenda a algum propsito - pode, por 
exemplo, fazer um bando de escravos recm-libertados atravessar um deserto hostil - mas no parece estimular o desenvolvimento espiritual. Na realidade, para os 
israelitas isso quase eliminou por completo a necessidade de f; a orientao clara e definida esvaziou a liberdade, tornando cada escolha uma questo de obedincia 
e no de f. E nos quarenta anos de peregrinao pelo deserto os israelitas foram to mal no teste da obedincia que Deus se viu obrigado a comear de novo com uma 
nova gerao.
      Pergunta: Deus est escondido? Por que ele simplesmente no se revela visivelmente em algum momento, e cala os cticos de uma vez por todas?
      O que o meu amigo Richard queria, solitrio em seu quarto s duas da madrugada - o que o astronauta sovitico queria, quando, pela escotilha, procurou por 
Deus no espao escuro fora de sua nave espacial -  (para aqueles que ainda anseiam) o ansioso desejo de nossa era. Queremos provas, demonstraes, uma apario 
pessoal, de modo que o Deus de que ouvimos falar se torne no Deus que podemos ver.
      Aquilo que ansiamos aconteceu uma vez. Durante algum tempo Deus em pessoa realmente se revelou, e um homem conversou com ele face a face assim como conversaria 
com um amigo. Eles se encontraram, Deus e Moiss, numa barraca armada logo ali fora do acampamento israelita. O encontro no foi secreto. Sempre que Moiss se dirigia 
para a barraca para conversar com Deus, todos os israelitas se ajuntavam para ver. Uma coluna de nuvem, a presena visvel de Deus, impedia a entrada na barraca. 
Ningum,  exceo de Moiss, sabia o que se passava l dentro; ningum queria saber. Os israelitas haviam aprendido a manter distncia da divindade. "Fala-nos tu, 
e te ouviremos", disseram a Moiss, "porm no fale Deus conosco, para que no morramos." Aps cada encontro Moiss surgia refulgindo; as pessoas tinham de esconder 
o rosto at que ele se cobrisse com um vu.
      Naqueles dias havia pouqussimos ateus, se  que havia algum. Nenhum israelita escreveu peas teatrais sobre esperar um Deus que jamais chegava. Eles podiam 
enxergar as provas visveis da realidade de Deus fora da barraca do encontro ou nas espessas nuvens de tempestade que pairavam ao redor do monte Sinai. Um ctico 
somente necessitava fazer uma caminhada at a trmula montanha, e ver por si mesmo.
      No entanto, o que aconteceu durante aqueles dias  quase um desafio  credulidade. Quando Moiss escalou a montanha sagrada, tempestuosa devido aos sinais 
da presena de Deus, aquelas mesmas pessoas que haviam sobrevivido s dez pragas do Egito, que haviam atravessado o mar Vermelho a seco, que haviam bebido gua de 
uma rocha, que naquele momento estavam digerindo em seus estmagos o milagre do man - aquelas mesmas pessoas ficaram aborrecidas ou impacientes, rebeldes ou ciumentas 
e aparentemente esqueceram tudo acerca de seu Deus. No momento em que Moiss desceu da montanha, estavam danando como pagos em volta de um bezerro de ouro.
      Deus no brincou de esconde-esconde com os israelitas; eles dispunham de inmeras provas objetivas a respeito da existncia de Deus. Mas, surpreendentemente 
- e eu mal podia acreditar nesse resultado, mesmo quando o lia - a orientao objetiva de Deus parecia produzir exatamente o oposto do efeito previsto. Os israelitas 
reagiram no com adorao e amor, mas com medo e rebelio aberta. A presena visvel de Deus nada fez em termos de aperfeioar uma f duradoura.
***
      Eu havia resumido as queixas de Richard quanto a Deus em trs perguntas. Mas xodo e Nmeros ensinaram-me que solues rpidas para essas trs perguntas podem 
no resolver os problemas bsicos de desapontamento com Deus. Os israelitas, embora expostos  luz brilhante da presena e orientao de Deus, eram um povo to inconstante 
como jamais houve igual. Em dez ocasies se levantaram contra Deus. At mesmo na prpria fronteira da Terra Prometida, com toda sua riqueza se mostrando diante deles, 
ainda estavam com saudades dos "velhos bons tempos" da escravido no Egito.
      Enquanto lia o Antigo Testamento, s vezes ficava imaginando como Richard teria se sado na pele de um israelita do passado. Ele havia dito: "Se to-somente 
Deus me desse um sinal, ento eu creria." Mas no funcionou assim nas deprimentes plancies do Sinai. Deus forneceu sinais em abundncia aos israelitas, e a f deles 
simplesmente se tornou preguiosa - no mais tinham de crer.
      Esses resultados desanimadores podem dar oportunidade a uma percepo mais profunda de por que Deus no intervm de modo mais direto hoje em dia. Alguns cristos 
anseiam por um mundo bem abastecido de milagres e sinais espetaculares da presena de Deus. Ouo sermes pungentes sobre a diviso das guas do mar Vermelho, as 
dez pragas e sobre o man dirio no deserto, como se os pregadores ansiassem que Deus soltasse seu poder daquele modo nos dias de hoje. Mas a viagem dos israelitas, 
em que estes tinham um roteiro j pr-estabelecido, deve nos levar a fazer uma pausa. Ser que uma erupo de milagres sustentaria a f? Provavelmente no; pelo 
menos no sustentaria o tipo de f em que Deus parece estar interessado. Os israelitas so uma grande demonstrao de que os sinais s conseguem nos tornar viciados 
em sinais, no em Deus.
       verdade que os israelitas eram um povo primitivo que saa da escravido. Mas os relatos bblicos estabelecem uma relao perturbadoramente familiar entre 
ns e eles.
      Conclu meu estudo dos israelitas ao mesmo tempo surpreso e confuso: surpreso por descobrir que a vida das pessoas muda muito pouco, mesmo quando so removidas 
as trs principais razes para o desapontamento com Deus - injustia, silncio e ocultamento; confuso pelas perguntas suscitadas diante das aes de Deus no planeta 
Terra. Ele mudou? Bateu em retirada? Foi embora?
      Quando Richard estava sentado na minha sala de estar, contando para mim a sua histria, naquele primeiro encontro, levantou repentinamente os olhos e exclamou 
com voz enrgica: "Deus no sabe o inferno que ele est fazendo com este mundo!" O que Deus est fazendo? Qual  o objetivo da experimentao humana? O que ele deseja 
de ns, afinal? E o que podemos esperar dele?

Sem de alguma forma me destruir nesse processo,
como Deus poderia se revelar de uma maneira que
no deixasse margem para dvidas? Se no houvesse
lugar para dvidas, no haveria lugar para mim.
- Frederick Buechner
*
Referncias bblicas: Deuteronmio 9, 7, 28; Romanos 3; Glatas 3; xodo 28, 40; Deuteronmio 1-2; xodo 19-20, 32-33; Deuteronmio 1.
***
Captulo 5 - A Fonte
      O QUE  que Deus est fazendo neste mundo? Por duas semanas me enfiei num chal no Estado do Colorado para ponderar acerca das trs perguntas de Richard,  
luz do que havia visto no Antigo Testamento. Trouxe comigo uma mala cheia de livros para estudar, mas, durante todo o tempo ali, abri somente uma Bblia.
      Comecei por Gnesis no final da primeira tarde, um dia de forte nevada. Era um ambiente perfeito para ler o relato da criao. As nuvens se abriram e pude 
assistir a um espetacular pr-do-sol, com o crepsculo se refletindo no cume das montanhas e flocos de neve caindo desses picos como se fossem algodo-doce cor-de-rosa. 
 noite, o tempo se fechou de novo, e a neve caiu com violncia.
      Lentamente, li a Bblia direto, de capa a capa. Quando cheguei a Deuteronmio, a neve cobria o degrau inferior da escada; quando alcancei os Profetas, ela 
alcanara a caixa de correspondncia; e, por fim, quando atingi o Apocalipse, tive de chamar um limpa-neve para desobstruir a sada da garagem. Mais de um metro 
e oitenta centmetros de neve branqussima caiu durante as duas semanas que passei num sto lendo a Bblia e olhando pela janela para as sempre-vivas vestidas de 
branco.
      Causou-me grande impacto o fato de que as impresses comuns que temos de Deus podem ser bem diferentes do Deus que a Bblia de fato retrata. Como ele realmente 
? Na igreja e numa faculdade crist aprendi a pensar em Deus como um esprito imutvel e invisvel, que possua qualidades tais como onipotncia, oniscincia e 
impassibilidade (incapacidade de emoes). Essas doutrinas, que teriam o objetivo de nos ajudar a compreender o ponto de vista de Deus, podem ser encontradas na 
Bblia, mas esto bem escondidas.
      Lendo a Bblia simplesmente, encontrei no uma nvoa esfumaada mas uma Pessoa de verdade. Uma Pessoa to singular e nica e cheia de vida como qualquer outra 
pessoa que conheo. Deus tem emoes profundas; ele sente prazer, frustrao e ira. Nos Profetas, ele chora e geme de dor. Em Isaas, ele se compara a uma mulher 
dando  luz: "Darei gritos como a que est de parto, e ao mesmo tempo ofegarei e estarei esbaforido." Vez aps vez Deus fica chocado com o comportamento de seres 
humanos. Quando os israelitas praticam o sacrifcio de crianas, ele parece atordoado por aes que -  um Deus onisciente que est falando aqui - ''nunca lhes ordenei, 
nem falei, nem me passou pela mente". Ele explica a necessidade de punir ao indagar com lamento: "De que outra maneira procederia eu?" s vezes, aps tomar uma deciso, 
ele "muda de idia". Sei que a palavra "antropomorfismo" tem a finalidade de explicar todas essas caractersticas prprias do ser humano. Mas, com certeza, as imagens 
que Deus "toma emprestado" da experincia humana apontam para uma realidade ainda mais forte.
      Enquanto eu lia a Bblia de ponta a ponta em meu refgio de inverno, eu me maravilhava com o quanto Deus permite que seres humanos o afetem. Eu estava despreparado 
para a alegria e angstia - a paixo - do Deus do Universo. Ao estudar "sobre Deus, ao domestic-lo e reduzi-lo a palavras e idias que se podem classificar em ordem 
alfabtica, eu tinha perdido a fora do relacionamento intenso que Deus busca acima de tudo mais. Aqueles que se relacionaram melhor com Deus - Abrao, Moiss, Davi, 
Isaas, Jeremias - trataram-no com intimidade chocante. Conversaram com Deus como se ele estivesse sentado numa cadeira ao lado deles, assim como algum conversaria 
com um conselheiro, um chefe, um pai ou um amante. Trataram-no como a uma pessoa.
      Aquela viagem ao Colorado ps minhas trs perguntas sobre a desiluso com Deus sob uma nova luz. Elas no so quebra-cabeas  espera de uma soluo, tal como 
voc encontraria no campo da matemtica ou da programao de computadores, ou mesmo da filosofia. Em vez disso, so problemas de relacionamento entre ns, seres 
humanos, e um Deus que deseja desesperadamente amar e ser amado por ns.
      Vi pouqussimas pessoas durante meu retiro de duas semanas. A maior parte do tempo fiquei aninhado no chal, atrs do muro de neve, lendo. Talvez tenha sido 
esse estar s, esse isolamento, que me ajudou a ver que eu sempre tomava apenas um ponto de vista: o ponto de vista humano. Possuo prateleiras cheias de livros que 
apresentam o dilema do ser humano. Uns so engraados, alguns angustiados, outros sarcsticos, e outros densamente filosficos, mas todos expressam o mesmo ponto 
de vista bsico: " assim que  o ser humano." De modo anlogo, pessoas decepcionadas com Deus concentram a ateno no ponto de vista humano. Quando fazemos nossas 
perguntas - Por que Deus  injusto? Por que est calado? Escondido? - na realidade estamos indagando: Por que Deus  injusto comigo? Por que parece calado comigo? 
E escondido de mim?
      Tentei pr de lado minhas indagaes existenciais, minhas decepes pessoais, e, em lugar disso, considerar o ponto de vista de Deus. Por que, em primeiro 
lugar, Ele parece querer ter contato com seres humanos? O que est procurando em ns, e o que impede ou dificulta essa procura? Retornei para a Bblia, tentando 
ouvir as palavras de Deus como se fosse pela primeira vez. L ele fala por si mesmo, e percebi que freqentemente eu no tinha prestado ateno. Eu tinha estado 
preocupado demais com meus sentimentos para poder ouvir atentamente os sentimentos dele.
***
      Sa do Colorado com uma imagem mental de Deus bem diferente. Aps duas semanas estudando a Bblia, tive uma forte sensao de que Deus no faz tanta questo 
de ser analisado. Ele deseja, principalmente, ser amado. Quase todas as pginas de sua Palavra sussurram essa mensagem. E voltei para casa sabendo que de alguma 
forma devia investigar esse relacionamento entre um Deus de amor ardente, que anseia o amor de seu povo, e as prprias pessoas, pois parecia que foi o rompimento 
daquele relacionamento que conduzia a todos os sentimentos de desapontamento com Deus. Assim sendo, decidi procurar a resposta para uma pergunta que jamais havia 
considerado: "Como  que  ser Deus?"
*
Referncias bblicas: Isaas 42; Jeremias 19, 9.
***
Segunda Parte: Estabelecendo Contato: O Pai
Captulo 6 - Negcio Arriscado
      PARA COMPREENDER como  que  ser Deus, s h um lugar para comear: o instante da criao. Com freqncia, Gnesis 1  lido como um preldio, pois nossas 
mentes se apressam para a ruptura decisiva do captulo 3 ou para a discusso contempornea a respeito dos processos utilizados na criao. Mas Gnesis 1 nada diz 
acerca dos processos ou da tragdia que seguiu. Traa o esboo mais simples de nosso mundo - Sol e estrelas, oceanos e plantas, peixes e animais, homem e mulher 
- junto com o prprio comentrio de Deus sobre cada nova obra.
      "E viu Deus que isso era bom" - cinco vezes a nota ressoa cadenciadamente como num tambor. E, terminada a criao, "viu Deus tudo quanto fizera, e eis que 
era muito bom". Outros trechos da Bblia recordam o ocorrido com mais entusiasmo. "As estrelas da alva juntas alegremente cantavam, e rejubilavam todos os filhos 
de Deus", relatou orgulhosamente Deus a J. Provrbios vai mais alm: "Eu estava com ele e era seu arquiteto, dia aps dia era as suas delcias, folgando perante 
ele em todo o tempo; regozijando-me no seu mundo habitvel, e achando as minhas delcias com os filhos dos homens."
      A Criao foi sentida por Deus - desde aquele momento inicial. Todo artista tem carregado uma imagem daquela sensao criativa, uma vibrao solidria que 
reverbera em sua obra: um arteso que examina seu trabalho acabado e conclui: "Muito bom"; um ator que no consegue evitar um largo sorriso quando o pblico se pe 
em p e aplaude; at mesmo uma criana que molda um castelo de areia.
      O antroplogo e ensasta Loren Eiseley conta como experimentou o prazer da criao original. J em idade avanada, caminhando por uma praia deserta, encontrou 
abrigo sob a proa de um barco em destroos, debaixo de uma neblina mida, e imediatamente dormiu. Quando abriu os olhos, estava olhando para as orelhinhas delicadas 
e a face inquiridora de uma raposinha, to novinha que no tinha aprendido a ter medo. Ali,  sombra do barco, o renomado naturalista e o filhote de raposa se miraram 
um ao outro. E ento a pequenina raposa, com um sorriso amplo e brincalho, escolheu, numa pilha, um osso de galinha e o sacudiu nos dentes. Impulsivamente Eiseley 
se inclinou e apanhou a outra ponta do osso, e teve incio a brincadeira.
      Diz Loren Eiseley: "Tem-se dito repetidas vezes que, por mais que se queira,  impossvel chegar a estar na dianteira do universo. O homem est destinado a 
ver somente o lado mais distante, a perceber a natureza somente quando em retirada. Contudo, ali estava algo no meio dos ossos, a raposa inocente e de olhos grandes 
me convidando para brincar. De alguma forma fantstica o universo estava fazendo-se girar para mostrar a sua face, e a face era to pequena que o prprio universo 
estava rindo. No era hora de preocupar-se com dignidade humana."
      "Por um breve momento eu mantive o universo afastado mediante o simples expediente de sentar de ccoras  entrada da toca de uma raposa e de ficar sacudindo 
de um lado para outro um osso de galinha." Foi o "ato mais significativo e solene que jamais realizarei", concluiu mais tarde, pois havia apanhado um lampejo do 
universo quando ele tem incio para todas as coisas. "Na verdade, esse era o universo de criana, um universo minsculo e risonho."
      Apesar do terrvel vazio de nosso universo, apesar da dor que o domina, algo persiste, como o aroma de um antigo perfume, desde aquele momento de princpios, 
em Gnesis 1. Eu tambm tenho tido essa experincia. Na primeira vez, eu tinha dobrado uma curva e vi o vale de Yosemite se descortinar diante de mim, com suas quedas 
d'gua como um vu de noiva se derramando sobre o granito recoberto de neve. Numa pequena pennsula de Ontrio, no Canad, vi cinco milhes de borboletas reais migratrias 
pararem para descansar, com suas asas como de papel adornando cada rvore com uma cor alaranjada, reluzente, translcida. No zoolgico das crianas, no Lincoln Park, 
em Chicago, cada animal que nasce - gorila, girafa ou hipoptamo - comea a vida de modo travesso e com exuberncia.
      Eiseley est certo; no corao do universo h um sorriso, uma pulsao de prazer transmitida desde o instante da criao. Todo novo pai que, pela primeira 
vez, carrega um nenezinho, meu nenezinho, trazendo-o bem junto  sua pele, sabe o que  isso. E foi esse o sentimento que Deus teve quando examinou o que havia feito 
e declarou que era bom. No incio, bem no incio, no houve qualquer desapontamento. Somente alegria.
Ado e Eva
      Gnesis 1, todavia, no nos conta toda a histria da criao. Para entender o que segue, voc tem de criar algo para voc mesmo.
      Cada criador, desde uma criana com um lpis de cor at Michelngelo, aprende que a criao envolve uma espcie de autolimitao. Sim, voc produz algo que 
no existia antes, mas somente s custas de eliminar outras opes ao longo do caminho. Desenhe a tromba encurvada na frente do elefante; agora ela no pode ser 
colocada atrs ou no lado. Apanhe um lpis comum e comece a desenhar; agora voc est-se limitando a preto e branco, no a cores.
      Nenhum artista, por maior que seja, escapa dessa limitao. Michelngelo sabia que tcnica nenhuma daria ao teto da Capela Sistina a realidade tridimensional 
que havia alcanado com suas esculturas. Quando decidiu usar tinta e pincel, limitou-se a si mesmo.
      Quando Deus criou, inventou os meios e as substncias  medida que prosseguia, fazendo existir aquilo que s tivera existncia em sua imaginao. E junto com 
cada livre escolha que realizou, veio uma limitao. (Os estudiosos hassiditas possuem uma palavra maravilhosa para a autolimitao de Deus: zimsum.) Deus escolheu 
um mundo de tempo e espao, um "meio" com restries peculiares: primeiro acontece A, ento acontece B, e ento C. Deus, que enxerga o futuro, o passado e o presente, 
tudo de uma vez, escolheu o tempo seqencial assim como um artista escolhe uma tela e uma paleta, e sua escolha imps limites, com os quais desde ento temos vivido.
      "Disse tambm Deus: Povoem-se as guas de enxames de seres viventes." Por trs dessa sentena jaziam mil decises: peixes com guelras em vez de pulmes, escamas 
em vez de plo, nadadeiras em vez de patas, sangue em vez de seiva. Em cada etapa Deus, o Criador, fez escolhas, eliminando alternativas.
      Gnesis fala do conjunto final de escolhas feitas por Deus, ento faz uma pausa, d marcha--r, e reconta a histria com mais detalhes. No sexto dia da criao 
o homem e a mulher vieram  existncia, duas criaturas diferentes de todas as demais. Deus as projetou  sua prpria imagem: Ele queria reconhecer algo de si nelas. 
Eram como um espelho, refletindo a prpria semelhana de Deus.
      Porm Ado e Eva possuam tambm um outro aspecto distintivo: ao contrrio de todas as outras criaturas de Deus, possuam uma capacidade moral de se rebelar 
contra seu criador. As esculturas podiam cuspir no escultor; as personagens da pea podiam reescrever o texto  medida que representassem. Eram, numa palavra, livres.
      "O homem  o risco de Deus", disse um telogo. Um outro, Sren Kierkegaard, expressou-o da seguinte maneira: "Deus tem, por assim dizer, se aprisionado a si 
mesmo em sua resoluo." Quase tudo que os telogos dizem acerca da liberdade humana soa um tanto quanto certo e um tanto quanto errado. Como um Deus soberano pode 
correr riscos ou se aprisionar a si mesmo? No entanto, a criao do homem e da mulher, por Deus, se aproximou desse tipo surpreendente de autolimitao.
      Considere esta descrio fantasiosa da criao, feita por William Irwin Thompson:

Imagine Deus no cu, cercado pelos coros de anjos que o adoram, cantando hosanas interminavelmente...
"Se eu criar um mundo perfeito, sei qual ser o resultado. Em sua absoluta perfeio, funcionar como uma mquina perfeita, jamais se desviando de minha vontade 
absoluta." Uma vez que a imaginao de Deus  perfeita, para ele no h qualquer necessidade de criar tal universo: para ele  suficiente imagin-lo para poder v-lo 
em todos os seus detalhes. Tal universo no seria muito interessante quer para o homem quer para Deus, por isso podemos presumir que a Divindade prosseguiu em suas 
meditaes. "Mas que aconteceria se eu criasse um universo que  livre, livre at mesmo de mim? O que aconteceria se eu escondesse minha Divindade de maneira que 
as criaturas fossem livres para cuidarem de suas prprias vidas, sem ficarem amedrontadas por minha Presena onipotente? As criaturas iro me amar? Posso ser amado 
por criaturas que no programei para me adorarem eternamente? Ser que da liberdade pode surgir o amor? Meus anjos me amam incessantemente, mas eles podem me ver 
a todo tempo. Que acontecer se eu criar seres  minha prpria imagem como um Criador, seres que sejam livres? Mas, se eu introduzir liberdade nesse universo, corro 
o risco de tambm introduzir o Mal, pois se forem livres, ento sero livres para se desviar de minha vontade. Bem... Mas o que acontecer se eu continuar a interagir 
com esse universo dinmico, o que acontecer se eu e as criaturas juntos nos tornarmos os criadores de uma grande pea csmica? O que acontecer se, de cada ocasio 
de manifestao do mal, eu reagir com um bem inimaginvel, um bem que supera totalmente o mal ao se manifestar inesperadamente a partir das prprias tentativas do 
mal de negar o Bem? Essas novas criaturas de liberdade iro ento me amar, unir-se-o a mim para criar o Bem a partir do Mal, algo novo a partir da liberdade? O 
que acontecer se eu me unir a elas no mundo de limitao e forma, o mundo de sofrimento e mal? Ah... num universo verdadeiramente livre, nem eu mesmo sei como isso 
acabar. Ser que eu mesmo tenho coragem de assumir esse risco em nome do amor?"
      
      Por que Ado e Eva iam querer se rebelar? Viviam num jardim-paraso, e, caso tivessem alguma queixa, podiam conversar abertamente a respeito com Deus, da mesma 
forma como fariam com um amigo. Mas havia aquela nica rvore proibida, aquela com o nome tentador, a "rvore do conhecimento do bem e do mal". Aparentemente Deus 
estava escondendo algo deles. Que segredo existia por detrs daquele nome? E como chegariam a saber se no experimentassem? Ado e Eva fizeram a sua prpria escolha 
"criativa": comeram a fruta, e a terra nunca mais foi a mesma.
      Gnesis 3 mostra exatamente o que Deus sentiu quando Ado e Eva desobedeceram: tristeza devido ao relacionamento rompido; ira em face da negao deles; e uma 
grande apreenso. "O homem se tornou como um de ns, conhecedor do bem e do mal; assim, para que no estenda a mo, e tome tambm da rvore da vida, e coma, e viva 
eternamente..."
      A criao, que em alguns aspectos tem a aparncia de liberdade absoluta, envolve limitao. E tal como Ado e Eva logo aprenderam, a rebelio, que tambm tem 
a aparncia de liberdade, tambm envolve limitao. Atravs de sua escolha distanciaram-se de Deus. Anteriormente haviam andado e conversado com Deus. Agora, quando 
ouviram-no aproximar-se, esconderam-se entre os arbustos. Uma separao desajeitada se introduzira e minara a intimidade. E cada tremor de desapontamento e decepo 
em nosso relacionamento com Deus  um abalo conseqente do ato primeiro de rebelio dos dois.

Talvez no percebamos o problema de, descrevamo-lo
assim, permitir que seres dotados de livre-arbtrio finito
coexistam com a Onipotncia. Parece implicar a cada
momento quase numa espcie de "abdicao divina**.
- C. S. Lewis
*
Referncias bblicas: J 38; Provrbios 8; Gnesis 1-3.
***
Captulo 7 - O Genitor
      APS VOLTAR do Colorado, li Gnesis repetidas vezes, vasculhando o livro dos princpios em busca de alguma pista daquilo que Deus tinha em mente para este 
mundo. Mesmo aps aquela primeira e marcante rebelio contra ele, Deus no rejeitou a sua criao. Gnesis conta histrias surpreendentes acerca de seus contnuos 
encontros pessoais com a humanidade. Se eu tivesse de resumir o "enredo" de Gnesis a uma nica sentena, seria algo mais ou menos assim: Deus aprende a ser um pai.* 
O rompimento no den havia mudado o mundo para sempre, destruindo a intimidade que Ado e Eva haviam sentido com Deus. Numa espcie de pr-aquecimento para a histria, 
Deus e seres humanos tinham de se acostumarem um ao outro. Os humanos determinaram o ritmo ao quebrarem todas as regras, e Deus reagiu com punies individuais. 
Como  que era ser Deus? Bem, como  que  ser o pai de algum com dois anos de idade?
      Ningum podia acusar Deus de ser muito cauteloso em intervir no princpio. Ele parecia um genitor sempre ao lado, quase mesmo cercando com os braos. Quando 
Ado pecou, Deus pessoalmente se encontrou com ele, explicando que toda a criao teria de se adaptar  escolha que ele, Ado, havia feito. Apenas uma nica gerao 
depois, um novo tipo de terror - o assassinato - apareceu na terra. "Que fizeste?" Deus cobrou de Caim. "A voz do sangue de teu irmo clama da terra a mim." Uma 
vez mais Deus foi ao encontro do transgressor e estabeleceu uma punio sob medida.
      A condio da terra e, alis, de toda a raa humana continuou a deteriorar at chegar a um ponto de crise, a qual a Bblia resume naquela que  talvez a sentena 
mais pungente jamais escrita: "Ento se arrependeu o SENHOR de ter feito o homem na terra, e isso lhe pesou no corao." Por trs dessa nica sentena se encontra 
todo o desconsolo e pesar que Deus sentiu como genitor.
      Que genitor humano no tem experimentado pelo menos uma pontada de tal remorso? Um filho adolescente se arranca de casa num mpeto de rebelio. "Odeio voc!" 
grita ele,  cata de palavras que provocaro a maior dor. Ele parece decidido a empurrar a faca na barriga de seus pais. Essa rejeio  o que Deus experimentou 
no apenas de um nico filho, mas de toda a raa humana. Como conseqncia, o que Deus havia criado, Deus destruiu. Toda a alegria de Gnesis 1 se desfez sob as 
agitadas guas do dilvio.
      Houve, porm, ento, No, aquele homem de f que "andava com Deus". Depois do remorso expresso em Gnesis de 3 at 7, voc quase consegue ouvir Deus suspirar 
de alvio quando No, na primeira coisa que faz de volta em terra firme, adora o Deus que o salvou. Finalmente algum sobre quem edificar. (Anos depois, numa mensagem 
a Ezequiel, Deus mencionaria No como um de seus trs seguidores mais justos.) Com o planeta inteiro recm-desencardido e com a vida novamente brotando, Deus concordou 
com uma aliana ou contraio que o prendia no somente a No, mas a cada criatura viva. Na aliana, havia uma promessa: Deus jamais tornaria a destruir toda a criao. 
      Voc poderia encarar a aliana com No como o mnimo irredutvel num relacionamento: uma parte concorda em no destruir a outra. E, todavia, mesmo naquela 
promessa Deus se limitou a si mesmo. Ele, o inimigo mortal de todo o mal no universo, prometeu suportar a maldade neste planeta por algum tempo - ou melhor, solucion-la 
atravs de algum meio que no fosse a aniquilao.  semelhana do genitor de um adolescente fugitivo, ele se obrigou ao papel de "Pai  Espera" (tal como a histria 
do Filho Prdigo, contada por Jesus, expressa to eloqentemente). Entretanto, antes que se passasse muito tempo, uma outra rebelio em massa, num local chamado 
Babel, testou a resoluo de Deus. Mas ele manteve a palavra: hoje em dia seis mil diferentes idiomas do testemunho da alternativa criativa que Deus tomou em vez 
da aniquilao.
      Na histria primitiva, ento, Deus agiu de modo to claro que ningum podia se queixar de ele estar escondido ou calado. Assim mesmo, aquelas primeiras intervenes 
revelaram um importante aspecto: cada uma era uma punio, uma resposta  rebelio humana. Se era inteno de Deus ter um relacionamento maduro com seres humanos 
livres, certamente sofreu uma srie de duros contratempos. Como ele poderia relacionar-se com sua criao como adulta, se eles continuavam se comportando como crianas?
O Plano
      Gnesis 12 assinala uma mudana importante. Pela primeira vez desde os dias de Ado, Deus interveio no para punir, mas para pr em ao um novo plano para 
a histria humana.
      No havia qualquer mistrio quanto ao que tinha em mente. Disse sem rodeios a Abrao: "De ti farei uma grande nao, e te abenoarei, e te engrandecerei o 
nome.... Em ti sero benditas todas as famlias da terra." Em alguma forma o plano aparece em Gnesis 13, 15, 16 e 17, bem como em dezenas de outras passagens do 
Antigo Testamento. Em vez de tentar restabelecer a condio original da terra de uma s vez, Deus comearia estabelecendo uma colnia pioneira, uma nova raa separada 
de todas as demais. Deslumbrado pelas promessas de Deus, Abrao deixou seu lar e migrou centenas de quilmetros at chegar  terra de Cana.
      Entretanto, apesar da honra tributada a ele como o pai dessa nova raa, Abrao se destaca como o primeiro exemplo na Bblia de algum profundamente frustrado 
com Deus. Milagres, ele os teve. Abrao hospedou anjos em sua casa e teve vises msticas de fogareiros fumegantes. Mas existia um problema perturbador: depois da 
promessa, depois do fulgor da revelao, veio o silncio - longos anos de um silncio que causava perplexidade.
      "Vai para a terra que te mostrarei", Deus disse. Mas Abrao encontrou Cana seca como um deserto, seus moradores morrendo de fome. Para continuar vivo, fugiu 
para o Egito.
      "Olha para os cus e conta as estrelas, se  que o podes... Ser assim a tua posteridade", Deus disse. Nenhuma promessa poderia ter deixado Abrao mais feliz. 
Aos setenta e cinco anos de idade, ainda vislumbrava uma tenda tomada pelos sons de crianas brincando. Aos oitenta e cinco, ps em ao um plano de emergncia com 
uma serva. Aos noventa e nove, a promessa parecia totalmente ridcula, e, quando Deus apareceu para confirm-la, Abrao riu na sua cara. Pai aos noventa e nove? 
Sara em roupas de gravidez aos noventa? Ambos deram gargalhadas s de pensarem.
      Um riso de zombaria e tambm de dor. Deus havia atiado num casal estril o maravilhoso sonho de fertilidade, e ento se afastou e observou enquanto eles avanavam 
na fragilidade da velhice. Que tipo de brincadeira era essa? O que  que ele queria?
      Deus queria f, diz a Bblia, e essa  a lio que Abrao finalmente aprendeu. Ele aprendeu a crer quando no sobrava qualquer motivo para crer. E, embora 
no tivesse vivido para ver os hebreus encherem a terra assim como as estrelas enchem os cus, Abrao viveu para ver Sara dar  luz uma criana - apenas uma - um 
menino, que para sempre preservou a memria da f absurda, pois o seu nome, Isaque, significa "riso".
***
      E esse padro continuou: Isaque casou-se com uma mulher estril, como tambm o filho deste, Jac. As respeitveis matriarcas da aliana - Sara, Rebeca e Raquel 
- todas passaram os anos da juventude delgadas e desesperadas. Elas tambm experimentaram o fulgor da revelao, seguida por perodos sombrios e solitrios de espera, 
os quais nada alm da f poderia preencher.
      Um apostador diria que Deus fez a sorte ir contra si mesmo. Um cnico diria que Deus zombou das criaturas que se esperava que ele amasse. A Bblia simplesmente 
emprega a frase cifrada "pela f" para descrever o que experimentaram. De algum modo, aquela "f" era o que Deus valorizava, e logo ficou claro que a f era o melhor 
meio de os humanos expressarem amor para com Deus.
Jos
      Se voc ler Gnesis de uma sentada, no deixar de observar uma mudana na maneira como Deus se relacionava com seu povo. De incio, ele ficava bem prximo, 
caminhando no jardim junto com eles, punindo seus pecados individuais, falando diretamente com eles, intervindo constantemente. Mesmo nos dias de Abrao, ele enviou 
mensageiros extraterrestres a domiclio. Na poca de Jac, entretanto, as mensagens eram bem mais ambguas: um misterioso sonho com uma escada, uma luta disputada 
tarde da noite. E j perto do final de Gnesis um homem chamado Jos recebeu orientao de formas bem inesperadas.
      Gnesis diminui a velocidade quando chega a Jos, e mostra Deus operando na maioria das vezes por trs dos bastidores. Deus falou a Jos no atravs de anjos, 
como fizera na poca de Abrao, mas atravs de meios tais como os sonhos de um tirano fara egpcio.
      Se algum teve um motivo vlido para ficar decepcionado com Deus, esse algum foi Jos. Suas corajosas investidas, querendo fazer o bem, nada lhe proporcionaram 
seno problemas. Interpretou um sonho para seus irmos, e estes jogaram-no numa cisterna. Resistiu a um convite sexual e foi parar numa priso egpcia. Interpretou 
um outro sonho para salvar a vida de um companheiro de cela, e o companheiro de cela imediatamente o esqueceu. Fico imaginando se, enquanto Jos apodrecia num calabouo 
egpcio, no ocorreram  sua mente perguntas como a de Richard - Deus  injusto? Est calado? Escondido?
      Mas, por um instante, volte-se para a perspectiva de Deus, o genitor. Foi de propsito que ele "se retraiu" para permitir que a f de Jos chegasse a um novo 
nvel de maturidade? E poderia ser por isso que Gnesis dedica mais espao a Jos do que a qualquer outra pessoa? Em meio a todas as suas tribulaes, Jos aprendeu 
a confiar: no em que Deus impediria as dificuldades, mas em que ele compensaria at mesmo as dificuldades. Reprimindo as lgrimas, Jos tentou explicar sua f a 
seus irmos assassinos: "Vs, na verdade, intentastes o mal contra mim; porm Deus o tornou em bem...."

A idia central de grande parte do Antigo Testamento pode ser chamada de a idia da solido de Deus.
- G. K. Chesterton
*
Referncias bblicas: Gnesis 1-11; Hebreus 5; Eze-quiel 14; Gnesis 12-21, 25, 30; Hebreus 11; Gnesis 37, 39-41, 45.
***
Captulo 8 - A Plena Fora da Luz do Sol
      GNESIS CONCLUI com uma nica famlia, suficientemente pequena para que a Bblia apresente o nome de todos os seus filhos. Toda a famlia estabeleceu-se confortavelmente 
no refgio do Egito. O livro seguinte, xodo, abre com uma multido de israelitas labutando como escravos sob um fara hostil. Em parte alguma da Bblia voc encontrar 
um relato do que aconteceu durante os quatrocentos anos entre um livro e outro.
      Tenho ouvido muitos sermes sobre a vida de Jos, e muitos mais sobre Moiss e o milagre do xodo. Mas jamais ouvi um sermo sobre o intervalo de quatrocentos 
anos entre Gnesis e xodo. (Ser que alguns de nossos sentimentos de frustrao e desapontamento tm razes num hbito de passar por cima dos perodos de silncio, 
preferindo os relatos bblicos de vitria?) Temos a tendncia de nos apressar at os relatos estimulantes da libertao da escravido. Mas pense bem: durante quatro 
sculos os cus estiveram calados. Com toda certeza os escravos hebreus no Egito sentiram uma profunda decepo com Deus.
Voc  um hebreu, um descendente de Abrao. Voc cresceu ouvindo a respeito das maravilhosas promessas que Deus fez quele grande homem. "Algum dia sua raa se tornar 
uma nao poderosa e viver em paz em sua prpria terra" - Deus em pessoa fez esse juramento, primeiro a Abrao, e ento a Isaque e Jac. Quando criana voc memorizou 
obedientemente essas promessas. Mas agora elas parecem contos de fada. Uma nao independente? Voc e seus vizinhos servem ao mais poderoso imprio sobre a face 
da terra; diariamente voc sofre os insultos e sente os chicotes dos feitores egpcios. Seu prprio irmo recm-nascido foi morto pelos soldados do fara.
Quanto  maravilhosa terra prometida, ela jaz em algum lugar ao oriente, dividida e sob o domnio de uma dzia de reis diferentes.

      Quatrocentos anos de silncio. At Moiss. E ento tudo o que um questionador como meu amigo Richard poderia ter desejado aconteceu. Primeiro, Deus apareceu 
a Moiss num arbusto em chamas, e se apresentou, dizendo o prprio nome. Disse audivelmente: "Meu povo j sofreu o suficiente. Agora voc ver o que farei." Em seguida, 
ele os libertou com a mais impressionante manifestao de poder divino a que o mundo j assistiu. Dez vezes interveio de uma forma to grandiosa que nem uma s pessoa 
no Egito podia duvidar da existncia do Deus dos hebreus. Bilhes de sapos, mosquitos, moscas, pedras de gelo em forma de granizo, e gafanhotos forneceram prova 
emprica a favor do Senhor de toda a criao.
      Durante os quarenta anos seguintes, os anos da peregrinao no deserto, Deus conduziu seu povo, "como um, pai conduz seu filho". Ele alimentou os israelitas, 
vestiu-os, planejou seu itinerrio de cada dia, e lutou por eles.
***
      Deus  injusto? Est calado? Escondido? Tais questes devem ter perturbado os hebreus at que, nos dias de Moiss, Deus se manifestou. Puniu o mal e recompensou 
o bem. Falou audivelmente. E se fez visvel, primeiro a Moiss num arbusto em chamas e ento aos israelitas numa coluna de nuvem e fogo.
      A reao, porm, dos israelitas diante de tal interveno direta proporciona uma importante perspectiva sobre os limites inerentes a todo poder. O poder pode 
fazer qualquer coisa, menos a mais importante: no consegue controlar o amor. As dez pragas do xodo mostram o poder de Deus a ponto de forar um fara a ficar de 
joelhos. Mas as dez principais rebelies registradas em Nmeros mostram a impotncia do poder em ocasionar aquilo que Deus mais desejava, o amor e a fidelidade de 
seu povo. Nenhuma manifestao pirotcnica de onipotncia conseguiria faz-los confiar em Deus e segui-lo.
      No necessitamos que os antigos israelitas nos ensinem esse fato. Podemos v-lo hoje em dia em sociedades em que o poder se manifesta de forma selvagem. Num 
campo de concentrao, os guardas possuem um poder quase ilimitado,  o depoimento de um nmero muito grande de testemunhas. Ao aplicarem a fora, conseguem fazer 
com que voc renuncie a Deus, amaldioe sua famlia, trabalhe sem remunerao, coma excremento humano, mate e ento enterre o seu amigo mais chegado ou at mesmo 
sua prpria me. Tudo isso est ao alcance desses guardas. S uma coisa no est: no conseguem for-lo a am-los.
      O fato de que o amor no age de acordo com as regras do poder pode ajudar a explicar por que s vezes parece que Deus reluta em utilizar seu poder. Ele nos 
criou para am-lo, mas suas mais impressionantes demonstraes de milagre - do tipo que talvez secretamente ansiemos - nada fazem para fomentar aquele amor. E, quando 
seu prprio amor  desprezado, at mesmo o Senhor do Universo sente-se de alguma maneira desamparado, tal como um pai que perde aquilo que ele mais estima.
      A Bblia registra uma espcie de dirio do pungente relacionamento de Deus com os israelitas:
Quanto ao teu nascimento, no dia em que nasceste no te foi cortado o umbigo, nem foste lavada com gua para te limpar, nem esfregada com sal, nem envolta em faixas. 
No se apiedou de ti olho algum, para te fazer alguma destas cousas, compadecido de ti; antes foste lanada em pleno campo, no dia em que nasceste, porque tiveram 
nojo de ti.
Passando eu por junto de ti, vi-te a revolver-te no teu sangue, e te disse: Ainda que ests no teu sangue, vive; sim, ainda que ests no teu sangue, vive. Eu te 
fiz multiplicar como o renovo do campo, cresceste e te engrandeceste e chegaste a grande formosura; formaram-se os teus seios e te cresceram cabelos; no entanto 
estavas nua e descoberta. Passando eu por junto de ti, vi-te, e eis que o teu tempo era tempo de amores; estendi sobre ti as abas do meu manto, e cobri a tua nudez; 
dei-te juramento, e entrei em aliana contigo, diz o Senhor Deus; e passaste a ser minha.
Ento te lavei com gua, e te enxuguei do teu sangue e te ungi com leo. Tambm te vesti de roupas bordadas, e te calcei com peles de animais marinhos, e te cingi 
de linho fino e te cobri de seda. Tambm te adornei com enfeites, e te pus braceletes nas mos e colar  roda do teu pescoo. Coloquei-te um pendente no nariz, arrecadas 
nas orelhas, e linda coroa na cabea.

      O texto passa a relatar Deus observando sua querida filha Israel desprezar o amor que ele havia derramado sobre ela. Sua amada filha tornou-se adulta, vindo 
a ser uma rainha de grande beleza... e ento uma prostituta. Ela fez amor com dolos, e matou seus prprios filhos e filhas como sacrifcios a esses dolos. Deus 
sentiu a angstia de um pai abandonado e, ao mesmo tempo, a ira de um amante rejeitado.
      Deus, que v tudo, conhecia o destino final dos israelitas mesmo antes de terem cruzado o rio para entrar na Terra Prometida: "Conheo os desgnios que hoje 
esto formulando, antes que o introduza na terra." Quando seu povo ajuntou-se ao lado do rio Jordo, empolgado com a perspectiva de mudana, Deus deu-lhes um vislumbre 
de como  que  ser Deus. Ele no partilhava do esprito de expectativa existente no acampamento, e visitou Moiss na Tenda do Encontro para explicar por qu.
      Mais do que qualquer outra coisa, Deus ansiava que a aliana desse certo: "Quem dera que eles tivessem tal corao que me temessem, e guardassem em todo o 
tempo todos os meus mandamentos, para que bem lhes fosse a eles e a seus filhos para sempre!" Mas as muitas rebelies no deserto no ficariam impunes. Deus predisse 
a terrvel desobedincia que viria e ento previu sua prpria reao: "Esconderei, pois, certamente, o meu rosto naquele dia." Falou com resignao, como o pai de 
um viciado em drogas, sem condies de impedir a autodestruio de seu prprio filho; como o marido de uma alcolatra, a qual, aos prantos, promete "tomar jeito" 
no dia seguinte, uma promessa que ela j quebrou vezes demais para se mencionar.
      Deus deu ento a Moiss uma tarefa bem estranha. "Escrevei para vs outros este cntico", disse, "e ensinai-o aos filhos de Israel; ponde-o na sua boca, para 
que este cntico me seja por testemunha contra os filhos de Israel." O cntico colocou em forma de msica o ponto de vista de Deus: o lamento de um pai entristecido 
a ponto de abandonar o filho. Assim, por ocasio do nascimento de sua nao, eufricos por cruzarem o rio Jordo, os israelitas estrearam uma espcie de hino nacional 
- o mais estranho que j se cantou. Quase no possua palavra alguma de esperana, apenas de condenao.
      Primeiro cantaram acerca dos tempos propcios, quando Deus os encontrou num deserto uivante e os teve como a menina dos seus olhos. Cantaram acerca da terrvel 
traio que viria, quando esqueceriam o Deus que os havia dado  luz. Cantaram acerca das maldies que os afligiriam, a fome devoradora, a praga mortal, e flechas 
encharcadas de sangue. Com essa msica doce-amarga ressoando em seus ouvidos, os israelitas tomaram a Terra Prometida.
***
       semelhana de um co sabujo numa pista, fiquei zigue-zagueando de volta s peregrinaes dos israelitas no deserto, farejando em busca de indcios. O tabernculo 
luminoso com a presena de Deus, a miraculosa comida matinal, a grande multido de israelitas infelizes se arrastando pelas areias do deserto... Em algum ponto entre 
a radiante promessa e a deprimente futilidade daqueles quarenta anos jaz o mistrio do desapontamento com Deus. O que houve de errado?
      Tal como meu amigo Richard, eu freqentemente tenho ansiado que Deus aja de forma direta, ntima. Se to-somente ele se mostrasse! Mas nas tristes histrias 
do fracasso dos israelitas comecei a enxergar certas "desvantagens" de Deus agir to diretamente. Um problema que encontraram de imediato foi a falta de liberdade 
pessoal. Para os israelitas viverem prximos de um Deus santo, nada - nem a vida sexual, nem a menstruao, nem a composio do tecido das roupas, nem os hbitos 
alimentares - poderia ficar fora do alcance de suas leis. Ser um "povo escolhido" tinha um preo. Assim como Deus achou quase impossvel viver entre um povo pecaminoso, 
os israelitas acharam quase impossvel viver com um Deus santo no meio deles.
      Coisas menores pareciam aborrecer mais os israelitas - examine suas constantes queixas quanto  comida. Com umas poucas excees, comeram a mesma coisa todos 
os dias durante quarenta anos: man (que literalmente significa "O que  isso?"), que a cada manh surgia sobre o cho como se fosse orvalho. Uma dieta montona 
pode parecer um preo barato para a libertao da escravido, mas oua a murmurao: "Lembramo-nos dos peixes que no Egito comamos de graa; dos pepinos, dos meles, 
dos alhos silvestres, das cebolas e dos alhos. Agora, porm, seca-se a nossa alma, e nenhuma cousa vemos seno este man."
      A par dessas questes materiais, surgiu um problema bem mais srio. Paradoxalmente, quanto mais Deus se aproximava de seu povo, mais distantes sentiam-se em 
relao a ele. Moiss estabeleceu um conjunto complexo de rituais, necessrios para se aproximar de Deus sem qualquer tolerncia de erro. Os israelitas viam as provas 
da presena de Deus no Lugar Santssimo, mas ningum ousava entrar. Se voc deseja saber qual o tipo de "relacionamento pessoal com Deus" que tinham os israelitas, 
oua as palavras dos prprios adoradores: " como se j estivssemos todos mortos." E em outra oportunidade: "No ficaremos mais aqui vendo este grande fogo e ouvindo 
a voz do Senhor nosso Deus porque, se no, morreremos" (A Bblia Viva).
***
      Certa vez, num experimento, o grande cientista Isaac Newton ficou com os olhos fitos na imagem do Sol refletida num espelho. O brilho provocou queimadura na 
retina, e Newton sofreu cegueira temporria. Mesmo ficando trs dias num ambiente com janelas fechadas, ainda assim o ponto brilhante no apagava de sua vista. "Empreguei 
todos os meios para afastar meu pensamento do sol", escreveu, "mas, se eu pensasse nele, imediatamente eu o via embora estivesse no escuro." Se tivesse fitado o 
Sol uns poucos minutos mais, Newton poderia ter perdido total e permanentemente a vista. As clulas nervosas que comandam a viso no conseguem suportar a plena 
fora da luz do Sol.
      H uma parbola no experimento de Isaac Newton, e ela ajuda a ilustrar o que os israelitas aprenderam com as peregrinaes pelo deserto. Haviam tentado viver 
com o Senhor do Universo visivelmente presente em seu meio; mas, no final, dentre todos os milhares que fugiram do Egito, somente dois sobreviveram  Presena de 
Deus. Se voc mal consegue suportar a luz de vela, como conseguir olhar para o Sol?
      "Quem dentre ns habitar com o fogo devorador?" indagou o profeta Isaas. Ser possvel que, em vez de estarmos frustrados, deveremos estar gratos por Deus 
estar escondido?
*
Referncias bblicas: xodo 1-12; Deuteronmio 1; Ezequiel 16; Deuteronmio 31, 5, 31-32; Nmeros 11, 17; Deuteronmio 18; Isaas 33.
***
Captulo 9 - Um Instante de Resplendor
      COM NOVE ANOS DE IDADE, Leo Tolstoy, convencido de que Deus o ajudaria a voar, mergulhou de cabea, de uma janela do terceiro andar, e teve ento sua primeira 
grande crise de desapontamento com Deus. Felizmente, Tolstoy sobreviveu ao vo desastrado e, anos mais tarde, pde rir de seu infantil teste de f.
      Que criana no teve fantasia quanto a poderes sobrenaturais? Senhor, ajuda-me a atravessar este lago a p. Ajuda-me a dar uma surra naquele brigo. Faze com 
que eu saiba tudo sem ter de estudar. E, se Deus chegasse a considerar aceitvel atender algumas dessas oraes, se  semelhana do gnio na garrafa ele atendesse 
qualquer pedido que fizssemos, ser que ns ento no tentaramos agrad-lo num gesto de gratido? Em minhas horas sombrias de desapontamento, instintivamente penso 
desta forma: Se Deus me livrar desta situao... se as coisas se acalmarem... se eu ficar bom, ento seguirei a Deus.
      Richard acreditava que, como um filhotinho de cachorro, qualquer um seguiria um Deus que agisse justamente, falasse claramente e se revelasse visivelmente. 
As peregrinaes que os israelitas fizeram no deserto comprovam que Richard estava errado. Mas, alguns podero questionar, a f dos israelitas oscilou numa terra 
inspita, um lugar relembrado por Moiss como um "grande e terrvel deserto de serpentes abrasadoras, de escorpies, e de secura, em que no havia gua". Quem no 
perderia o nimo naquelas circunstncias? Ser que houve tempos mais felizes, quando Deus pareceu mais prximo e atendeu os desejos de seu povo?
      O tom do Antigo Testamento se eleva quando surge o nome de Davi. "Ento o Senhor despertou como de um sono, como um valente que grita excitado pelo vinho", 
diz o Salmo 78 acerca daqueles dias. Deus havia finalmente encontrado um homem segundo o seu prprio corao, o tipo de pessoa ao redor da qual podia construir uma 
nao. O robusto rei Davi quebrou todas as leis escritas, com exceo de uma: amou a Deus de todo o seu corao, de todo o seu entendimento e de toda a sua alma. 
Com Davi posto como rei sobre Israel, os sonhos da aliana voltaram com mpeto redobrado.
      E, quando o filho de Davi, Salomo, assumiu o trono, Deus empenhou todos os seus esforos. Aquilo com que as crianas apenas sonham, Salomo obteve. Deus ofereceu-lhe 
atender qualquer desejo - vida longa, riquezas, qualquer coisa mesmo - e, quando Salomo escolheu sabedoria, Deus acrescentou recompensas adicionais de riqueza, 
honra e paz. Governaria durante um perodo ureo, um resplendente momento de tranqilidade na longa e tormentosa histria dos hebreus.
Salomo
      Ascendeu ao trono de Israel ainda adolescente e logo se tornou a pessoa mais rica de seu tempo. A Bblia diz que em Jerusalm a prata era to comum quanto 
pedras. Uma frota de navios comerciais saa em busca de coisas exticas para as colees particulares do rei - macacos e babunos da frica, e marfim e ouro s toneladas. 
Salomo tambm possua talento artstico: escreveu 1.005 canes e 3.000 provrbios.
      Governantes viajavam centenas de quilmetros para testarem, eles mesmos, a sabedoria de Salomo e para verem a grande cidade que ele construra. Um desses 
governantes, a rainha de Sab, disse a Salomo:
Foi verdade a palavra que a teu respeito ouvi na minha terra, e a respeito da tua sabedoria. Eu, contudo, no cria naquelas palavras, at que vim, e vi com os meus 
prprios olhos. Eis que no me contaram a metade: sobrepujas em sabedoria e prosperidade a fama que ouvi. Felizes os teus homens, felizes estes teus servos, que 
esto sempre diante de ti, e que ouvem a tua sabedoria! Bendito seja o SENHOR teu Deus, que se agradou de ti para te colocar no trono de Israel.

      Palavras marcantes de uma rainha que, como presente de despedida, deu a Salomo quatro toneladas e meia de ouro puro.
      E o que Deus sentiu durante esses dias de felicidade? Alvio, satisfao, prazer - a Bblia deixa tudo isso implcito. Os crnicos murmuradores de Israel tinham 
morrido todos, e Salomo empenhou-se bastante em fazer com que Deus se sentisse amado. Empregou generosamente a riqueza de seu reino num local para Deus habitar: 
um templo magnfico, construdo por 200.000 homens, que se colocava como uma das maravilhas do mundo.  distncia, reluzia como uma montanha coberta de neve.
      A histria do Antigo Testamento atingiu um ponto culminante no dia em que Salomo dedicou aquele templo a Deus. Pense na cena de um filme em que se v o mais 
ofuscante encontro com um ser extraterrestre. Algo parecido aconteceu em Jerusalm, s que essa no foi uma iluso provocada por equipes de efeitos especiais. Milhares 
de pessoas assistiam a uma imensa cerimnia pblica. Quando a glria do Senhor desceu para encher o templo, at os sacerdotes foram forados a recuar diante da fora 
tremenda.
      Deus estava fazendo do templo de Salomo o centro de sua atividade na terra, e a multido decidiu espontaneamente ficar por mais duas semanas para celebrar. 
Ajoelhando-se numa plataforma de bronze, Salomo orou em voz alta: "Na verdade edifiquei uma casa para tua morada, lugar para a tua eterna habitao." Ento ele 
se viu tomado de estupefao. "Mas, de fato habitaria Deus na terra? Eis que os cus, e at o cu dos cus, no te podem conter, quanto menos esta casa que eu edifiquei."
      Mais tarde Deus respondeu: "Ouvi a tua orao, e a tua splica que fizeste perante mim; santifiquei a casa... os meus olhos e o meu corao estaro ali todos 
os dias." Deus o cumprira! Suas promessas a Abrao e a Moiss finalmente haviam se tornado verdade. Os israelitas agora possuam terra, uma nao com fronteiras 
seguras, e um smbolo refulgente da presena de Deus entre eles. Deus havia cumprido a sua parte na aliana. Nenhuma pessoa presente no famoso dia da dedicao do 
templo poderia duvidar da realidade de Deus; todos viram o fogo e a nuvem de sua presena. E tudo isso veio a ocorrer no num deserto inspito, cheio de serpentes 
e escorpies, mas numa terra rica de ouro e prata.
***
      Com tudo que se podia imaginar trabalhando a seu favor,  primeira vista parecia que Salomo seguiria a Deus com gratido. Sua orao de dedicao do templo, 
em 1 Reis 8,  uma das oraes mais majestosas j feitas. Porm, no final de seu reinado Salomo j havia desperdiado quase todas as vantagens. O homem de verve 
potica que havia celebrado o amor romntico quebrou todos os recordes de promiscuidade: no total, setecentas esposas e trezentas concubinas! O sbio que compusera 
um nmero to grande de provrbios de bom senso fez pouco caso deles com uma extravagncia jamais igualada. E, para agradar suas esposas nascidas no estrangeiro, 
o devoto que construra o templo de Deus deu um passo final e terrvel: introduziu a adorao de dolos na cidade santa de Deus.
      Em apenas uma gerao, Salomo transformou Israel, um reino inexperiente que dependia de Deus para sua prpria sobrevivncia, numa potncia poltica auto-suficiente. 
Mas nessa jornada perdeu de vista a viso original  qual Deus o havia chamado. Ironicamente, por volta da poca da morte de Salomo, Israel assemelhava-se ao Egito, 
de onde Deus os tinha resgatado: um Estado imperial mantido em p por uma burocracia agigantada e pelo trabalho escravo, com uma religio oficial que estava sob 
o comando do governante. O sucesso do reino deste mundo havia provocado um desinteresse no reino de Deus. Esvaiu-se a rpida e resplendente viso de uma nao de 
aliana, e Deus retirou sua aprovao. Aps a morte de Salomo, Israel cindiu-se em dois e gradualmente se encaminhou para a runa.
      Uma famosa frase, criada por Oscar Wilde, talvez apresente o melhor epitfio para Salomo: "Neste mundo existem somente duas tragdias. Uma  no conseguir 
o que se deseja, e a outra  conseguir." Salomo conseguiu tudo o que desejou, especialmente no que diz respeito a smbolos de poder e posio social. Gradualmente 
foi dependendo menos de Deus e mais das coisas que o cercavam: o maior harm do mundo, uma casa duas vezes maior que o templo, um exrcito bem abastecido de carruagens, 
uma economia forte. O progresso pode ter eliminado quaisquer crises de desapontamento com Deus, mas tambm parece que eliminou totalmente o desejo que Salomo tinha 
de Deus. Quanto mais apreciava as boas ddivas do mundo, menos ele pensava no Doador.
***
      No deserto Deus habitava numa "coluna de nuvem e de fogo", to prxima que algumas vezes seu poder irrompia com uma fora destrutiva. Nos dias de Salomo Deus 
pareceu restringir esse poder, dando ao rei autoridade para represent-lo diante do povo. Quanto aos israelitas, que no deserto haviam se retrado com medo de Deus, 
simplesmente aceitaram Deus sem maiores consideraes assim que sua presena centralizou-se no templo. Tornou-se apenas mais um item da paisagem da cidade dos reis.
      Reagindo a essa mudana, Deus silenciosamente mudou seu prprio mtodo de operao. Facilmente consegue-se detectar a mudana perscrutando o Antigo Testamento, 
o qual oferece longos relatos dos trs primeiros reis de Israel - Saul, Davi e Salomo; mas depois de Salomo, os relatos das vidas dos reis rapidamente caminham 
para algo embaado, esquecvel. De sua parte, Deus se voltou a seus profetas.
*
Referncias bblicas: Deuteronmio 8; 2 Samuel 7; 1 Reis 8-10.
***
Captulo 10 - Fogo do Cu e a Palavra
Foi uma coincidncia terrvel que muitos interpretaram como retribuio divina. Duas semanas atrs, o cnego David Jenkins, de 59 anos de idade, que publicamente 
havia afirmado que nem o nascimento virginal nem a ressurreio precisam ser aceitos literalmente, foi formalmente consagrado na Catedral de York como Bispo de Durham 
em meio a gritos de protesto. Menos de trs dias depois, nas primeiras horas do dia, um relmpago riscou o cu, caindo sobre a cobertura de madeira do transepto 
sul da igreja, construda no sculo treze. Por volta de duas e meia da manh as chamas saltavam dessa importantssima obra de arte medieval que  a maior catedral 
gtica do norte da Europa....
Aps o incndio na Catedral de York, os detratores de Jenkins no perderam tempo e disseram que suas afirmaes tinham sido confirmadas. John Mowll, de 51 anos de 
idade, um proco anglicano que havia sido expulso da catedral por protestar durante a cerimnia de consagrao do novo bispo, sugeriu que a causa do fogo pode ter 
sido a "interveno divina". Outros refugiaram-se na Bblia, citando o profeta Elias, o qual trouxe um fogo do cu que destruiu um altar que tinha construdo na 
presena dos profetas de Baal.
- Time, 23 de julho de 1984

      Obviamente, o problema com o raio que atingiu a Catedral de York  que, visto dessa forma,  uma exceo. Fogo do cu atinge uma igreja famosa - mas o que 
dizer de todas as igrejas unitarianas que abertamente negam doutrinas crists, para no mencionar as mesquitas muulmanas e os templos hindus? Por que David Jenkins 
devia provocar a ira divina se o incorrigvel blasfemo Bertrand Russell viveu sem punio alguma, chegando at a uma velhice excntrica? Se Deus uniformemente reagisse 
a doutrinas erradas lanando raios, nosso planeta piscaria todas as noites como uma rvore de Natal.
      E, no entanto, o fogo de fato caiu uma vez do cu, quase trinta sculos atrs, e desde ento pastores tm recordado aquela cena no Monte Carmelo. A histria 
tem um estilo tolkieniano, mtico:  semelhana do personagem Frodo em sua misso at Mordor, Elias atravessou Israel, viajando at uma montanha deserta e acidentada 
para fazer guerra, num estilo de luta solitria, contra 850 profetas falsos.
      Elias, o mais rude e duro dentre todos os profetas, encantou a multido como um mestre de mgicas. Encharcou o local com doze volumosas jarras de gua - o 
bem mais precioso em Israel depois de uma seca de trs anos. E, bem quando parecia que Elias estava fazendo-se de palhao, aconteceu. Uma bola de fogo caiu como 
um meteoro, vinda de um cu limpo. O calor foi to intenso que derreteu as pedras e o solo, e as chamas lamberam a gua dos regos como se fosse combustvel. A multido 
caiu ao cho com temor e terror. "O SENHOR  Deus! O SENHOR  Deus!" clamaram.
      Num impressionante e derradeiro confronto pblico, Deus arrasou as foras do mal. No  de surpreender que a cena sobressaia nos anais da f. No  de surpreender 
que as pessoas contemporneas de Jesus tenham se enganado, achando que ele fosse Elias reencarnado. Mesmo nos dias atuais, quando um raio atinge uma catedral, alguns 
pensam saudosamente no Monte Carmelo.
Os Profetas
      Quando estive, porm, lendo a Bblia de ponta a ponta, durante duas semanas, no chal no Colorado, vi a vida de Elias num contexto totalmente diferente. Ele 
e Eliseu, sua alma gmea na realizao de milagres, no so de modo algum similares aos outros profetas do Antigo Testamento. Ao contrrio, despontam como excees 
de destaque: poucos sucessores chegaram a ter um leve vestgio da habilidade de ambos em operar milagres. Se ansiamos o poder que tiveram, ansiamos a coisa errada. 
Os sinais e maravilhas dos dias de Elias foram um instante isolado na histria, sem qualquer efeito real de longo alcance sobre os israelitas. No irrompeu qualquer 
reavivamento avassalador. Seguindo-se aos acontecimentos do Monte Carmelo, aps o mais breve impulso de fervor religioso, a nao novamente acomodou-se em seu longo 
e resoluto afastamento de Deus. O rei Acabe, ele mesmo um espectador no Monte Carmelo, deixou o legado de ter sido o rei mais mpio de Israel.
      Aparentemente a bola de fogo no Monte Carmelo igualmente no teve qualquer impacto duradouro em Elias. Temeroso por sua vida, o profeta viajou uma distncia 
de quarenta dias entre ele e a rainha Jezabel, a vingativa esposa de Acabe. E, quando em seguida Deus se encontrou com Elias, no apareceu num fogo, ou num vento 
grande e poderoso, ou num terremoto. Em vez disso, veio num cochicho, numa voz branda e suave, quase como o silncio - uma anteviso de uma surpreendente mudana 
que estava por vir.
      Deve ter sido difcil seguir o profeta Elias. Pouco depois da decisiva confrontao no Monte Carmelo, um outro profeta, Micaas, se ps diante do mesmo rei, 
Acabe, em semelhanas bastante parecidas. No estilo de Elias, tratou com desdm quatrocentos falsos profetas e proferiu uma mensagem incisiva de Deus. Mas, em vez 
de fogo caindo do cu, Micaas recebeu uma bofetada no rosto e uma temporada na cadeia.
      Deus pareceu refrear seu poder sobrenatural depois de Elias e Eliseu, substituindo o espetculo pela palavra. Os profetas no tiveram demonstraes impressionantes 
de onipotncia para apresentarem ao pblico; tiveram apenas o poder das palavras. Isaas, Osias, Habacuque, Jeremias, Ezequiel - todos despejaram sua energia moral 
nos escritos que levam seus nomes. E,  medida que Deus parecia se distanciar cada vez mais, esses mesmos profetas comearam a fazer indagaes: indagaes eloqentes, 
indagaes que os obcecaram, indagaes envolvidas em dor. Expressaram audivelmente os clamores de um povo que sentiu-se abandonado por Deus.
      Eu sempre tinha lido erroneamente os profetas (quando de fato chegava a me dar ao trabalho de l-los). Eu os tinha visto como velhinhos chatos, dedo em riste, 
que, tal como Elias, clamavam para que sobreviesse o julgamento sobre os pagos. Para minha surpresa descobri que os escritos dos antigos profetas soam, na realidade, 
como a mais "moderna" dentre todas as partes da Bblia. Tratam dos mesmssimos temas que pairam como uma nuvem sobre nosso sculo: o silncio de Deus, a aparente 
soberania do mal, o sofrimento constante do mundo. As indagaes dos profetas so, na realidade, as indagaes deste livro: a injustia, o silncio, o escondimento 
de Deus.
      Mais passionalmente do que qualquer outra pessoa na histria, os profetas de Israel deram vazo aos sentimentos de decepo com Deus. Por que naes pagas 
prosperam? indagaram. Por que h um nmero to grande de calamidades provocadas pela natureza? Por que h tanta pobreza e depravao no mundo? Por que to poucos 
milagres? Onde ests, Deus? Por que no nos falas como costumavas fazer? Revela-te; rompe teu silncio. Pelo amor de Deus, literalmente, AJA! "Por que nos rejeitarias 
totalmente? Por que te enfurecerias sobremaneira contra ns outros?"
      Isaas, um aristocrata e conselheiro de reis, falava com elegncia, num estilo pessoal to diferente do de Elias quanto o de Winston Churchill em relao ao 
de Gandhi. "Verdadeiramente tu s Deus misterioso", disse Isaas. "Oh! se fendesses os cus, e descesses! se os montes tremessem na tua presena!"
      Jeremias em voz alta e solene declarou o fracasso da "teologia do sucesso". Em sua poca os profetas estavam sendo lanados em calabouos e poos, e at mesmo 
serrados ao meio. Jeremias comparou Deus a um homem frgil, "surpreendido", um "valente que no pode salvar". Voltaire, o filsofo francs expressa a sua crtica: 
Como um Deus todo-poderoso e todo-amoroso pode permitir um mundo to anarquizado?
      Habacuque desafiou Deus a explicar por que, em suas prprias palavras, "a justia nunca se manifesta".
      
At quando, SENHOR, clamarei eu,
e tu no me escutars?
Gritar-te-ei: Violncia!
e no salvars?
Por que me mostras a iniqidade,
e me fazes ver a opresso?
     
      Como todos os israelitas, os profetas tinham sido criados ouvindo histrias de vitrias. Quando crianas, aprenderam como Deus libertara seu povo da escravido, 
descera para habitar entre eles e conduzira-os  Terra Prometida. Mas agora, em vises do futuro, viam, detalhadamente como em cmara lenta, todas aquelas vitrias 
se desfazendo. Numa inverso total da cena inesquecvel dos dias de Salomo, o profeta Ezequiel observou a glria de Deus surgir, pairar por um instante sobre o 
templo e ento desaparecer.
      O que Ezequiel viu somente numa viso, Jeremias viu numa dura realidade. Soldados babilnios entraram no templo - pagos no Lugar Santssimo! - saquearam-no 
e o queimaram at virar cinzas. (Os historiadores registram que,  medida que os soldados entravam no templo, cortavam o ar vazio com suas lanas, em busca do invisvel 
Deus judeu.) Jeremias perambulou pelas ruas desertas de Jerusalm em estado de choque, como um sobrevivente de Hiroshima vagueando pelos escombros. O rei de Israel 
estava agora algemado e cegado; os prncipes da nao, mortos. No cerco final, mulheres de boa formao que moravam em Jerusalm tinham cozido e comido seus prprios 
filhos.
      Como  que era ser um profeta naquela poca? Jeremias nos conta:
     
Estou quebrantado pela ferida da filha do meu povo;
estou de luto; o espanto se apoderou de mim....
Oxal a minha cabea se tornasse em guas,
e os meus olhos em fonte de lgrimas!
Ento choraria de dia e de noite
os mortos da filha do meu povo....
O meu corao est quebrantado dentro em mim;
todos os meus ossos estremecem;
sou como homem embriagado,
e como homem vencido do vinho.
     
      Entretanto, o aspecto mais surpreendente dos profetas no  sua aparncia "moderna" ou seu pungente clamor de decepo. A razo por que esses dezessete livros 
merecem um exame cuidadoso  que incluem as prprias respostas de Deus s estimulantes indagaes dos profetas.
*
Referncias bblicas: 1 Reis 17-19, 22; Lamentaes 5; Isaas 45, 64; Jeremias 14; Habacuque 1; Jeremias 8-9, 23.
***
Captulo 11 - Amante Ferido
      DEUS NO deixou sem resposta as queixas dos profetas. Ps-se a falar, defendendo a maneira como dirigia o mundo. Desabafou. Explodiu. E eis o que disse:
      No estou calado; venho falando atravs de meus profetas.
      Temos a tendncia de classificar as revelaes de Deus de acordo com a impresso que causam; as espetaculares aparies "ao vivo" colocamos l no topo, milagres 
sobrenaturais logo abaixo, e as palavras dos profetas l embaixo. A bola de fogo no Monte Carmelo, por exemplo, parece mais convincente do que um dos lamentosos 
sermes de Jeremias. Mas Deus no reconheceu tal classificao. Numa inverso irnica, ele apontou para os prprios profetas - aquelas mesmas pessoas que questionavam 
seu silncio - como uma prova de seu interesse. Como uma nao pode se queixar do silncio de Deus quando tem pessoas como Ezequiel, Jeremias, Daniel e Isaas?
      Deus no considerava "simples palavras" como uma prova inferior. Milagres, afinal, nunca tiveram um impacto muito duradouro na f dos israelitas; mas os profetas 
gravariam um registro permanente, a ser transmitido de gerao em gerao, acerca das iniciativas de Deus para com seu povo.
      Algumas vezes Deus apontava para os milagres do passado como provas de seu amor, mas com mais freqncia dizia, exasperado, algo assim: "Desde o dia em que 
vossos pais saram da terra do Egito, at hoje, enviei-vos todos os meus servos, os profetas, todos os dias, comeando de madrugada, eu os enviei. Mas no me destes 
ouvidos nem me atendestes." Sua concluso: na verdade o povo no desejava uma palavra do Senhor. Conforme eles prprios advertiram Isaas: "Dizei-nos cousas aprazveis, 
profetizai-nos iluses... no nos faleis mais do Santo de Israel."
Retirei de fato a minha presena.
      Quando os profetas se queixaram acerca do escondimento de Deus, este no discutiu. Concordou com eles, e ento explicou por que estava mantendo distncia.
      A Jeremias Deus expressou seu desprazer com o que via em Israel: ganhos desonestos, derramamento de sangue inocente, opresso, extorso. Deus disse que cobria 
os olhos, recusando-se at mesmo a ver as mos humanas estendidas em atitude de orao, pois essas mos estavam cobertas de sangue.
      A Isaas Deus garantiu que seu brao no era curto demais para salvar Israel, nem seu ouvido insensvel demais para ouvir seus clamores, mas que havia dado 
as costas por causa da injustia, das mentiras e da violncia. Furioso com a avareza que tinham, Deus escondeu o seu rosto deles.
      A Ezequiel Deus explicou que, uma vez que as rebelies de Israel haviam ultrapassado um certo ponto, ele simplesmente os entregou a seus pecados. Ele retirou-se, 
deixando que as pessoas escolhessem seu prprio caminho e arcassem com as conseqncias.
      A Zacarias disse: "Visto que eu clamei e eles no me ouviram, eles tambm clamaram e eu no os ouvi."
      Minha lentido em agir  um sinal de misericrdia, no de fraqueza.
      Quando Deus no punia rapidamente, o povo de Israel conclua que ele devia ter perdido seu poder: "No  ele... Nenhum mal nos sobrevir; no veremos espada 
nem fome." Estavam errados. O fato de Deus se conter marcou um intervalo de misericrdia, um "perodo de experincia" que ele estava concedendo a Israel. Com relutncia, 
tal qual um pai sem qualquer outra opo, Deus ento voltou-se para o castigo.
Israel foi punido atravs de invases estrangeiras. Mas os profetas tambm falaram do "dia do Senhor" no final dos tempos. Entre seus refulgentes relatos de um novo 
cu e uma nova terra esto algumas das mais aterrorizantes vises apocalpticas j relatadas. Antes que possamos ouvir a ltima palavra, disse Dietrich Bonhoeffer, 
temos de ouvir a penltima palavra. E quanto mais estudo os relatos profticos acerca dos ltimos dias, mais satisfeito fico com a aparente "timidez" de Deus em 
intervir nos negcios humanos.
      Em meus prprios perodos de decepo ou frustrao com Deus, tenho clamado a ele para que manifeste mais poder. Tenho orado contra a tirania e corrupo e 
injustia polticas. Tenho orado pedindo milagres, pedindo provas da existncia dele. Mas, quando leio as descries que os profetas fazem acerca do dia quando Deus 
finalmente se revelar completamente, uma orao suplanta todas as outras: "Deus, eu espero no estar por perto quando isso acontecer." Deus abertamente admite que 
est refreando seu poder, mas ele se contm em nosso benefcio. Para todos os zombadores que clamam por uma ao direta dos cus, os profetas tm uma palavra fatdica 
de conselho: Espere para ver!
      Embora meus juzos paream severos, estou sofrendo com vocs.
      Deus exps aos profetas seus sentimentos mais profundos. Por exemplo, esta  a maneira como se sentiu acerca da destruio de Moabe, um dos inimigos de Israel:

Por isso uivarei por Moabe,
sim, gritarei por todo o Moabe.... Por isso o meu corao geme como flautas por causa de Moabe.

      Quanto a seu povo escolhido de Israel, qualquer que tenha sido a vergonha e humilhao que suportaram, Deus tambm suportou. Os israelitas observaram horrorizados 
quando os babilnios, empunhando machados, puseram em pedaos as vigas de cedro do templo - mas era a prpria casa de Deus que estavam invadindo, e ele sentiu aquela 
invaso como uma profanao pessoal.  medida que o templo foi arrasado, o seu prprio lar foi arrasado.  medida que os judeus foram levados cativos, ele foi levado 
cativo. E, quando os conquistadores repartiram os despojos de Israel, fizeram piadas no dos israelitas, mas de seu Deus fraco e frgil. "Em chegando s naes para 
onde foram, profanaram o meu santo nome, pois deles se dizia: So estes o povo do SENHOR, porm tiveram de sair da terra dele."
      Uma nica frase de Isaas resume o ponto de vista de Deus: "Em toda a angstia deles foi ele angustiado." Deus pode ter escondido o rosto, mas aquele rosto 
estava marcado, marejado de lgrimas.
      Apesar de tudo, estou pronto para perdoar em qualquer hora que seja.
      Com freqncia, no meio de uma severa reprimenda Deus parava - literalmente no meio de uma frase - e implorava a Israel que se arrependesse. Acabe, o mais 
mpio rei de Israel, obteve uma outra chance aps o Monte Carmelo, e ento uma outra, e mais outra. "No tenho prazer na morte do perverso", disse Deus mais tarde 
a Ezequiel. "Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois, por que haveis de morrer,  casa de Israel?" Ele contou a Jeremias que, se pudesse encontrar 
uma nica pessoa honesta em Jerusalm, pouparia a cidade inteira.
      Nada expressa melhor o anseio divino em perdoar do que o livro de Jonas. Contm somente uma nica sentena proftica: "Ainda quarenta dias, e Nnive ser subvertida." 
Mas, para desgosto de Jonas, aquele simples anncio de condenao deu origem a um reavivamento espiritual na cidade pag de Nnive. E Jonas, carrancudo, debaixo 
de uma trepadeira ressequida, disse que o tempo todo havia suspeitado do corao mole de Deus. "Sabia que s Deus clemente, e misericordioso, tardio em irar-se e 
grande em benignidade, e que te arrependes do mal." De modo que a aventura louca de um profeta empacado, uma tempestade ocenica e uma escala imprevista numa baleia 
ocorreram porque Jonas no pde confiar em Deus - isto , no pde acreditar que ele fosse cruel e inflexvel para com Nnive. Conforme Robert Frost resumiu o livro, 
"Depois de Jonas, voc jamais poder deixar de crer na misericrdia constante de Deus."
Sentimento
      Embora Deus respondesse diretamente s perguntas dos profetas, suas explicaes no satisfizeram Israel. Conhecer a causa de uma catstrofe no reduz a sensao 
de dor e traio. 
      E, na verdade, a "defesa" racional de Deus parece ter sido demasiadamente ligeira e resumida. Os profetas no esto to interessados em questes intelectuais 
quanto no sentimento de Deus. Como  que  ser Deus? Para compreender, repare nas imagens humanas enfatizadas freqentemente pelos profetas: Deus como pai e como 
amante.
      Fique no encalo de algumas pessoas que se tornaram pais pela primeira vez. Parece que sua conversa limita-se a um nico assunto: O seu filho. Exultantemente 
orgulham-se de que seu nen enrugado e avermelhado  a criana mais bonita que j nasceu. Gastam uma fortuna numa filmadora para registrarem as primeiras palavras 
balbuciadas e os primeiros passos desajeitados - habilidades banais dominadas pelos mais de cinco bilhes de habitantes de nosso planeta. Tal comportamento estranho 
demonstra o orgulho e a alegria que um novo pai tem em um relacionamento humano diferente de qualquer outro.
      Ao escolher Israel, Deus estava buscando um relacionamento assim. Desejava aquilo que qualquer pai deseja: Uma casa feliz, com filhos que correspondem ao amor 
de seus pais. A voz de Deus canta com orgulho enquanto ele se recorda dos primeiros dias: "No  Efraim meu precioso filho? filho das minhas delcias?" Mas o prazer 
se desvanece quando Deus abruptamente passa da perspectiva de um pai para a de um amante, um amante ferido. O que eu fiz de errado? ele cobra num tom de tristeza, 
espanto e raiva.

Depois de eu os ter fartado,
adulteraram,
e em casa de meretrizes se ajuntaram em bandos. Como garanhes bem fartos,
correm de um lado para outro,
cada um rinchando  mulher do seu companheiro. Deixaria eu de castigar estas cousas?

      Ao ler os profetas, no consigo deixar de imaginar um conselheiro tendo Deus como cliente. O conselheiro apanha uma das perguntas usuais, "conte-me como  
que voc realmente se sente", e ento Deus passa a falar.
      "Pois bem! Vou lhe contar como  que me sinto! Sinto-me como um pai rejeitado. Encontro uma nenezinha largada numa vala,  beira da morte. Levo-a para casa 
e fao dela minha filha. Cuido de sua higiene, pago sua educao, alimento-a. Eu a mimo, visto-a, ponho-lhe jias. Ento, num certo dia, ela foge. Ouo notcias 
da vida aviltada que ela leva. Quando mencionam meu nome, ela me amaldioa."
      "Vou lhe contar como  que me sinto! Sinto-me como um amante abandonado. Quando encontrei minha amante, ela estava fraca e explorada, maltratada, mas eu a 
trouxe para casa e fiz com que a sua beleza resplandecesse. Ela  o meu bem precioso;  para mim a mais bela mulher do mundo, e eu a cubro de presentes e de amor. 
Ela, porm, me esquece. Deseja ardentemente meus melhores amigos, meus inimigos - qualquer um. Ela fica  beira de uma estrada e debaixo de cada rvore frondosa 
e, pior do que uma prostituta, ela paga para que as pessoas faam sexo com ela. Sinto-me como um marido enganado, abandonado, trado."
      Deus no esconde a dor que sente. Apela a uma linguagem chocante, chamando Israel de "dromedria nova de ligeiros ps, que andas ziguezagueando pelo caminho; 
jumenta selvagem, acostumada ao deserto e que, no ardor do cio, sorve o vento. Quem a impediria de satisfazer ao seu desejo?"
      Como se apenas palavras fossem por demais impotentes para expressar sua emoo, Deus pediu a um profeta corajoso, Osias, para personificar, com a sua vida, 
a desgraa que cara sobre Deus. Por ordem de Deus, Osias casou-se com Gmer, uma mulher de pssima reputao. A partir de ento, o pobre coitado viveu uma novela. 
Gmer teve dois filhos com Osias, mas vez aps outra ela saiu perambulando, apaixonou-se por outro homem e abandonou o lar. E, por incrvel que parea, em cada 
vez Deus instruiu Osias a receber Gmer de volta e a perdo-la.
      Deus fez uso da infeliz histria de Osias para ilustrar as suas prprias emoes em frangalhos. Aquele primeiro impulso de amor quando encontrou Israel, disse 
Deus, foi como encontrar uvas no deserto. Mas,  medida que repetidas vezes Israel abalou a confiana de Deus, este teve de suportar o terrvel constrangimento de 
um amante ferido. Suas palavras tm quase um tom de autocomiserao: "Para Efraim serei como a traa, e para a casa de Jud como a podrido."
      A imagem marcante de um amante abandonado explica por que, nas suas mensagens aos profetas, parecia que Deus "mudava de idia" a cada instante. Ele est-se 
preparando para aniquilar Israel - espere... agora ele est chorando, estendendo braos abertos - no... ele est de novo pronunciando severamente o juzo. Aquelas 
atitudes instveis parecem desesperanadamente irracionais, exceto para algum que conhece a dor de ser abandonado por sua amante.
      Uma amiga minha suportou dois anos essa dor. Em novembro ela estava pronta para matar seu marido infiel. Em fevereiro ela o perdoou e voltou para casa. Em 
abril ela deu entrada nos papis de divrcio. Em agosto ela suspendeu o processo de divrcio e pediu ao marido para voltar. Foram necessrios dois anos para que 
ela encarasse a triste verdade de que seu amor havia sido rejeitado para sempre.
      E esse  exatamente o ciclo de ira, tristeza, perdo, cime, amor e dor que Deus descreve que ele prprio atravessa. Os profetas mostram Deus lutando por uma 
linguagem, qualquer linguagem, que penetre em seu povo. Assim como minha amiga batia o telefone para o marido, que a abandonara, Deus dizia aos profetas que ele 
no mais iria ouvir s oraes de Israel. E, assim como minha amiga abrandava, Deus abrandava e implorava a seu povo para tentar de novo. Algumas vezes seu amor 
e ira entravam em choque. Mas por fim, exauridas todas as alternativas, Deus chegou  concluso de que devia desistir: "De que outra maneira procederia eu com a 
filha do meu povo?"
***
      Meu amigo Richard me descreveu a profunda sensao de ter sido trado quando Deus "mancou" com ele. Sentiu exatamente o que havia experimentado quando sua 
noiva rompeu abruptamente com ele. Mas os profetas, e especialmente Osias, comunicam uma mensagem acima de todas as outras: Deus  a pessoa trada. Foi Israel, 
no Deus, que tinha se prostitudo. Os profetas de Israel expressaram uma profunda decepo com Deus, acusando-o de agir  distncia, sem envolvimento, calado. Mas, 
quando Deus falou, ele derramou emoes acumuladas durante sculos. E ele, no Israel, foi a parte verdadeiramente decepcionada.
      "De que outra maneira procederia eu?" Ou, em outras palavras, "Que mais posso fazer?" A pungente pergunta de Deus a Jeremias ressalta o dilema de um Deus onipotente 
que deu espao  liberdade. As andorinhas nos cus conhecem as estaes, a mar chega na hora certa, a neve sempre cobre as montanhas elevadas, mas os seres humanos 
no se parecem a qualquer outra coisa na natureza. Deus no pode control-los. Por outro lado, ele  incapaz de simplesmente deix-los de lado. Ele  incapaz de 
apagar a humanidade de seu pensamento.
*
      Referncias bblicas: Jeremias 7; Isaas 30; Jeremias 5; Isaas 57; Ezequiel 20; Zacarias 7; Jeremias 5, 48; Ezequiel 36; Isaas 63; Ezequiel 33; Jonas 3-4; 
Jeremias 31, 5, 2; Osias 9, 5; Jeremias 9.
***
Captulo 12 - Bom Demais Para Ser Verdade
      
A tristeza se desfaz
Como a neve em maio,
Como se algo to gelado assim no existisse.
- George Herbert, "The Flower" ("A Flor")
      
      CERTA OCASIO George MacDonald, o grande pregador e escritor escocs, estava conversando com seu filho. Falavam sobre o cu e a verso dos profetas acerca 
do final de todas as coisas. "Parece bom demais para ser verdade", disse o filho em certo instante. Um sorriso brilhou no rosto barbudo de MacDonald. "No", replicou, 
" to bom que deve ser verdade!"
      Alguma emoo humana  to forte quanto a esperana? Os contos de fadas transmitem atravs dos sculos uma obstinada esperana num final feliz, uma crena 
de que no final a bruxa malvada morrer e de alguma maneira as crianas corajosas e inocentes encontraro um jeito de escapar. Na televiso os desenhos animados 
apresentam uma mensagem semelhante para crianas que esto sentadas como que hipnotizadas, novas demais para fazerem troa de finais impossivelmente alegres. Na 
vida real, uma me surpreendida numa zona de guerra carrega seu filhinho recm-nascido, aperta-o fundo contra o peito, afaga sua cabea e cochicha, sem qualquer 
lgica: "Vai dar tudo certo", mesmo quando as exploses estridentes ficam cada vez mais prximas.
      De onde vem essa esperana? Buscando palavras para explicar a eterna atrao que exercem os contos de fadas, J. R. R. Tolkien disse:

[Contos de fadas] no negam a existncia de... tristeza e fracasso: a possibilidade destas  necessria para o jbilo da libertao; negam (apesar de muita evidncia 
que aponta o contrrio) que haver uma grande derrota final no universo... proporcionando assim um breve vislumbre de Alegria - Alegria alm dos muros do mundo, 
Alegria to pungente quanto a tristeza.

      Nenhum resumo dos profetas seria completo sem uma mensagem final: sua insistncia, em voz alta, de que o mundo no acabar numa "derrota final universal", 
mas em Jbilo. Falaram em pocas agourentas a ouvintes tomados de temor, e freqentemente suas terrveis predies de secas e pragas de gafanhotos e exrcitos inimigos 
alimentavam esse temor. Mas sempre, em cada um de seus dezessete livros, os profetas do Antigo Testamento finalmente chegavam a uma palavra de esperana. O amante 
ferido ir se recuperar da dor, promete Isaas: "Por breve momento te deixei, mas com grandes misericrdias torno a acolher-te."
      As vozes dos profetas soam como pssaros canoros quando por fim voltam-se para descrever o existente alm dos muros do mundo. Naquele ltimo dia, Deus enrolar 
a terra tal qual um tapete e o tecer de novo. Lobos e cordeiros se alimentaro juntos no mesmo campo, e um leo pastar em paz ao lado de um boi.
      Um dia, diz Malaquias, saltaremos como bezerros soltos do estbulo. Nessa ocasio no haver qualquer medo, nem qualquer dor. Nenhum recm-nascido morrer; 
nenhuma lgrima escorrer. Entre as naes a paz fluir como um rio, e de suas armas exrcitos fundiro ferramentas para a lavoura. Ningum queixar do ocultamento 
de Deus naquele dia. Sua glria encher a terra, e o sol, em contraste, parecer escuro.
      Para os profetas, a histria humana no  um fim em si mesma, mas um perodo de transio, um parntese entre o den e o novo cu e a nova terra que ainda 
sero formados por Deus. Mesmo quando todas as coisas parecem fora de controle, Deus est firmemente no controle, e algum dia reivindicar a sua autoridade.*
O Entretempo
      Mas que dizer do momento presente? Devemos aguardar at depois da morte para obtermos todas as respostas significativas para o problema da decepo com Deus? 
Aps a morte de todos os profetas, o povo judeu comeou a levantar tais perguntas, pois mais uma vez o cu estava calado: "J no vemos os nossos smbolos; j no 
h profeta; nem, entre ns, quem saiba at quando. At quando,  Deus, o adversrio nos afrontar? Acaso blasfemar o inimigo incessantemente o teu nome?"
      Arrancados de sua terra natal e vendidos uma vez mais como escravos, os judeus se apegaram s promessas dos profetas de que haveria um libertador e um futuro 
pacfico. A medida que o tempo passou, dcadas, at mesmo sculos, imprios - Babilnia, Prsia, Egito, Grcia, Sria, Roma - se levantaram e caram, com seus exrcitos 
perseguindo um ao outro atravs das plancies da Palestina. Cada novo exrcito subjugou os judeus com facilidade, como se estivesse limpando os ps num capacho. 
Algumas vezes a raa judaica toda esteve na iminncia de extino.
      Nenhum Moiss apareceu para conduzir os judeus para fora da escravido. Nenhum Elias invocou bolas de fogo vindas do cu. Nenhum fulgor luminoso irradiou do 
templo de Jerusalm. At que o rei Herodes surgiu com sua paixo por edifcios majestosos, o templo permanecia inconcluso, um monte de entulho trazendo mais recordaes 
de vergonha do que de glria.
      No final do Antigo Testamento, Deus estava em oculto. Ele havia ameaado esconder seu rosto, e, quando finalmente o fez, uma sombra tenebrosa caiu sobre o 
planeta. Nossa decepo com Deus vinte e cinco sculos depois oferece um relance do que os judeus sentiram quando Deus deu as costas. Talvez encontremos algum consolo 
em relembrar as "desvantagens" das intervenes diretas de Deus. Talvez cheguemos a compreender que sua Presena  radiosa demais para ns: ela deixa cicatrizes; 
cria distncia; e, pior ainda, parece que nem mesmo estimula a f. Talvez tambm encontremos consolo em vislumbrar uma vida eterna livre de lgrimas e dor, numa 
nova dimenso em algum lugar, depois de sermos transformados em seres que conseguem suportar a Presena de Deus. Mas que dizer do entretempo? De agora? Dos tempos 
difceis?  semelhana dos judeus, sentimos o ocultamento de Deus como uma frustrao, um desapontamento, uma dor de corao, uma dvida jamais inteiramente solucionada.
      Quatro sculos separam as ltimas palavras de Malaquias, no Antigo Testamento, das primeiras palavras de Mateus, no Novo Testamento. So chamados de "quatrocentos 
anos de silncio", e essa frase assinala uma era cercada de decepo com Deus. Deus se importava? Ser que ele estava mesmo vivo? Parecia que estava surdo s oraes 
dos judeus. Ainda assim, apesar de tudo, aguardavam um Messias - no tinham qualquer outra esperana.
      "Que mais posso fazer?" Deus indagou. Mas havia algo mais. Aquilo que no podia ser conquistado  fora, ele conquistaria atravs do sofrimento.
*
      Referncias bblicas: Isaas 54; Malaquias 4; Salmo 74.
***
Terceira Parte: Aproximando-se: O Filho
Captulo 13 - A Descenso
      IMAGINE QUE HOUVESSE UM REI que amasse uma moa humilde", principia uma histria de Kierkegaard.
No havia rei como ele. Todos os estadistas tremiam diante de seu poder. Ningum ousava pronunciar uma palavra contra ele, pois ele possua a fora para esmagar 
todos os oponentes. E, ainda assim, esse poderoso rei derreteu-se de amores por uma moa humilde.
Como podia declarar seu amor por ela? Por ironia, sua prpria realeza deixava-o de mos amarradas. Caso trouxesse-a ao palcio e coroasse-lhe a cabea com jias 
e vestisse-lhe o corpo com vestes reais, certamente ela no resistiria - ningum ousava resistir-lhe. Mas ela o amaria?
 claro que diria que o amava, mas am-lo-ia de verdade? Ou iria viver com ele temerosa, secretamente se lastimando pela vida que havia deixado para trs? Seria 
feliz ao seu lado? Como ele poderia saber?
Caso ele fosse na carruagem real at a cabana dela na floresta, com uma escolta armada balanando imponentes estandartes, isso tambm a atordoaria. Ele no desejava 
uma sdita servil. Desejava uma amante, uma igual. Desejava que ela esquecesse que ele era rei e ela uma moa humilde e que deixasse que o amor partilhado vencesse 
o abismo existente entre eles.
     
      "Pois  somente no amor que o desigual pode ser feito igual", concluiu Kierkegaard. O rei, convencido de que no poderia fazer a moa melhorar sua condio 
social sem reprimir sua liberdade, decidiu rebaixar-se. Vestiu-se de pedinte e aproximou-se da cabana incgnito, com uma capa surrada, frouxa, esvoaando ao seu 
redor. No era um mero disfarce, mas uma nova identidade que assumiu. Renunciou ao trono para ganhar a mo dela.
      O que Kierkegaard expressou em forma de parbola, o apstolo Paulo expressou nestas palavras acerca de Jesus, o Cristo:

Cristo Jesus,... subsistindo em forma de Deus, 
no julgou como usurpao o ser igual a Deus;
antes a si mesmo se esvaziou,
assumindo a forma de servo,
tornando-se em semelhana de homens;
e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou,
tornando-se obediente at  morte, e morte de cruz.

      Em seu trato com seres humanos, Deus havia freqentemente se humilhado. Leio o Antigo Testamento como um nico e longo registro de suas "condescendncias" 
("descer, rebaixar-se, para estar com"). Deus condescendeu para falar de diversas formas a Abrao e a Moiss e  nao de Israel e aos profetas. Mas nenhuma condescendncia 
pde se igualar ao que veio em seguida, depois dos quatrocentos anos de silncio. Deus, tal como o rei na parbola de Kierkegaard, assumiu uma nova forma: tornou-se 
um homem. Foi a descenso mais chocante que se pode imaginar.
No Temais
Ouvimos as palavras a cada poca de Natal em representaes nas igrejas, quando crianas vestem roupes de banho e encenam a histria do nascimento de Jesus. "No 
temais!" balbucia o anjo de seis anos de idade, com sua roupa de lenis se arrastando pelo cho, as asas de gaze e arame batendo levemente devido ao tremor do corpo. 
Ele olha de soslaio para o texto escondido nas dobras da manga. "No temais: eis aqui vos trago boa nova de grande alegria." J apareceu a Zacarias (seu irmo mais 
velho, com uma barba de algodo presa ao queixo) e a Maria (uma loirinha sardenta). Ele usou a mesma saudao para os dois: "No temas!..."
      Essas foram tambm as primeiras palavras de Deus a Abrao, e a Hagar, e a Isaque. "No temas!" disse o anjo ao saudar Gideo e o profeta Daniel. Para seres 
sobrenaturais, essa expresso serve quase como um equivalente para "Oi! como vai?" No  de surpreender. Quando o ser sobrenatural falava, o ser humano geralmente 
estava com o rosto em terra num estado catalptico. Quando Deus fazia contato com o planeta Terra, algumas vezes o encontro sobrenatural soava como um trovo, algumas 
vezes agitava o ar como um redemoinho, e algumas vezes iluminava o cenrio como um claro de fsforo. Quase sempre causava temor.
      Contudo, os anncios do anjo a Zacarias e Maria e Jos prometeram algo novo. Deus estava prestes a fazer uma apario numa forma que no assustaria. Em Jesus, 
nascido num curral ou caverna e colocado num cocho, Deus por fim encontrou uma maneira de se aproximar, a qual a humanidade no necessitava temer. O que podia ser 
menos assustador do que um nen recm-nascido, com os bracinhos se movendo espasmodicamente e olhos que ainda no fixam bem o olhar? O rei havia-se desfeito de seus 
mantos reais.
      Pense na condescendncia: a Encarnao, que fatiou a histria em duas partes (um fato que, mesmo com m vontade, nossos calendrios admitem), teve mais testemunhas 
animais do que humanas. Pense tambm no risco. Na Encarnao, Deus transps o enorme precipcio de temor que o havia distanciado de sua criao humana. Mas remover 
aquela barreira tornou Jesus vulnervel, terrivelmente vulnervel.

A criana nascida durante a noite em meio a animais. O doce respirar e o estrume fumegante do gado. E nunca mais as coisas voltaro a ser as mesmas.
Aqueles que crem em Deus de uma certa forma jamais conseguem estar de novo seguros a seu respeito. Uma vez que o viram num estbulo, jamais conseguem ter certeza 
sobre onde aparecer ou o que far a qualquer custo ou a que nvel absurdo de auto-humilhao se rebaixar em sua incansvel busca pelo homem....
Para aqueles que crem em Deus, significa esse nascimento que o prprio Deus nunca est a salvo de ns; talvez esse seja o lado sombrio do Natal, o terror do silncio. 
Ele chega de uma tal maneira que sempre podemos rejeit-lo, seja quebrando o crnio do nen tal como o fazemos com uma casca de ovo, seja pendurando-o com pregos 
quando ficasse grande demais para esmigalharmos sua cabea.

      Como Deus sentiu o dia de Natal? Imagine por um instante voc voltar a ser nen: deixar de lado a linguagem e coordenao motora, e a habilidade de ingerir 
alimento slido e de controlar sua bexiga. Deus como um feto! Ou, no dizer de C. S. Lewis, imagine voc se tornando uma lesma - aquela analogia provavelmente  melhor. 
Naquele dia em Belm, o criador de tudo que existe assumiu a forma de um recm-nascido frgil, dependente.
      "Kenosis"  a palavra tcnica que telogos utilizam para descrever Cristo "se esvaziando" das vantagens de ser Deus. Ironicamente, embora o esvaziamento envolvesse 
muita humilhao, tambm envolveu uma espcie de liberdade. Tenho falado das "desvantagens" da infinitude. Um corpo fsico deixou Cristo livre para agir numa escala 
humana, sem aquelas "desvantagens". Pde dizer o que queria sem golpear as rvores com sua voz. Pde expressar ira chamando o rei Herodes de raposa ou armando-se 
com um chicote no templo, ao invs de balanar a Terra com sua tempestuosa presena. E pde falar a toda e qualquer pessoa - uma prostituta, um cego, uma viva, 
um leproso - sem ter de primeiramente anunciar "No temais!"

J era muito que, como Deus, o homem fosse feito outrora, Muito mais, porm, que, como o homem Deus se fizesse agora.
- John Donne, "HolySonnet 15"
("Soneto Sagrado n 15")
*
Referncias bblicas: Filipenses 2.
***
 Captulo 14 - Grandes Expectativas
      TODOS OS ANOS, na poca do Natal, o ar vibra com poticas promessas do Messias. Desde coristas amadores nos colgios at profissionais de renome, os msicos 
extenuam-se em ensaios como se estivessem numa peregrinao, segurando partituras gastas de tanto uso.
      E o que  que celebramos tanto?

Todo vale ser aterrado, e nivelados todos os montes e outeiros; o que  tortuoso ser retificado, e os lugares escabrosos, aplanados.
O povo que andava em trevas viu grande luz, e aos que viviam na regio da sombra da morte resplandeceu-lhes a luz.
Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo est sobre os seus ombros; e o seu nome ser: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, 
Prncipe da Paz.

      Aquelas exatas palavras estiveram nos lbios de judeus fiis durante os anos do silncio de Deus  medida que a decepo e mesmo o desespero tomavam conta 
de todo o Israel. A histria avanou inexoravelmente, sendo at mais cruel, esmagando todas as esperanas menos uma: a radiante viso que os profetas tiveram de 
um Rei dos Reis. Quando o Messias vier, ento finalmente a justia correr como um rio - os judeus se apegaram com todas as foras quela promessa, qual marinheiros 
nufragos que se apegam a um bote salva-vidas. Quatrocentos anos aps o ltimo profeta bblico, estranhos rumores comearam a circular: primeiro acerca de um profeta 
no deserto, de nome Joo, e ento acerca de Jesus, o filho de um carpinteiro de Nazar.  medida que comearam a vazar informaes sobre os poderes miraculosos de 
Jesus, a especulao se espalhou. Ser que ele seria Aquele? Alguns at mesmo insistiam que o Messias tinha realmente chegado. Com os prprios olhos haviam visto 
Jesus curar os cegos e fazer os coxos andarem. "Deus visitou o seu povo", declararam quando ressuscitou um jovem. Outros permaneciam cticos. Jesus cumpriu as promessas 
messinicas, porm - um importante porm - no da maneira como todos esperavam.
***
      Quando vasculhei a Bblia  procura de sinais de decepo e desiluso com Deus, esperava encontrar uma mudana decisiva ao chegar aos evangelhos. Os profetas 
- conforme uma rpida olhada na partitura de Handel facilmente revela - haviam predito um Messias que parecia que ia eliminar tais sentimentos. Mas, ao contrrio, 
a decepo no desapareceu da terra nos dias de Jesus, e ainda hoje no desapareceu, passados dois mil anos. O que houve de errado? Ou, faa a pergunta de uma outra 
forma: em que a vida de Jesus contribuiu para responder s trs perguntas que permeiam este livro?
      Deus est calado? "Segue-me." "Portanto, vs orareis assim." "Eis que subimos para Jerusalm." Em certos aspectos, Jesus tornou a vontade de Deus mais clara 
do que em qualquer outro perodo anterior. Inacreditavelmente ele se abriu para o mtodo cientfico de investigao, que  exatamente o que recebeu da parte de fariseus, 
saduceus e outros cticos. Qualquer um podia se dirigir diretamente ao Filho de Deus e fazer uma pergunta ou discutir com ele. Conforme contam os evangelhos, Deus 
quebrou seu silncio de modo audvel e convincente enquanto Jesus viveu na terra: o Verbo feito carne.
      Deus est oculto? Com Jesus, Deus de fato tomou forma no mundo, adquirindo um nome, um rosto e um endereo. Era um Deus que voc podia tocar e cheirar e ouvir 
e ver. "Quem me v a mim, v o Pai", disse Jesus com toda franqueza. E, assim mesmo, a visibilidade de Jesus, o prprio fato de ser uma pessoa comum, apresentou 
um novo problema para judeus criados em meio a histrias sobre o Monte Sinai e o Monte Carmelo. Onde estavam a fumaa, o fogo, o lampejo de luz? Jesus no correspondia 
 imagem que faziam de como Deus devia parecer. Era um homem - mas ser possvel? - e ainda por cima um homem oriundo do inexpressivo vilarejo de Nazar; era filho 
de Maria, esposa de um carpinteiro comum. Os vizinhos de Jesus, que o haviam visto brincar nas ruas com seus prprios filhos, jamais poderiam aceit-lo como o Messias. 
E o apstolo Marcos observa que at a prpria famlia de Jesus chegou  concluso: "Est fora de si." At a me e irmos! Maria, que, ao ver o anjo Gabriel, espontaneamente 
deu vazo ao hino da anunciao; seus irmos, que haviam passado com ele mais tempo do que qualquer outro - tambm estes no conseguiam conciliar a estranha combinao 
do maravilhoso e do ordinrio. A pele de Jesus atrapalhava.
      Deus  injusto? Talvez esta pergunta persistente tenha produzido a maior parte das dvidas sobre Jesus. Os judeus acreditavam que o Messias consertaria tudo 
o que havia de errado no mundo. No haviam os profetas prometido que o Senhor devoraria definitivamente a morte e enxugaria as lgrimas de todos os rostos? De fato, 
Jesus curou algumas pessoas; mas muitas mais permaneceram sem cura. Ressuscitou Lzaro, mas muitas outras morreram durante o seu tempo na terra. No enxugou as lgrimas 
de todos os rostos.
      O problema da injustia perturba muitas pessoas que, de outra forma, so atradas pela vida de Jesus. O grande telogo Agostinho, por exemplo, ficou intrigado 
com a arbitrariedade das curas mencionadas nos evangelhos. Se Jesus tinha o poder, por que no curou a todos? Em especial uma histria do evangelho de Joo chamou 
a ateno de Agostinho.
      Os invlidos de Jerusalm - os cegos, os coxos, os para-lticos - costumavam se reunir em torno de um determinado tanque da cidade. Algumas vezes a gua do 
tanque parecia se agitar, e as pessoas enfermas corriam, coxeavam ou rastejavam para entrar na gua enquanto ela estava se mexendo. Era o santurio de Lurdes daquela 
poca. Certo dia Jesus encetou uma conversa com um homem enfermo que jazia ali. Estava aleijado havia trinta e oito anos, contou a Jesus, mas nunca tinha conseguido 
chegar ao tanque. Sempre que a gua se mexia algum chegava antes. Sem pestanejar, Jesus ordenou ao invlido que se levantasse e andasse. "Imediatamente o homem 
se viu curado e, tomando o leito, ps-se a andar." Depois de trinta e oito anos de ficar estendido no cho, ele andou! Era o homem mais feliz de Jerusalm.
      Mas o narrador da histria, Joo, acrescenta um detalhe significativo: Jesus furtivamente desapareceu em meio  multido. Ignorou o restante da grande multido 
de pessoas invlidas, permitindo que todos,  exceo de um, continuassem sem cura. Por qu? Agostinho se admirava: "Havia tantos estendidos ali ao cho, e ainda 
assim apenas um foi curado, embora com uma palavra pudesse ter sarado todos eles."
      O primo de Jesus foi uma outra vtima da injustia. Joo Batista, um crente de verdade, havia despertado as esperanas da nao quanto a Jesus. Nos primeiros 
dias de seu ministrio, quando as pessoas costumavam perguntar se Joo mesmo no era o Messias, ele as corrigia, dizendo que o Messias "vem aps mim, do qual no 
sou digno de desatar-lhe as correias das sandlias." Aquele prometido - Jesus de Nazar - veio at Joo pedindo batismo, e este observou surpreendido enquanto o 
Esprito de Deus descia do cu em forma de pomba. Como que tendo o objetivo de desfazer todas as dvidas quanto a Jesus, ouviu-se uma voz vinda do cu, forte como 
um trovo.
      Dois anos mais tarde, entretanto, Joo Batista teve suas prprias dvidas, sua prpria crise de decepo. Havia servido fielmente a Deus, e, no entanto, acabara 
na priso de Herodes. Enquanto ali mofava, esperando a morte, enviou s escondidas uma mensagem para Jesus: "s tu aquele que estava para vir, ou havemos de esperar 
outro?" Aquela nica pergunta - vinda de Joo! - capta a estranha ambivalncia, a esperana e a incerteza, que existiam em torno de Jesus.
O Reino Interior
      Caso Jesus tivesse simplesmente evitado uma palavra emocionalmente carregada, reino, tudo poderia ter sido diferente. Assim que ele a mencionava, nasciam imagens 
nas mentes daqueles que ouviam: estandartes reluzentes, exrcitos resplendentes, o ouro e o mrmore dos dias de Salomo, uma nao conduzida de volta  sua grandeza. 
Mas ento acontecia algo para frustrar aquelas expectativas, e todos os sentimentos de decepo novamente voltavam. Como se verificou posteriormente, a palavra reino 
significava uma coisa para a multido e uma outra bem diferente para Jesus.
      As massas desejavam mais do que alguns milagres aqui e ali; desejavam um reino visvel de poder e glria. Mas, em vez disso, Jesus falava a respeito do "reino 
dos cus", um reino invisvel. Sim, ele solucionou alguns problemas no mundo ao seu redor, mas ele empregou suas energias principalmente para lutar contra foras 
invisveis. Certa vez um paraltico to desesperado em ser curado convenceu quatro amigos a fazerem um buraco num telhado e descerem-no pelo buraco de modo que conseguisse 
chegar at Jesus. E a reao de Jesus foi: "Qual  mais fcil: dizer ao paraltico: Esto perdoados os teus pecados, ou dizer: Levanta-te, toma o teu leito, e anda?" 
Ele deixou claro o que era mais fcil. Nenhuma deformidade fsica podia suportar seu toque curativo. A luta de verdade era contra poderes espirituais, invisveis.
      A f, o perdo dos pecados, o poder do maligno - estas eram as preocupaes que levavam Jesus a diariamente orar ao Pai. Essa nfase confundia as multides, 
que basicamente procuravam solues para seus problemas no mundo fsico: pobreza, enfermidades, opresso poltica. No fim, Jesus fracassou em alcanar as expectativas 
que tinham quanto a um rei. (Ser que alguma coisa mudou desde ento? Conheo inmeros ministrios que enfatizam a cura e a prosperidade fsicas, mas poucos que 
concentram sua ateno em persistentes problemas humanos tais como orgulho, hipocrisia e legalismo - os problemas que tanto preocuparam Jesus.)
      Quaisquer idias que os seguidores de Jesus tivessem quanto a um novo e poderoso Salomo reconquistando Israel se evaporaram ao observarem o que aconteceu 
em Jerusalm. Alguns dias aps uma "procisso triunfante" (uma palhaada em comparao com os imponentes desfiles dos romanos), Jesus foi preso e levado a julgamento. 
Ele contou ao governador romano que era de fato um rei, mas acrescentou: "O meu reino no  deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam 
por mim, para que no fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino no  daqui."
      Jesus um rei? Um rei de brincadeira, com seu manto purpreo salpicado de sangue, por causa dos aoites, e com uma coroa de espinhos comprimida em sua cabea. 
Os discpulos fugiram, sua lealdade foi sufocada pelo medo do perigo imediato. Se Jesus no se protegia, por que iria proteg-los? O mundo visvel do poder romano 
encontrou-se com o mundo invisvel do reino dos cus, e por alguns momentos pareceu que iria arras-lo.


A verdade para sempre no patbulo. O erro para sempre no trono - No entanto aquele patbulo determina o futuro, e por detrs do escuro desconhecido, est Deus dentro 
da sombra, vigilante sobre os seus.
- James Russell Lowell,
"The Present Crisis"  ("A Crise Presente")
*
Referncias bblicas: Isaas 40, 9; Lucas 7; Joo 14; Marcos 3; Joo 5; Joo 1; Mateus 11; Marcos 2; Joo 18.
***
Captulo 15 - Timidez Divina
O meu projeto  a primeira experincia cientfica em toda histria a resolver de uma vez por todas a questo da existncia de Deus. Do jeito como as coisas esto, 
podem existir sinais de sua existncia, mas eles apontam para os dois lados e, assim sendo, so ambguos e no provam coisa alguma. Por exemplo, as maravilhas do 
universo no convencem aqueles que esto mais familiarizados com tais maravilhas, os prprios cientistas. Quer isso testifique da ignorncia dos cientistas, quer 
do sucesso de Deus em esconder-se,  algo sem tanta importncia.
- Walker Percy, The Second Corning ("A Segunda Vinda")
      
      SE CHEGOU a haver uma ocasio propcia para conduzir a experincia proposta no romance de Walker Percy, ela ocorreu enquanto Jesus andou pela terra. Alm de 
provar a existncia de Deus, Jesus poderia ter solucionado de uma vez para sempre o problema da decepo com Deus. Ele teve uma magnfica oportunidade de calar os 
crticos para sempre.
      Se, por exemplo, meu amigo Richard tivesse vivido nos dias de Jesus, poderia ter exigido diretamente dele provas a respeito do assunto. "Voc diz que  o Filho 
de Deus? Tudo bem, ento prove!" O que teria acontecido? No precisamos especular, pois com freqncia Jesus foi desafiado de modo parecido. Quando os "experts" 
em religio imploraram a ele para que fizesse um sinal miraculoso, Jesus ficou irado com eles, chamando-os de "gerao m e adltera". Quando um rei muito curioso 
pediu para ver um milagre, Jesus recusou-se a cooperar, embora isso pudesse ter salvo a sua vida.
      Por que Deus se refreia? Talvez possa-se encontrar uma pista na Tentao, o primeiro "acontecimento" do ministrio de Jesus, uma espcie de exame final prestado 
logo antes de iniciar sua vida pblica. Em certos aspectos me faz lembrar da crise de Richard naquela madrugada.
       difcil imaginar um confronto mais impressionante: Jesus contra o maior dos cticos, Satans em pessoa, com a areia alva do deserto servindo de cenrio. 
Satans desejava alguma prova: "Se s Filho de Deus..." Ele desafiou Jesus a fazer po com uma pedra, pediu para ver uma amostra dos poderes de autoproteo que 
Jesus possua, e ofereceu-lhe a autoridade sobre todos os reinos do mundo.
      Creio que o desafio de Satans foi uma tentao de verdade para Jesus, no uma disputa ensaiada, pr-decidida. Um po teria tentado qualquer um que tivesse 
jejuado durante quarenta dias. Uma garantia de segurana fsica certamente exercia atrao sobre algum que iria enfrentar a tortura e a execuo. E o esplendor 
de todos os reinos da Terra - os profetas no haviam predito tudo isso para o Messias? Todas as trs "tentaes" estavam ao alcance de Jesus; todas as trs eram, 
na verdade, prerrogativas suas. Na verdade, Satans estava oferecendo a Jesus um atalho para alcanar seus objetivos messinicos.
      O romancista russo Fyodor Dostoyevsky fez da cena da Tentao um ponto central em sua obra-prima Os Irmos Karamzov. Ivan Karamzov chama a Tentao de o 
mais estupendo milagre da terra: o milagre do restringir-se. Se ele tivesse cedido  Tentao, teria conquistado suas credenciais - no apenas junto a Satans, mas 
junto a todo Israel, confirmando-se  humanidade alm de qualquer dvida. Segundo o ponto de vista de Dostoyevsky, Satans ofereceu trs meios fceis de despertar 
a f - milagre, mistrio e autoridade - e Cristo recusou todos os trs. Nas palavras de Ivan Karamzov, "Voc no usaria milagres para escravizar o homem; voc desejou 
que a f do homem nascesse espontaneamente, no como fruto de milagres."
      Enquanto eu lia o relato conciso de Mateus sobre a Tentao e ento a reconstruo longa e elaborada de Dostoyvsky, uma pergunta surgiu de maneira abrupta, 
perturbadora. Qual  a diferena entre a tentao no deserto e aquela que teve lugar no pequeno apartamento de Richard? Ele tambm implorou por algum tipo de manifestao 
sobrenatural: uma luz, uma voz, alguma coisa que comprovasse o poder de Deus alm de qualquer dvida. Ou, para tornar a questo mais pessoal, como  que a Tentao 
 diferente de pocas quando eu imploro, quase exijo, que Deus intervenha e me salve de algum apuro?
      Existem diferenas,  claro, e a minha autodefesa rapidamente as descreve. Supe-se que Richard era sincero; eu estava necessitado; ns dois estvamos pedindo 
ajuda a Deus, no estvamos insultando-o nem exigindo adorao. E, assim mesmo, no consigo desfazer-me facilmente da semelhana marcante entre o "Atira-te abaixo" 
de Satans e o "Revela-te!" de Richard. Em cada caso o desafio  o mesmo: uma exigncia de que Deus tire a capa e se revele. Em cada caso, Deus no quis mostrar-se.
      H um outro exemplo da auto-restrio divina. Aconteceu em Jerusalm, num local bem prximo de onde Satans fez o seu terceiro desafio. Do alto de uma colina 
Jesus olhou e clamou: "Jerusalm, Jerusalm! que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha 
ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vs no o quisestes!" Aquele lamento de tristeza por Jerusalm  de uma qualidade quase que de timidez. Jesus, que podia 
destruir Jerusalm com uma palavra, que podia mandar descer legies de anjos dos cus para forar uma sujeio, em vez disso observa a cidade e chora.
      Deus se segura; se esconde; chora. Por qu? Porque deseja o que o poder jamais consegue conquistar. Ele  um rei que no deseja a sujeio, mas o amor. Ao 
invs de esmagar Jerusalm, Roma e todas as outras potncias mundiais, ele optou pelo caminho lento e difcil da Encarnao, amor e morte.
      George MacDonald resumiu a abordagem de Cristo: "Em vez de esmigalhar o poder do mal com a fora divina; em vez de impor a justia e destruir os mpios; em 
vez de pacificar a Terra mediante o governo de um prncipe perfeito; em vez de reunir as crianas de Jerusalm sob suas asas, quer elas quisessem ou no, e de salv-las 
dos horrores que angustiavam sua alma proftica - Ele deixou que o mal agisse  vontade enquanto existisse; Ele se satisfez com as formas lentas e desencorajadoras 
de ajudar apenas no essencial; tornando bons os homens; expulsando, e no simplesmente controlando, Satans.... Amar a justia  faz-la crescer, no  ving-la."
Os Milagres
      Obviamente no contei a histria toda sobre Jesus. Sim, a humanidade de Jesus representava uma espcie de disfarce, pelo menos em comparao com a glria de 
Deus no Antigo Testamento. Sim, ele demonstrou a autolimitao, recusando-se a impressionar espectadores com uma impetuosa manifestao de poder. Mas que dizer dos 
milagres que ele chegou a realizar, dos quais trs dzias esto relatados nos evangelhos? Ningum que o viu fornecer almoo para cinco mil, ou ordenar a Lzaro que 
sasse do tmulo, ou amainar uma tempestade de vero poderia falar com facilidade de uma qualidade como "timidez divina".
      Porm, Jesus, que, caso quisesse faz-lo, presumivelmente teve poder para operar uma maravilha em qualquer dia de sua vida, demonstrou uma curiosa ambivalncia 
diante dos milagres. Com seus discpulos, ele os empregou como uma prova de quem era ("Crede-me que estou no Pai, e o Pai em mim; crede ao menos por causa das mesmas 
obras"). Mas, mesmo quando as realizava, parecia no atribuir muita importncia a elas. Quando ressuscitou a filha de um judeu da alta sociedade, deu ordens expressas 
para manter silncio sobre o ocorrido. Marcos registra sete ocasies distintas quando Jesus disse a algum que havia curado: "No o digas a ningum!"
      Jesus sabia muito bem sobre o efeito superficial dos milagres nos dias de Moiss e nos de Elias: eles atraam multides,  verdade, mas raramente estimulavam 
uma fidelidade de longa durao. Ele estava trazendo uma dura mensagem de obedincia e sacrifcio, no um espetculo  parte para pessoas vidas de sensacionalismo. 
Como era de esperar, os verdadeiros cticos de sua poca (bastante parecidos com as pessoas de hoje em dia) deram uma explicao racionalista para seus poderes. 
Se a voz de Deus falava do cu, rejeitavam-na como sendo um trovo. Outros creditaram suas capacidades a Satans ou a alguma outra fonte. E os inimigos mais ferrenhos 
de Jesus se recusaram a crer nele, mesmo quando diante de provas concretas. Certa ocasio, instalaram formalmente um tribunal para estudar uma suposta cura. Ignorando 
testemunhos de primeira mo - "Uma cousa sei: Eu era cego, e agora vejo" - despejaram insultos sobre o homem curado e atiraram-no tribunal afora. E, quando Lzaro 
se apresentou vivo depois de quatro dias num tmulo, quiseram providenciar logo uma segunda morte para ele.
      Com uma uniformidade impressionante, os relatos bblicos mostram que milagres - milagres notveis, de parar o trnsito - simplesmente no fomentam uma f profunda. 
Como prova disso, no precisamos procurar alm dos trs amigos mais chegados de Jesus, que foram os nicos a participar de um acontecimento conhecido como a Transfigurao, 
ocasio em que o rosto de Jesus brilhou como o Sol e suas roupas se tornaram ofuscantes, "sobremodo brancas, como nenhum lavandeiro na terra as poderia alvejar". 
Para surpresa dos discpulos, dois gigantes da histria judaica, mortos havia muito tempo - Moiss e Elias - apareceram numa nuvem com eles. Deus falou audivelmente. 
Foi demais para os discpulos; estes caram ao cho aterrorizados.
      Que efeito, porm, um acontecimento estupendo como esse teve em Pedro, Tiago e Joo? Silenciou definitivamente suas perguntas e os encheu com uma f slida? 
Umas poucas semanas depois, quando Jesus mais necessitou deles, todos o abandonaram. De algum modo o significado de quem Jesus era nunca foi na verdade completamente 
assimilado, se no depois de ele ter partido e ento retornado.
***
      Tenho lido livros sobre sinais e milagres, livros que tm a pretenso de calar os cticos, como se os milagres de Jesus provassem que ele  a resposta para 
os problemas do mundo.
      Mas devo confessar que a maioria desses argumentos me do a impresso de serem irrelevantes para pessoas decepcionadas com Deus. Esto mais interessadas nos 
milagres que Jesus no realizou. Por que um Deus que possui o poder de endireitar o que est errado escolhe algumas vezes no faz-lo? Ou, por que Jesus realizava 
somente alguns milagres? Por que curar somente um homem paraltico em Betesda?
      Pode-se encontrar uma pista para tal pergunta numa descrio fantasiosa da vida de Jesus, a qual, por boas razes, nunca conseguiu entrar na Bblia. O esprio 
Evangelho da Infncia de Jesus Cristo prope-se a revelar histrias desconhecidas sobre a infncia de Jesus. Mostra Jesus do jeito que algum possa querer que ele 
fosse. Segundo esse antigo livro, onde as gotas de suor de Jesus caam cresciam rvores balsamferas; o local onde ficavam suas fraldas no pegava fogo. A pedidos 
Jesus realizava "brincadeiras" para impressionar os amigos - algo que o verdadeiro Jesus sempre se recusou a fazer. O Jesus apcrifo possua o fascnio de um gnio-de-garrafa 
domesticado ou de um mgico de circo. Sempre que seu pai, Jos, cometia algum erro num importante servio de carpintaria, Jesus intervinha e, num passe de mgica, 
consertava a falha.
      Esse Jesus mtico tambm no receava utilizar seu poder para vingana. Quando uma vizinha feriu um dos amiguinhos de Jesus, ela misteriosamente caiu num poo 
e morreu com o crnio esmagado. Quando Jesus se aproximava de uma cidade, seus dolos se desintegravam em montes de areia. Em contraste, o Jesus de verdade repreendeu 
os discpulos por sugerirem que clamasse por fogo do cu contra uma cidade pecaminosa. E, quando soldados vieram prend-lo, empregou seu poder sobrenatural uma nica 
vez - para curar a orelha decepada de um dos que o prendiam.
      Essas so as aes de um cabea quente como Sanso, no as reaes cuidadosas do Jesus histrico dos evangelhos, que empregou seus poderes com compaixo para 
satisfazer as necessidades humanas, no em brincadeiras para aparecer. Todas as vezes em que algum lhe pedia diretamente, ele curava. Quando seus discpulos estavam 
ficando cada vez mais assustados numa tempestade no meio do lago, ele acalmou o vento. Quando a multido que o ouvia ficou com fome, ele os alimentou, e, quando 
os convidados de um casamento ficaram com sede, ele fez vinho. Em resumo, os milagres nos evangelhos autnticos dizem respeito ao amor, no ao poder.
      Embora os milagres de Jesus fossem por demais limitados para solucionar cada decepo humana, serviam como sinais profticos de sua misso, ilustrando o que 
algum dia Deus faria em favor de toda a criao. Para as pessoas que os experimentaram - como  o caso do paraltico que foi abaixado tal qual um candelabro que 
vai ser limpo - as curas forneceram prova convincente de que o prprio Deus estava visitando o planeta Terra. Para todos os demais, despertaram anseios que no desaparecero 
at que uma restaurao final acabe com toda dor e morte.
      Os milagres fizeram exatamente o que Jesus havia predito. Para aqueles que escolheram crer nele, deram ainda mais motivos para crer. Mas para aqueles decididos 
a neg-lo, os milagres fizeram pouqussima diferena. Algumas coisas simplesmente tm de ser cridas para serem vistas.
*
Referncias bblicas: Mateus 12, 16; Lucas 4; Mateus 23 e Lucas 13; Joo 14, 9; Marcos 9.
***
Captulo 16 - O Milagre Adiado
      QUANDO CARLOS MAGNO, rei dos francos, ouviu pela primeira vez a histria da priso e execuo de Jesus, explodiu de raiva. Segurando firmemente a espada e 
chocalhando-a na bainha, exclamou: "Ah! se eu estivesse ali. Eu teria morto todos eles com as minhas legies!" Sorrimos diante da sincera lealdade de guerreiro de 
Carlos Magno, ou de Simo Pedro, que realmente desembainhou uma espada em defesa de Jesus. Por trs dessa grande indignao repousa, porm, uma questo misteriosa, 
profundamente misteriosa. Carlos Magno, afinal, no esteve presente no Getsmani; mesmo estando, no poderia ter ajudado. Mas Deus Pai esteve ali; este, porm, no 
ergueu um dedo em favor de seu Filho condenado.
      Por que Deus no agiu? Quem quer que reflita sobre a desiluso com Deus deve fazer uma pausa no Getsmani, e no palcio de Pilatos e no Calvrio - os cenrios 
da priso, do julgamento e da execuo de Jesus. Pois naqueles trs locais o prprio Jesus experimentou uma condio bem parecida com a de desiluso com Deus.
      O ordlio teve incio enquanto Jesus orava num bosque tranqilo e fresco, formado por oliveiras, com trs de seus discpulos aguardando sonolentamente do lado 
de fora. Dentro do jardim tudo parecia em paz; mas fora as foras do prprio inferno estavam  solta. Um discpulo havia-se tornado traidor, Satans estava  espreita, 
e um grande bando com espadas e porretes estava a caminho do Getsmani.
      "A minha alma est profundamente triste at  morte", Jesus disse a seus trs discpulos. Embora reivindicasse ter o direito e o poder de enviar um exrcito 
de anjos, Jesus no se defendeu. Ele viera para viver num mundo de carne e osso, e morreria de acordo com as regras desse mundo. Numa determinada altura ele caiu 
com o rosto em terra e orou para que houvesse alguma maneira, qualquer maneira, de escapar daquela situao. O seu suor caa ao cho em grandes gotas, como de sangue.
      E Deus ficou calado.
***
      No palcio de Pilatos, essa autolimitao continuou. No sentido mais literal, Deus - em Jesus - tinha as mos amarradas. "Profetiza-nos", alguns gritaram, 
provocando-o com um desafio para que realizasse um milagre, "quem  que te bateu!" O Filho de Deus, de olhos vendados, no resistiu enquanto punhos cerrados golpeavam 
seu rosto, e enquanto cuspidas escorriam pela sua barba.
      A cena seguinte, no Calvrio, tem sido descrita para ns tantas vezes em dramatizaes, sermes e pinturas sobre a Paixo que, estupefatos, mal conseguimos 
imagin-la por ns mesmos. Comece lembrando-se do mais doloroso tempo de decepo que voc experimentou. Voc apostou tudo naquilo que parecia estar ao alcance de 
Deus - talvez a recuperao de um cncer, ou o nascimento de uma criana saudvel, ou a ajuda de Deus em salvar um casamento. Mas nada deu certo. O cncer matou, 
apesar de suas oraes; o nen nasceu com leso cerebral; o seu cnjuge pediu o divrcio. Pense no Calvrio como sendo um tempo assim. Ou como um tempo como aquela 
noite que Richard passou em seu apartamento, ajoelhado no cho, implorando a Deus. Pense nele como um tempo de Nenhum Milagre.
      Todos ento ansiavam por um milagre: Pilatos e Herodes, que tinham ouvido rumores espetaculares; as mulheres que haviam seguido Jesus desde a Galilia; os 
discpulos que se esconderam  sombra. Um ladro que morria implorou por um milagre; o outro zombou, e os espectadores formaram um coro de gritaria: "Desa da cruz, 
e creremos nele.... Deus... venha livr-lo agora, se de fato lhe quer bem."
      Mas no houve livramento algum, milagre algum. Houve somente silncio. Charles Williams torna a olhar para a cena e diz: "O insulto atirado em Cristo, no momento 
de sua impotncia mais espetacular, foi: "Salvou os outros, a si mesmo no pode salvar-se.' Foi uma definio to exata quanto qualquer definio existente nas obras 
de escolsticos medievais."
      "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" finalmente Jesus clamou. Era uma citao dos Salmos, o derradeiro grito de decepo. O Pai tinha dado as costas, 
ou pelo menos assim parecia, deixando que a histria seguisse seu curso, deixando que tudo o que existia de errado no mundo triunfasse sobre tudo o que havia de 
correto. A prpria natureza entrou em convulso: o cho tremeu como num terremoto, tmulos racharam e se abriram. O sistema solar se arrepiou: o Sol se escondeu, 
e o cu se enegreceu.
Manh de Domingo
      Dois dias depois veio a Ressurreio, com um sonido como de um terremoto e um claro como de um relmpago. Ser que isso no devia ter justificado a ao de 
Deus e solucionado o problema da decepo de uma vez por todas?
      Que oportunidade desperdiada! Se to-somente o Jesus ressurreto tivesse reaparecido no ptio de Pilatos para desferir um golpe fulminante em seus inimigos! 
Mas suas mais ou menos doze aparies depois da ressurreio revelam um claro padro: Cristo se apresentou somente a pessoas que j criam nele. At onde saibamos, 
nem um nico incrdulo viu Jesus depois de sua morte.
      Considere dois homens que poderiam ter visto o Cristo ressuscitado caso tivessem esperado o suficiente. Esses rudes guardas romanos estavam do lado de fora 
do tmulo quando o Milagre dos Milagres ocorreu. Tremeram e ficaram como que mortos. Ento, revelando um reflexo incuravelmente humano, correram at as autoridades; 
e posteriormente naquela tarde esses dois, as nicas testemunhas do acontecimento real da ressurreio, concordaram em esconder o acontecimento. Pilhas de prata 
recm-cunhadas pareciam bem mais significativas do que a ressurreio do Filho de Deus. E, assim, as duas testemunhas oculares daquele grande dia, os homens esquecidos 
da Pscoa, morreram aparentemente como incrdulos.
***
      Hoje em dia os principais acontecimentos da vida de Jesus esto assinalados nos calendrios de metade do mundo - Natal, sexta-feira santa e domingo da ressurreio. 
Dos trs, entretanto, s o do meio, a Crucificao, teve lugar s claras para o mundo todo ver. No instante em que Deus parecia totalmente desamparado, as cmeras 
da histria estavam rodando, filmando tudo. Multides imensas observaram cada doloroso detalhe. E, quando quatro homens escreveram um relato minucioso sobre a vida 
de Jesus, dedicaram um tero de seus evangelhos para aquele tempo de aparente fracasso.
      O espetculo da Cruz, o acontecimento mais pblico da vida de Jesus, revela a enorme diferena entre um deus que prova sua existncia pelo poder e Aquele que 
prova sua existncia pelo amor. Outros deuses, os deuses romanos, por exemplo, impunham a adorao: durante a prpria vida de Jesus, alguns judeus foram mortos por 
no se inclinarem perante Csar. Mas Jesus Cristo jamais forou algum a crer nele. Preferia agir atraindo as pessoas, fazendo com que deixassem a si mesmas e viessem 
a ele.
      Paradoxalmente, no entanto, aquela cena de fraqueza inspirou uma nova esperana. "Se Deus  por ns, quem ser contra ns?" concluiu o apstolo Paulo, descansando 
sua f no amor ilimitado de um Deus "que no poupou a seu prprio Filho, antes, por todos ns o entregou". O amor  mais persuasivo quando envolve sacrifcio, e 
os evangelhos deixam claro que Jesus veio para morrer. Em suas prprias palavras, "Ningum tem maior amor do que este: de dar algum a prpria vida em favor dos 
seus amigos." De alguma forma, a possibilidade de felicidade eterna exigiu este momento de silncio e profunda decepo.
*
      Referncias bblicas: Mateus 26-27; Romanos 8; Joo 15.
***
Captulo 17 - Avano
"Senhora", disse eu, "se o nosso Deus fosse um deus pago ou o deus dos intelectuais - e para mim d tudo na mesma - ele poderia voar para o seu cu mais distante 
e nosso pesar faria com que ele viesse de novo  terra. Mas a senhora sabe que nosso Deus veio para estar entre ns. Desfira um soco nele, cuspa em seu rosto, aoite-o 
e finalmente crucifique-o: de que adianta? Minha filha, tudo isso j foi feito com ele."
- George Bernanos, Diary of a Country Priest ("Dirio de um Padre Rural")

      DEIXE-ME SER FRANCO: Que diferena Jesus faz para nossos sentimentos de decepo com Deus? Como nos ajuda o saber que ele tambm experimentou frustrao e 
decepo?
      Os telogos, acompanhando o apstolo Paulo, geralmente explicam a contribuio de Cristo em linguagem jurdica: justificao, reconciliao, propiciao. Mas 
essas palavras caracterizam somente uma pequena parte do que aconteceu. Para compreender que diferena Jesus faz para o problema da decepo, temos de ir alm dessas 
palavras e examinar a histria subjacente de Deus sair ardentemente em busca de seres humanos.
      Reexamine as duas principais imagens nos Profetas: um pai ansioso lamentando pelo filho que fugiu, e um amante abandonado ardendo de raiva. As histrias de 
Jesus propiciam um final feliz para ambas. O pai  espera tem aguardado por muito tempo; ele recebe de volta, com braos abertos, o filho fugitivo. O amante ferido, 
recuperado de sua ira, escancara a porta da frente.
A Cortina Rasgada
      Que diferena Jesus fez? Tanto para Deus como para ns, ele tornou possvel uma intimidade que nunca antes havia existido. No Antigo Testamento, os israelitas 
que tocaram a arca sagrada da aliana caram mortos; mas pessoas que tocaram em Jesus, o Filho de Deus em carne e osso, saram curadas. A judeus que no pronunciavam 
nem mesmo soletravam as letras do nome de Deus, Jesus ensinou uma nova maneira de dirigir-se a Deus: Abba, ou "papai". Em Jesus Deus se aproximou do homem.
      As Confisses de Agostinho descrevem como essa proximidade o afetou. Na filosofia grega ele havia aprendido acerca de um Deus perfeito, atemporal, incorruptvel. 
Ele jamais conseguiu aquilatar como uma pessoa cheia de cobia, obcecada por sexo, indisciplinada, tal como era o seu caso, podia se relacionar com um Deus assim. 
Tentou vrias heresias da poca e achou todas elas insatisfatrias, at que finalmente encontrou o Jesus dos evangelhos, uma ponte entre seres humanos comuns e um 
Deus perfeito.
      O livro de Hebreus examina em detalhes esse surpreendente novo avano na questo da intimidade. Primeiramente o autor trata detalhadamente do que era necessrio 
apenas para chegar at Deus na poca do Antigo Testamento. S uma vez por ano, no Dia da Expiao - o Yom Kippur - uma nica pessoa, o sumo sacerdote, podia entrar 
no Lugar Santssimo. A cerimnia envolvia banhos rituais, vestes especiais e cinco sacrifcios de animais; e ainda assim o sacerdote entrava no Lugar Santssimo 
temeroso. Ele usava sinos em seu manto e uma corda em volta do tornozelo, de modo que, caso morresse, e os sinos parassem de tocar, outros sacerdotes poderiam puxar 
seu corpo para fora.
      Hebreus apresenta um contraste marcante: agora podemos nos aproximar do "trono da graa'' sem receio, com intrepidez, "confiadamente". Avanar com intrepidez 
at o Lugar Santssimo - nenhuma imagem podia ser mais chocante para os leitores judeus. Contudo, no momento da morte de Jesus, uma grossa cortina dentro do templo 
literalmente se rasgou em duas, de alto a baixo, deixando aberto o Lugar Santssimo. Portanto, conclui Hebreus, devemos nos aproximar de Deus.
      Jesus contribui com isto para o problema da decepo com Deus: por causa dele, podemos ir diretamente a Deus. No necessitamos mediador humano, pois o prprio 
Deus se tornou mediador.
Um Rosto
      Ningum no Antigo Testamento podia dizer que conhecia o rosto de Deus. Na verdade, ningum podia sobreviver a um olhar direto. Os poucos que tiveram um vislumbre 
da glria de Deus retornaram brilhando, e todos os que os viam escondiam-se de medo. Mas Jesus ofereceu uma longa e demorada olhada no rosto de Deus. "Quem me v 
a mim, v o Pai", disse Jesus. Tudo o que Jesus , Deus . Como Michael Ramsey se expressou, "Em Deus absolutamente nada  diferente de Cristo."
      As pessoas crescem tendo toda espcie de idias de como Deus . Vem Deus como um inimigo, ou um policial, ou at como um pai que maltrata. Ou talvez no faam 
concepo alguma de Deus; apenas ouvem seu silncio. Devido a Jesus, entretanto, j no precisamos tentar imaginar como Deus se sente ou como ele . Quando em dvida, 
podemos olhar para Jesus para corrigir nossa viso obscurecida.
      Se eu tento imaginar como Deus encara pessoas deformadas ou deficientes, posso observar Jesus entre aleijados, cegos e leprosos. Se eu tento imaginar em relao 
aos pobres e se Deus predestinou-os a viverem na misria, posso ler as palavras de Jesus no Sermo do Monte. E, se eu tentar imaginar em relao  reao "espiritual" 
apropriada diante da dor e do sofrimento, posso observar como Jesus reagiu aos que ele prprio experimentou: com temor e tremor, com gritos e lgrimas.
Ainda No
      No pude deixar de observar uma abrupta mudana de atitude na Bblia, na altura do livro de Atos. Se voc pesquisar o restante do Novo Testamento, nada encontrar 
da indignao de J nem do desespero de Eclesiastes, nem da angstia de Lamentaes. Os escritores do Novo Testamento estavam claramente convencidos de que Jesus 
havia transformado o universo para sempre. Em fragmentos de frases, espalhados pela pgina, o apstolo Paulo no poupou superlativos: "Nele tudo subsiste... por 
meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as cousas, quer sobre a terra, quer nos cus... fazendo-o sentar... acima de todo principado, e potestade, e poder, e 
domnio, e de todo nome que se possa referir no s no presente sculo, mas tambm no vindouro."
      Entretanto, enquanto Paulo escrevia essas exatas palavras, o imprio romano estava-se alastrando com sua incansvel sucesso de guerras e tiranos; as pessoas 
de todos os lugares ainda estavam mentindo, roubando e matando umas s outras; as enfermidades continuavam a se espalhar; e os prprios cristos estavam sendo lacerados 
com aoites e atirados  priso. Tais motivos corriqueiros para a dvida e a decepo no pareciam perturbar Paulo ou os escritores do Novo Testamento. Os apstolos 
estavam confiantes de que Jesus voltaria tal qual prometera, com poder e glria. Era s uma questo de tempo. Tinham duvidado dele uma vez, mas depois da Ressurreio 
no duvidariam de novo.
      O enfoque seguro e resoluto dos escritores do Novo Testamento cria, contudo, um problema: o problema de, por que, cerca de vinte sculos depois do apstolo 
Paulo, estou dedicando um livro inteiro ao assunto da decepo com Deus. E as pessoas que me contaram suas histrias contundentes - por que lhes falta a intrpida 
certeza das epstolas do Novo Testamento? Por que toda a nossa decepo no se desfez at agora?
      Enquanto reflito sobre essas coisas, continuo retornando  questo solitria da injustia. Deus  injusto? De um modo notvel, Jesus deu uma resposta direta 
aos problemas do ocultamento e silncio de Deus. Mas o problema da injustia s parecia piorar. A prpria vida de Jesus terminou na maior injustia da histria: 
o melhor homem que j viveu sofreu a pior de todas as punies. Mais uma vtima de um planeta cruel. As condies dificilmente melhoraram depois de sua morte, quando 
os discpulos de Jesus receberam as "recompensas" de priso, tortura e at mesmo martrio. O problema da injustia no desapareceu.
      Surpreendentemente, o autor de Hebreus parecia antever aquela exata situao, quase como um reconhecimento indireto de que as pessoas de fato ainda se sentiriam 
frustradas com Deus. O captulo 2 principia com uma citao grandiosa dos Salmos, citao que fala de Deus pr tudo sob os ps de Jesus. Ento segue esta afirmao 
singular, repleta de significado: "A-gora, porm, ainda no vemos todas as cousas a ele sujeitas."
      Como escritor, sei o que  escrever aquilo que acredito ser verdade e ento ficar me perguntando, logo depois de ter escrito, Realmente quero dizer isso? O 
escritor de Hebreus, depois de registrar a rajada de teologia magnfica dos Salmos, igualmente parece fazer uma pausa e reconsiderar o assunto. Sim,  verdade que 
Jesus est no controle - mas certamente no parece: "Agora, porm, ainda no vemos todas as cousas a ele sujeitas." Essa nica sentena abrange toda a injustia: 
toda guerra e violncia, todo dio e cobia, toda vitria do mal sobre o bem, toda enfermidade e morte, todas as lgrimas e lamentos, toda decepo e desespero deste 
mundo catico.
      O pargrafo prossegue: "vemos, todavia, aquele que, por um pouco, tendo sido feito menor que os anjos, Jesus, por causa do sofrimento da morte, foi coroado 
de glria e de honra, para que, pela graa de Deus, provasse a morte por todo homem." Propositadamente, o livro de Hebreus no evoca uma imagem triunfante de Jesus 
no Monte da Transfigurao ou em seu corpo ressurreto; mostra Jesus na cruz. Ento o autor emprega algumas das palavras mais misteriosas do Novo Testamento. Fala 
de Cristo sendo aperfeioado e aprendendo a obedincia atravs das coisas que sofreu. Os comentaristas freqentemente pulam essas expresses, pois no so fceis 
de conciliar com as idias tradicionais de um Deus imutvel e impassvel. Mas no devo ignor-las, pois Hebreus as apresenta para descrever a contribuio direta 
de Jesus para o problema permanente da desiluso com Deus.
      Pelo que vemos em Hebreus, parece claro que a Encarnao tinha significado para Deus tambm; no s para ns. Foi a maneira derradeira de ele se identificar 
conosco. Ele, um esprito, jamais se limitara ao mundo da matria, jamais experimentara a frgil vulnerabilidade da carne humana, jamais sentira as advertncias 
gritantes das clulas da dor. Jesus mudou tudo isso. Ele passou por toda a experincia humana, desde o sangue e a dor do nascimento at o sangue e a dor da morte.
      Pelo que vemos no Antigo Testamento, podemos ter uma percepo aprofundada de como  que  ser Deus. Mas o Novo Testamento registra o que aconteceu quando 
Deus decidiu aprender como  que  ser humano. Tudo o que sentimos, Deus sentiu. Instintivamente desejamos um Deus que no apenas saiba acerca da dor, mas que partilhe 
dela; desejamos um Deus que  afetado pela nossa prpria dor. Conforme rabiscou numa nota o jovem telogo Dietrich Bonhoeffer, enquanto estava num campo de prisioneiros 
dos nazistas, "S o Deus Sofredor pode ajudar." Por causa de Jesus, temos um Deus assim. Hebreus relata que Deus pode agora ter simpatia de nossas fraquezas. A prpria 
palavra expressa como isso se deu: "simpatia" vem de duas palavras gregas, sym pathos, que significam "sofrer com".
      Ser que seria exagerado dizer que, devido a Jesus, Deus compreende nossos sentimentos de desiluso com ele? De que outra forma podemos interpretar as lgrimas 
de Jesus, ou grito que deu na cruz? Quase que se pode despejar as trs perguntas deste livro naquele terrvel clamor: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" 
O Filho de Deus "aprendeu a obedincia" pelo sofrimento, diz Hebreus. Uma pessoa s pode aprender a obedecer quando tentada a desobedecer, s pode aprender a ter 
coragem quando tentada a fugir.
      Por que Jesus no sacou uma espada no Getsmani, nem convocou suas legies de anjos? Por que recusou o desafio feito por Satans para que impressionasse o 
mundo? Por esta razo: caso o tivesse feito, teria fracassado em sua mais importante misso - tornar-se um de ns, viver e morrer como um de ns. Era a nica maneira 
de Deus agir "de acordo com as regras" que havia estabelecido na criao do mundo. Em seu plano de restaurar aquela criao, no esmigalharia a liberdade humana 
nem buscaria uma sada fcil para si mesmo.
      Atravs de toda a Bblia, especialmente nos livros dos profetas, vemos Deus enfrentar um conflito dentro de si mesmo. De um lado ele amava ardentemente as 
pessoas que havia feito; por outro lado tinha um terrvel impulso para destruir o Mal que as escravizava. Por fim, na cruz, Deus resolveu aquele conflito interior, 
pois l o seu Filho absorveu aquele poder destrutivo e o transformou em amor.

O nico meio definitivo de conquistar o mal  deix-lo que seja asfixiado dentro de um ser humano vivo, com vontade prpria. Quando  absorvido ali, tal qual sangue 
numa esponja ou uma lana atirada num corao, perde seu poder e no vai alm.
- Gale D. Webbe, The Night and Nothing ("A Noite e Nada")
*
      Referncias bblicas: Hebreus 4, 10; Joo 14; Colossenses 1; Efsios 1; Hebreus 2-5.
***
      
Quarta Parte: Transferindo-se: O Esprito
Captulo 18 - Delegao
      O SEU ESTMAGO est revirando com aquela tenso de primeiro dia no emprego. Ser que vou conseguir? E se eu no fizer direito? O chefe vai gostar de mim? Voc 
d uma olhadela ao redor e repara nos outros. Tm os olhos semicerrados devido ao sol brilhante, apiam o peso do corpo ora numa perna ora noutra, com nervosismo 
desenham figuras na areia com o bico de suas sandlias. Setenta de vocs receberam a convocao de se apresentarem para uma tarefa especial.
      Jesus est fazendo um discurso. Parece preocupado, e suas palavras transmitem inquietao: "Eu vos envio como cordeiros para o meio de lobos. No leveis bolsa, 
nem alforje, nem sandlias; e a ningum saudeis pelo caminho." Na hora em que chega ao final de sua fala, aumenta o tom de voz, chamando a ateno: "Quem vos der 
ouvidos, ouve-me a mim; e, quem vos rejeitar, a mim me rejeita; quem, porm, me rejeitar, rejeita aquele que me enviou." O que se espera que isso signifique? O grupo 
comea a se dispersar, e, engolindo as incertezas, voc sai com o companheiro que lhe foi designado para realizar a tarefa dada.
      Na prxima vez em que voc v Jesus, uns poucos dias depois, parece como se ele tivesse trocado de rosto. Toda severidade e inquietao se foram. Ele d largos 
sorrisos enquanto vocs contam suas histrias, e insiste em que vocs dem detalhes. Ele quer ouvir tudo sobre as curas, exorcismos e vidas transformadas. Realmente 
deu certo essa perigosa misso na regio montanhosa, e Jesus est comemorando.  uma festa de vitria. Oua-o por um bom tempo e voc crer que pode fazer qualquer 
coisa: pisar sobre serpentes, escorpies, qualquer coisa.
      Bem no meio do relatrio que voc est apresentando, ele ergue a mo para interromper. Voc nunca o viu to animado. "Eu via a Satans caindo do cu como um 
relmpago", ele anuncia, e, embora voc no tenha qualquer idia do que ele quer dizer, voc se v envolvido num repentino surto de entusiasmo. Um grande avano 
pelas linhas inimigas deve ter acabado de acontecer. Ento ele se inclina para mais perto e diz numa voz mansa: "Muitos profetas e reis quiseram ver o que vedes, 
e no viram, e ouvir o que ouvis, e no o ouviram."
Exame Final
      Uma outra cena, uns seis meses depois. Dessa vez voc est jantando com o restante dos Doze numa pequena sala em Jerusalm. Um sentimento abafado, enclausurado, 
toma conta do local, e voc est um pouco tonto depois da refeio e do vinho. Tudo est acontecendo rpido demais. No incio dessa semana Jesus havia permitido 
uma rara manifestao de aclamao pblica e entrou na cidade numa procisso triunfal. Parecia que todos os sonhos que voc sustenta finalmente se tornariam verdade. 
Mas o ambiente dessa noite  agourento.
      Primeiro houve o incidente do lavar os ps, quando Jesus constrangeu Pedro. E mesmo agora, enquanto conversa, a atitude de Jesus oscila. Num momento ele parece 
nostlgico e consolador, e no momento seguinte repentinamente repreende voc por estupidez e falta de f. Continua se referindo a uma traio. Uma parte disso voc 
no entende bem. Mas numa coisa ele continua insistindo apesar de todos os protestos: est indo embora. Algum outro vir para tomar o seu lugar, algum que ele chama 
de Conselheiro.
      Durante meses voc vem aguardando que Jesus assuma o comando do seu reino. Mas agora ele diz que est transferindo tudo - para vocs, os Doze! Ele olha ao 
redor da sala e diz com determinao: "Assim como meu Pai me confiou um reino, eu vo-lo confio."
A Partida
      Muito bem, vocs fracassaram - todos vocs, at mesmo Pedro, que tinha-se gabado de sua lealdade apenas umas poucas horas antes da sua grande negao. Apesar 
do que Jesus tinha dito na sala naquela noite, quando chegou a hora vocs simplesmente no conseguiram conciliar as palavras dele com o que aconteceu em seguida. 
"Eu venci o mundo", havia dito. Mas menos de vinte e quatro horas depois vocs o viram pendurado nu em uma cruz, seu corpo frgil bruxuleando  luz do archote. Este, 
o Salvador da nao de vocs, o Rei dos Reis? Era demais pedir a algum para que cresse.
      Isso foi na sexta-feira.
      No domingo, boatos desencontrados, malucos, atingiram a coesa comunidade de pranteadores. E ento mais tarde na semana voc o viu. Era verdade! Voc o tocou 
com suas prprias mos. Era Jesus! Ele havia feito o que ningum anteriormente havia feito: havia caminhado voluntariamente para a morte, e depois voltado. Nunca, 
nunca mais voc tornaria a duvidar dele.
      Durante quarenta dias Jesus apareceu e desapareceu aparentemente a seu bel-prazer. Quando aparecia, voc ouvia avidamente suas explicaes do que tinha acontecido. 
Quando partiu, voc e os demais conspiraram o novo reino. Jerusalm estaria finalmente livre do domnio romano!
      Fazia tempo que amigos vinham zombando de sua obstinao com esse pregador simples. Agora voc mostraria para eles. Ningum mais ia zombar; ningum ia fazer 
com Israel o que bem entendesse. Pedro, Tiago e Joo naturalmente ascenderiam s posies de maior importncia, mas um reino necessitaria de muitos lderes - e, 
afinal, voc tinha seguido Jesus durante trs anos. O Messias, o verdadeiro Messias, tinha considerado voc como um de seus discpulos mais chegados.
      Durante aqueles quarenta dias, nada do impacto se desfez. Cada reaparecimento de Jesus era um novo milagre. Finalmente algum fez a pergunta para ele, a inquietadora 
pergunta que todos vocs vinham discutindo: "Senhor, ser este o tempo em que restaures o reino a Israel?" Com a respirao suspensa vocs aguardaram algum sinal 
- talvez uma convocao s armas, um plano de batalha. Os romanos no iriam embora assim sem lutar.
      Ningum estava preparado para a reao de Jesus. De incio pareceu que ele no tinha ouvido muito bem a pergunta. Ele a ignorou e comeou a falar no sobre 
Israel, mas sobre pases vizinhos e outros lugares longnquos. Ele disse que vocs, no final, deviam ir a esses lugares na condio de suas testemunhas. Mas, por 
ora, vocs deviam simplesmente retornar a Jerusalm e esperar pelo Esprito Santo.
      Ento uma coisa muito surpreendente aconteceu. Vocs estavam ali, ouvindo-o, quando de repente seu corpo comeou a se erguer do cho. Ele ficou por um instante 
suspenso no ar; ento uma nuvem o ocultou da vista. E nunca mais vocs voltaram a ver Jesus.
Trs Cenas
      Essas cenas - o Envio dos Setenta, a ltima Ceia e a Ascenso - revelam todas elas algo acerca da razo por que Jesus veio  terra.  verdade que veio estabelecer 
a justia divina e nos mostrar como Deus . Mas tambm veio fundar uma Igreja, uma nova habitao para o Esprito de Deus.
      E  por essa razo que, quando os setenta retornaram para dar-lhe relatrios, Jesus quase explodiu de alegria. "Quem vos der ouvidos, ouve-me a mim", ele havia 
lhes dito, e de fato o plano estava funcionando. Sua prpria misso - mais do que isso, sua prpria vida - estava sendo vivida atravs de setenta seres humanos comuns.
      Na ocasio da ltima ceia com os discpulos, Jesus transmitiu um sentido ainda maior de urgncia. Esses eram os seus amigos mais chegados, e era hora de transferir 
para eles toda a misso - esses amigos bem intencionados, to geis agora em suas declaraes de lealdade, to geis mais tarde em suas negaes. "Assim como o Pai 
me enviou, eu tambm vos envio", disse, sabendo que no compreendiam. Esse pequeno grupo levaria a mensagem dele a Jerusalm, e a toda Judia e Samaria, e ento 
aos lugares que ele mesmo jamais visitara - at chegar aos confins da Terra.
      Na Ascenso, o corpo de Jesus deixou a terra perante os olhos dos atnitos discpulos. Mas em breve, muito em breve, por ocasio de Pentecostes, o Esprito 
de Deus que habitava em Cristo faria residncia em outros corpos: Em seus corpos.
*
      Referncias bblicas: Lucas 10, 22; Joo 13-17; Atos 1; Joo 20.
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Captulo 19 - Mudanas
Uma srie documentria de filmes sobre religio. timo. Mais uma tarefa tediosa. "Explora imagens de Deus atravs dos sculos", ou alguma abstrao dessas, dizem. 
Pois . Quem vai produzir esses roteiros? Para comear, o personagem central  invisvel.
Bem, at que algum imagine um jeito de conseguir uma entrevista com o prprio Deus, tero de contentar-se com vinhetas sobre Deus.
Sculo 14 a.C. Tomada em helicptero dos cumes do Sinai. rea no habitada, de modo que no h antenas de televiso para prejudicar, etc. Tomada em zoom de pequeno 
ajuntamento de figurantes bedunos que fazem papel de antigos hebreus. Ao fundo uma voz descreve como se alimentam, como se vestem. A cmara focaliza um garoto judeu 
de mais ou menos doze anos de idade. Interrompe-o em seu folguedo e chama-o para um pouco mais perto.
- Fale-me sobre o seu Deus. Como  que ele ? - indaga o narrador.
Os olhos do menino se arregalam. - Voc quer dizer... quer dizer... - No consegue pronunciar a palavra.
- Isso mesmo, Iav, o Deus que voc adora.
- Como  que ele ? Ele? V aquela montanha ali? [Corte. Imagem de um vulco. Bastante vapor, fumaa. Tomada em  close do magma.]
-   onde ele mora. No chegue perto dali, seno voc morre! Ele ... ... bem, acima de tudo ele  assustador. Apavorante mesmo."
Sculo primeiro A. D. Panormica do horizonte longo e plano da Palestina. Os mesmos bedunos, agora andando em grupo no deserto, mas sem rumo. Osis ao fundo. Passa 
a plano mdio para um grupo de figurantes, fecha em seguida em uma mulher na borda do grupo, sentada, encostada num arbusto do deserto. Lana-lhe a pergunta.
-  Deus? Ainda estou tentando eu mesma ter uma imagem de como ele . Achei que sabia, mas, quando comecei a seguir esse mestre por todo canto, fiquei confusa. Ele 
diz que  o Messias. Meus amigos riem. Mas eu estava l quando ele alimentou cinco mil pessoas - quem mais podia fazer aquilo? eu comi um pedao do peixe. E com 
os meus prprios olhos eu o vi curar um cego. De algum modo Deus  como aquele homem chamado Jesus, que est logo ali.
Sculo vinte A.D. Equipe de filmagem vai a uma pitoresca igreja numa pequena cidade. Vista panormica do rosto das pessoas nos bancos.
Voz do narrador ao fundo: - E como  que  Deus hoje em dia?

      O Novo Testamento pede que creiamos que a resposta encontra-se naquela igreja comum, naquelas pessoas comuns nos bancos. Deus em Cristo at que d para entender, 
mas em ns? A nica maneira para sentir o choque disso  ler a Bblia de capa a capa, de Gnesis a Apocalipse, como eu fiz naqueles dias de neve no Colorado.
      O poderoso e temvel Senhor do Universo, cheio de ardor e fogo e santidade, domina as primeiras novecentas pginas. Seguem-se quatro evangelhos, com aproximadamente 
cem pginas, relatando a vida de Jesus na terra. Mas depois de Atos a Bblia apresenta uma srie de cartas pessoais. Gregos, romanos, judeus, escravos, senhores 
de escravos, mulheres, homens, crianas - as cartas so dirigidas a todos esses diversos grupos, e, ainda assim, cada carta pressupe que seus leitores pertenam 
a uma nova e abrangente identidade. Todos esto "em Cristo".
      "A Igreja nada mais  do que um segmento da humanidade no qual Cristo verdadeiramente tomou forma", disse o telogo Dietrich Bonhoeffer. O apstolo Paulo expressou 
o mesmo pensamento com sua expresso "o corpo de Cristo". Conforme ele o via, uma nova espcie de humanidade estava emergindo na terra, nova espcie na qual o prprio 
Deus - o Esprito Santo - estava vivendo. Constituam na terra os braos e pernas e olhos de Deus. Alm disso, Paulo procedia como se esse tivesse sido o objetivo 
de Deus desde o princpio.
      "No sabeis que sois santurio de Deus, e que o Esprito de Deus habita em vs?" escreveu Paulo aos indisciplinados de Corinto. Para os judeus,  claro, o 
templo era um edifcio de verdade, o local central na Terra onde habitava a presena de Deus. Ser que Paulo estava afirmando que Deus havia-se mudado?
      Na Bblia aparecem trs templos, e, reunidos, ilustram uma seqncia: Deus se revelou primeiramente como Pai, ento como Filho, e finalmente como Esprito 
Santo.* O primeiro templo foi uma estrutura magnfica construda por Salomo e reconstruda por Herodes. O segundo foi o "templo" do corpo de Jesus ("Destru este 
santurio", disse, "e em trs dias o reconstruirei"). E agora tomou forma um terceiro templo, construdo a partir de seres humanos.
Delegao
Parece que ele mesmo no faz coisa alguma que possa delegar a suas criaturas. Ordena-nos afazer lenta e desajeitadamente o que poderia fazer com perfeio e num 
piscar de olhos.
      
Parece que toda a criao  um ato de delegao. Suponho que isso ocorre porque ele, por natureza, doa.
- C. S. Lewis

      A progresso seqencial - Pai, Filho, Esprito Santo - representa um avano profundo em intimidade. No Sinai as pessoas se retraam de Deus, e imploravam a 
Moiss que chegasse at Deus em nome delas. Mas nos dias de Jesus as pessoas podiam manter uma conversa com o Filho de Deus; podiam toc-lo, e at machuc-lo. E 
depois de Pentecostes os mesmos discpulos imperfeitos que tinham fugido do julgamento de Jesus tornaram-se portadores do Deus Vivo. Num ato de delegao quase inconcebvel, 
Jesus transferiu o reino de Deus a pessoas como seus discpulos - e para ns.
      Mas, chega de romantismo. De alguma forma deve-se conciliar essas idias nebulosas sobre o Esprito com a dura realidade da igreja de fato. Olhe ao redor e 
veja aqueles que se chamam cristos. Olhe os rostos das pessoas nos bancos de qualquer igreja.  isso o que Deus queria?
      A delegao sempre implica riscos, como qualquer patro logo descobre. Quando voc entrega um trabalho a algum, voc no se preocupa mais com isso. E quando 
Deus "nos confiou a palavra da reconciliao" (expresso de Paulo), assumiu um risco temvel: o risco de que daramos uma pssima impresso dele. Escravido, as 
cruzadas, massacres de judeus, colonialismo, guerras, o racismo - todos esses movimentos tm afirmado possuir a sano de Cristo para suas causas. O mundo que Deus 
deseja amar, o mundo que Deus est chamando, talvez nunca o veja. Nossos prprios rostos podem estar atrapalhando a sua viso.
      Deus, porm, assumiu aquele risco, e, porque o fez, o mundo o conhecer basicamente atravs de cristos. A doutrina do Esprito Santo  a doutrina da Igreja: 
Deus vivendo em ns. Tal plano  a "loucura de Deus", como diz Paulo numa passagem, e o escritor Frederick Buechner se maravilha diante da "loucura": "escolher para 
seu santo trabalho no mundo... mentes aleijadas e desajustados e intransigentes e santinhos e pedantes e excntricos e egomanacos e acanhados e libertinos disfarados." 
"Porque a loucura de Deus", prossegue Paulo, " mais sbia do que os homens."
      Ns que vivemos entre as pessoas imperfeitas e comuns da igreja, ns que somos as mentes aleijadas e os desajustados e os excntricos da igreja, podemos querer 
amenizar as extravagantes afirmaes da Bblia acerca do corpo de Cristo. Sabemos como somos imperfeitos para sermos o seu corpo. Mas a Bblia  inequvoca. Considere 
apenas dois exemplos.
1.  Representamos a santidade de Deus na terra.
      A santidade, acima de tudo o mais,  a razo para a grande distncia entre Deus e os seres humanos.  o que fez do Lugar Santssimo um terreno proibido. Mas 
o Novo Testamento insiste em que ocorreu uma mudana ssmica. Um Deus perfeito vive agora dentro de seres humanos bem imperfeitos. E, por respeitar nossa liberdade, 
o Esprito na verdade "sujeita-se" a nosso comportamento. O Novo Testamento fala de um Esprito a quem podemos mentir, ou que podemos entristecer, ou abafar. E, 
quando escolhemos errado, num sentido bem literal sujeitamos Deus quela escolha errada.
      Nenhuma passagem ilustra essa estranha verdade com mais vigor do que 1 Corntios 6, onde Paulo est passando uma reprimenda em membros baderneiros da igreja 
em Corin-to por sarem com prostitutas. Uma a uma, ele derruba todas as suas racionalizaes. Ento, por fim, ele faz a mais serena de todas as advertncias: "No 
sabeis que o homem que se une  prostituta forma um s corpo com ela?" Parece que Paulo est dando a entender essa idia no sentido mais literal, e no se intimida 
em expressar, em seguida, a surpreendente concluso: "Eu, porventura, tomaria os membros de Cristo e os faria membros de meretriz? Absolutamente, no."
      No  preciso ser um erudito na Bblia para enxergar o contraste. No Antigo Testamento, os adlteros eram apedrejados at a morte por desobedecerem a lei de 
Deus. Mas na era do Esprito, Deus delega sua reputao, at mesmo sua essncia, para ns. Ns encarnamos Deus no mundo; o que acontece conosco acontece com ele.
2.  Seres humanos fazem a obra de Deus na terra.
      Ou, para sermos bem exatos, Deus faz sua obra atravs de ns - a tenso entra em cena assim que voc tenta expressar a idia. "Sem Deus, no conseguimos. Sem 
ns, Deus no far", disse Agostinho. Num raciocnio parecido, Paulo escreveu: "Desenvolvei a vossa salvao com temor e tremor" numa frase, e "porque Deus  quem 
efetua em vs tanto o querer como o realizar" na seguinte. O que quer que signifiquem, essas charadas certamente contradizem a atitude do "Deixe isso com Deus".
      Deus forneceu alimento para os israelitas que perambulavam pelo deserto do Sinai, e at mesmo verificou que seus calados no se gastassem. Jesus, de igual 
modo, alimentou pessoas famintas e ministrou diretamente s suas necessidades. Muitos cristos que lem aquelas histrias vibrantes olham para trs com um sentimento 
de nostalgia, ou mesmo de desapontamento. "Por que Deus no age agora daquela maneira?" ficam perguntando a si mesmos. "Por que no atende minhas necessidades de 
um modo miraculoso?"
      Mas as cartas do Novo Testamento parecem apresentar um padro diferente em ao. Encerrado numa glida masmorra, Paulo voltou-se para Timteo, seu amigo de 
longa data, pedindo-lhe que atendesse suas necessidades fsicas. "Traze a capa... bem como os livros, especialmente os pergaminhos", escreveu. "Toma contigo a Marcos 
e traze-o, pois me  til para o ministrio." Numa outra oportunidade Paulo recebeu o "consolo de Deus" na forma de uma visita de Tito. E, quando numa ocasio houve 
fome em Jerusalm, o prprio Paulo coordenou as providncias: fez uma coleta de dinheiro entre todas as igrejas que havia fundado. Deus estava atendendo as necessidades 
da jovem igreja tanto quanto havia atendido as necessidades de seu povo em jornada pelo Sinai, mas estava-o fazendo indiretamente, atravs de membros de seu corpo. 
Paulo no fazia distino do tipo "a igreja fez isso, mas Deus fez aquilo". Uma diviso como essa perderia a nfase que ele havia dado com tanta freqncia. A igreja 
 o corpo de Cristo; portanto, se a igreja o fez, Deus o fez.
      A origem da forte nfase de Paulo pode estar em seu primeiro e marcante encontro pessoal com Deus. Na ocasio ele era um perseguidor cruel dos cristos, um 
notrio caador de recompensas. Mas na estrada de Damasco viu uma luz suficientemente forte para ceg-lo por trs dias, e ouviu uma voz vinda do cu: - "Saulo, Saulo, 
por que me persegues?"
      - Persegui-lo? Perseguir a quem? S estou atrs daqueles hereges, os cristos.
      -  "Quem s tu, Senhor?" - Paulo finalmente indagou, derrubado ao cho.
      - "Eu sou Jesus, a quem tu persegues" - veio a resposta.
      Aquela frase resume muito bem a mudana operada pelo Esprito Santo. Jesus fora executado meses antes. Saulo estava era atrs dos cristos, no de Jesus. Mas 
Jesus, vivo de novo, informou Saulo que aquelas pessoas eram de fato seu prprio corpo. O que as machucava, tambm machucava-o. Foi uma lio que o apstolo Paulo 
jamais esqueceria.
***
      No ouso deixar este pensamento sem aplicar seu sentido de uma forma bem pessoal. A doutrina do Esprito Santo tem grande significado para as questes que 
permeiam este livro. Meu amigo Richard indagou: "Onde Deus est? Mostre-me. Quero v-lo." Com certeza pelo menos parte da resposta a essa pergunta : Se voc quer 
ver Deus, ento olhe para as pessoas que pertencem a ele - elas so seus "corpos". So o corpo de Cristo.
      "Seus discpulos tm de parecer mais salvos para que eu creia em seu Salvador", disse o filsofo Nietzsche diante de tal desafio. Mas, se Richard pudesse encontrar 
um santo, algum talvez como a Madre Teresa, que encarnasse as qualidades do amor e da graa, talvez ento ele cresse. Ali - voc a v?  assim que  Deus. Ela est 
fazendo a obra de Deus.
      Richard no conhece Madre Teresa, mas a mim me conhece. E esse  o aspecto mais humilhante da doutrina do Esprito Santo. Richard provavelmente jamais ouvir 
uma voz vinda de um redemoinho, voz que abafe todas as perguntas. Nesta vida provavelmente jamais ter um vislumbre pessoal de Deus. Ver somente a mim.
*
Referncias bblicas: 1 Corntios 3; Joo 2; 2 Corntios 5; 1 Corntios 1; Filipenses 2; 2 Timteo 4; 2 Corntios 7; Romanos 15; Atos 9.
***
Captulo 20 - O Clmax
      CASO PUDSSEMOS, por um instante, pr de lado idias pr-concebidas sobre a Bblia e simplesmente ler aquele livro imenso como uma histria que vai-se desenrolando, 
o enredo talvez surgisse como algo mais ou menos assim:

No princpio Deus, um Esprito, criou o vasto mundo da matria. Dentre todas as notveis obras de Deus, somente os seres humanos possuam uma semelhana com ele 
que podia se chamar de "imagem de Deus". Foi ao mesmo tempo uma grande ddiva e um grande peso essa imagem de Deus. O homem e a mulher eram seres espirituais, e 
podiam, ento, relacionar-se contnua e diretamente com Deus. Mas, dentre todas as espcies, somente eles tinham a liberdade de se rebelar contra ele.
Rebelaram-se de fato, e alguma coisa morreu dentro de Ado e Eva naquele dia fatdico. Seus corpos continuaram a viver por muitos anos, mas seus espritos perderam 
a comunho livre e aberta com Deus.
A Bblia fala dos esforos de Deus em restaurar aquele esprito cado. Ele agiu com certas famlias: primeiro com a famlia de Ado, depois com a de No, e finalmente 
com a famlia de Abrao, o centro da ateno da maior parte do Antigo Testamento. Algumas vezes a Bblia retrata Deus como um pai criando um filho, algumas vezes 
como um amante numa busca ardente, mas sempre o apresenta num esforo por "romper as linhas inimigas" e chegar at os seres humanos com o intuito de restaurar o 
que se perdera.
Com umas poucas excees de destaque, o Antigo Testamento relata fracassos. Mas o Novo Testamento tem incio com uma ao radical da parte de Deus: uma "invaso", 
o nascimento de Jesus. Jesus representou um incio totalmente novo. "O segundo Ado" - assim  chamado, o lder de uma nova espcie. Foi ele que finalmente aniquilou 
as barreiras e tornou possvel uma trgua entre Deus e a humanidade.
Depois que Jesus foi embora, no Pentecostes o Esprito do prprio Deus desceu e encheu os seres humanos. Assim, finalmente restaurou-se seu esprito cado. Mais 
do que passear num jardim com os seres humanos, agora Deus vivia dentro deles.
      
      No  preciso ir muito longe na leitura do Novo Testamento para sentir a agitao. O apstolo Paulo expressou-a assim: "A ardente expectativa da criao aguarda 
a revelao dos filhos de Deus." Ele retrata todo o universo fazendo uma pausa para observar os acontecimentos no planeta Terra: "para que, pela igreja, a multiforme 
sabedoria de Deus se torne conhecida agora dos principados e potestades nos lugares celestiais. " Pedro acrescenta, com excitao, que at os "anjos anelam perscrutar" 
essas coisas.
      Enquanto isso, o pequeno bando de cristos se espalhou em direo a Samaria, Grcia, Etipia, Roma e Espanha. De acordo com o Novo Testamento, estiveram engajados 
na grande inverso da histria, ajudando a reivindicar toda a criao para Deus. Seres humanos, cheios do Esprito de Deus, so os agentes designados para alcanarem 
aquele objetivo.
Por Que Melhor?
      Desde o incio deste livro eu decidi ser honesto; estou escrevendo, no final das contas, para vtimas de promessas excessivamente otimistas e expectativas 
frustradas. Dessa feita, tenho a esta altura de afirmar com toda franqueza que  difcil para pessoas decepcionadas partilharem do entusiasmo dos escritores do Novo 
Testamento. Meu amigo Richard, por exemplo, afirma que perdeu a f porque Deus age de modo demasiadamente sutil. Ele anseia por algo mais convincente, algo talvez 
no estilo de uma sara ardente ou da diviso das guas do mar Vermelho. Ser que a "multiforme sabedoria de Deus" est atualmente tornando-se conhecida atravs da 
igreja? Esteve voc ultimamente em alguma igreja? A nuvem shekinah da glria de Deus teria sido algo impressionante, assim tambm como o prprio Jesus. Mas, e a 
igreja? Hoje em dia ela reflete toda a glria de Deus?
      Como podemos conciliar as palavras exaltadas do Novo Testamento com a realidade cotidiana ao nosso redor? Algumas pessoas teriam uma resposta rpida: "Ah! 
mas Paulo estava falando da igreja do Novo Testamento; ns nos distanciamos bastante desse ideal." No posso concordar. As Epstolas foram escritas para um grupo 
surpreendente de convertidos: adoradores de anjos, ladres, idolatras, fofoqueiros e prostitutas - essas eram as pessoas em quem Deus fizera residncia. Leia a descrio 
de Paulo acerca da suposta "igreja ideal" numa cidade como Corinto: um bando desordeiro e rebelde. E, ainda assim, a descrio mais comovente feita por Paulo acerca 
da igreja como corpo de Cristo aparece numa carta aos corntios.
      No h meios de se colocar a questo de uma forma polida, por isso simplesmente farei a pergunta: O que exatamente o plano de Deus para a histria alcanou? 
Se algum pudesse submeter o plano de Deus a algo como uma "anlise custo-benefcio" utilizada em empresas, quais seriam as "vantagens" e as "desvantagens" de tal 
plano - para Deus e para ns?
      Os defeitos bvios da igreja poderiam parecer a maior desvantagem para Deus. Assim como ele confiou o seu nome  nao de Israel e o viu atirado  lama, agora 
confia seu Esprito a seres humanos imperfeitos. No  preciso procurar muito longe as provas de que a igreja no atinge o padro do ideal divino: a igreja em Corinto, 
racismo na frica do Sul, banho de sangue na Irlanda do Norte, escndalos entre os prprios cristos, etc. E o mundo julga Deus por aqueles que levam o seu nome. 
Uma grande parte da decepo com Deus tem razes na desiluso com outros cristos.
      A romancista crist Dorothy Sayers disse que Deus submeteu-se a trs grandes humilhaes em seus esforos por resgatar a raa humana. A primeira foi a Encarnao, 
quando vestiu as limitaes de um corpo fsico. A segunda foi a Cruz, quando sofreu a ignomnia da execuo pblica. A terceira humilhao, Sayers sugere,  a Igreja. 
Num impressionante ato de autonegao, Deus confiou sua reputao a pessoas comuns.
      No entanto, de alguma forma que nos  invisvel, essas pessoas comuns, cheias do Esprito Santo, esto ajudando a restaurar o universo a seu devido lugar sob 
o domnio de Deus. Ao nos arrependermos, os anjos se regozijam. Mediante nossas oraes, montanhas so transportadas. Pode-se ver essa vantagem para Deus numa passagem 
j mencionada: Lucas 10. "Eu via a Satans caindo do cu como um relmpago", Jesus exclamou com exuberncia quando os setenta retornaram com relatrios positivos. 
Ele era como um pai orgulhoso que acabava de ver seus filhos realizarem algo bem melhor do que ele tinha imaginado que conseguiriam.
      No devemos insistir demais a ponto de pensarmos que Deus "precisa" de nossa cooperao. Antes, ele nos escolheu como a forma preferida de reivindicar o controle 
sobre sua criao aqui na terra. Ele utiliza instrumentos humanos assim como meu crebro utiliza os instrumentos dos dedos e mos e punhos para escrever esta sentena. 
Essa  a metfora que Paulo usou com mais freqncia para descrever o papel de Cristo no mundo de hoje: o Cabea do corpo, dirigindo seus membros para realizarem 
sua vontade.
      Para entender as vantagens para Deus, pense de novo nas imagens descritas pelos profetas: Deus como Pai e como Amante. Esses dois relacionamentos humanos possuem 
elementos daquilo que Deus sempre tem procurado nos seres humanos. Uma palavra, dependncia, tem a chave - a chave para aquilo que eles tm em comum e a chave daquilo 
em que diferem.
      Para um nen, a dependncia  tudo; alguma outra pessoa tem de atender suas prprias necessidades ou a criana ir morrer. Os pais passam a noite toda acordados, 
limpam o vmito, ensinam a usar o vaso sanitrio, e realizam outras atividades rotineiras, tudo devido ao amor, pois percebem a dependncia da criana. Mas tal padro 
de procedimento no pode continuar indefinidamente. Uma guia sacode o ninho para obrigar seus filhotes a voarem; uma me cobre o seio para desmamar o filho.
      Nenhum pai sadio deseja que um filho seja permanentemente dependente. E de igual forma um pai no fica levando a filha num carrinho de nen, de um lado para 
outro, a vida inteira, mas ensina-a a andar, sabendo que um dia ela poder ir embora. Os bons pais encaminham seus filhos da dependncia rumo  liberdade.
      Os amantes, entretanto, revertem este modelo. Um amante possui liberdade, e no entanto escolhe abrir mo dela. "Sujeitando-vos uns aos outros", diz a Bblia, 
e qualquer casal pode lhe dizer que essa  uma descrio apropriada do processo de viver dia a dia em harmonia. Num casamento saudvel, um dos cnjuges se submete 
voluntariamente aos desejos do outro, por amor. Num casamento problemtico, a submisso se torna parte de uma luta pelo poder, um cabo-de-guerra entre egos em competio. 
A diferena entre esses dois relacionamentos mostra, creio eu, o que Deus vem procurando em sua longa histria com a raa humana. Ele no deseja o amor dependente, 
desamparado, de uma criana que no tem escolha alguma, mas o amor amadurecido, espontaneamente dado, de um amante.
      Deus nunca obteve esse amor amadurecido por parte da nao de Israel. O registro bblico mostra Deus estimulando a jovem nao em direo  maturidade: no 
dia em que Israel marchou entrando na Terra Prometida, cessou o man. Deus havia providenciado uma nova terra; agora era responsabilidade dos israelitas cultivarem 
seu prprio alimento. Numa reao tipicamente infantil, Israel imediatamente comeou a adorar deuses da fertilidade. Deus desejava uma amante; em vez disso, obteve 
uma criana raqutica.
      Que dizer do agora, na era do Esprito? Ser que Deus, agora tem uma amante em vez de uma criana? Surpreendentemente, parece que o Novo Testamento responde 
que sim. Aqui est uma amostra de frases do Novo Testamento que expressam como Deus nos v:

" igreja, a qual  o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as cousas;"

"inculpveis no meio de uma gerao pervertida e corrupta, na qual resplandeceis como luzeiros no mundo;"
"vs, que antes estveis longe, fostes aproximados;"

"j no sois estrangeiros e peregrinos, mas... da famlia de Deus... edificados para habitao de Deus no Esprito."

      Na verdade, a Bblia apresenta a unio de pessoas comuns com o Esprito de Deus como sendo a realizao suprema da criao. O objetivo de Deus foi, o tempo 
todo, nos equipar para realizarmos sua vontade no mundo. Esse processo lento e difcil resultar um dia na restaurao total da Terra.
Nossa Vantagem
      Pensamentos assim grandiosos, entretanto - agentes de Deus, realizao suprema da criao - representam o ponto de vista de Deus, um ponto de vista que no 
est disponvel para ns. Quais so as vantagens e desvantagens do plano de Deus para ns que vivemos na terra, onde a histria no  assim to simples? Ainda moramos 
num mundo amaldioado com a dor, a tragdia e a desiluso. E o que tenho apresentado como um grande avano em termos de proximidade - da fumaa no Sinai, passando 
pela pessoa de Jesus e chegando at a habitao pelo Esprito Santo - pode parecer ironicamente que Deus est-se afastando de um envolvimento direto.
      Algumas pessoas tm grande saudade dos "velhos bons tempos" do Antigo Testamento, quando Deus usou uma estratgia mais bvia e visvel. O Antigo Testamento 
fala de um contrato de verdade assinado por Deus, em que garante segurana e prosperidade fsicas, sob certas condies; o Novo Testamento no oferece um contrato 
assim. A mudana da presena visvel de Deus no deserto para a presena invisvel do Esprito Santo envolve igualmente um certo tipo de perda. Perdemos a prova clara 
e certa de que Deus existe. Hoje em dia, Deus no paira sobre ns numa nuvem que podemos fitar, em busca de uma confiana renovada. Para alguns, como Richard, essa 
parece de fato uma grande perda.
Na realidade, a dependncia que Deus tem da igreja quase garante que a decepo com Deus ser permanente e epidmica. Nos velhos tempos, se os hebreus desejassem 
conhecer a vontade de Deus acerca de uma manobra militar, ou que tipo de madeira utilizar no santurio, os sumos sacerdotes tinham meios de descobrir a resposta. 
Mas s o fato de existirem 1.275 denominaes nos Estados Unidos atesta a dificuldade de a igreja estar atualmente de acordo quanto  vontade de Deus sobre qualquer 
coisa. A voz confusa da igreja moderna  parte do preo, a desvantagem de viver na atualidade em vez de com os hebreus no deserto ou entre os discpulos que seguiam 
Jesus.
      Qual, ento,  a vantagem? O Novo Testamento se fora bastante para claramente expor a respeito, especialmente em Hebreus, Romanos e Gaiatas. Quase consigo 
enxergar o apstolo Paulo, um sujeito facilmente excitvel, respondendo  pergunta: "Qual  a vantagem?"

- O qu? Vocs esto loucos?! A vantagem? Voltem e leiam Levtico, Nmeros e Deuteronmio de uma sentada, e ento poderemos conversar. Vocs chamam aquilo de "velhos 
bons tempos"? Quem deseja viver daquele jeito? Voc quer passar o dia inteiro, a vida inteira, se preocupando com o seu destino eterno? Voc quer ficar se debatendo 
o dia inteiro para poder ter certeza de que guarda todas aquelas regras? Voc quer passar por longos rituais e sacrifcios de animais e um sumo sacerdote como que 
vestido de fantasia s para se aproximar de Deus? De jeito nenhum! A diferena entre a Lei e o Esprito  a diferena entre a morte e a vida, entre a escravido 
e a liberdade, entre a infncia perptua e o amadurecimento. Por que algum iria querer voltar para aquela situao?

      Para usar as prprias palavras de Paulo, o Antigo Testamento foi "o ministrio da morte, gravado com letras em pedras". Foi um simples "aio para nos conduzir 
a Cristo". Quem quer ficar o resto da vida num jardim de infncia? Como disse Paulo, "no somos como Moiss, que punha vu sobre a face, para que os filhos de Israel 
no atentassem na terminao do que se desvanecia.... Ora, o Senhor  o Esprito; e onde est o Esprito do Senhor a h liberdade."
      O plano de Deus envolve riscos de ambos os lados. Para ns, significa pr em risco nossa independncia ao nos consagrarmos a um Deus que  invisvel e exige 
de ns maturidade e crescimento. Para Deus, significa correr o risco de que ns,  semelhana dos israelitas, jamais cresamos; significa correr o risco de que jamais 
o amemos. Evidentemente ele considerou esse um jogo em que valia a pena apostar.
Uma Trindade de Vozes
      Pense no plano de Deus como sendo uma srie de Vozes. A primeira Voz, tremendamente alta, teve algumas vantagens. Quando a Voz falava da fumegante montanha 
no Sinai, ou quando o fogo lambeu o altar no Monte Carmelo, ningum podia neg-lo. Porm, surpreendentemente, mesmo aqueles que ouviram a Voz e temeram-na - por 
exemplo, os israelitas no Sinai e no Carmelo - logo aprenderam a ignor-la. At o barulho da Voz criava confuso. Poucos deles foram  procura daquela Voz; um nmero 
ainda menor perseverou quando a Voz se calou.
      A Voz modulou com Jesus, o Verbo feito carne. Por umas poucas dcadas a Voz de Deus assumiu o timbre e volume e sotaque caipira de um judeu interiorano da 
Palestina. Era uma voz humana comum, e, embora ela falasse com autoridade, no levou as pessoas a fugirem e a esconderem o rosto. A voz de Jesus era suficientemente 
suave para algum poder discutir com ele, suficientemente suave para poder mat-lo.
      Depois da partida de Jesus, a Voz assumiu novas formas. No dia de Pentecostes, lnguas - lnguas - de fogo caram sobre os fiis, e a igreja, o corpo de Deus, 
comeou a tomar forma. A ltima Voz  to prxima quanto um sopro, to suave quanto um cochicho.  a mais vulnervel de todas as Vozes, e a mais fcil de se ignorar. 
A Bblia diz que se pode "apagar" ou "entristecer" o Esprito. (Tente apagar a sara ardente que falou a Moiss ou as rochas derretidas no Sinai!) Entretanto, o 
Esprito tambm  a Voz mais ntima e pessoal. Em nossos momentos de fraqueza, quando no sabemos o que devemos orar, o Esprito que vive dentro de ns intercede 
em nosso favor com gemidos que palavras so incapazes de expressar.
      O Esprito no ir retirar toda frustrao que sentimos para com Deus. Os prprios ttulos dados ao Esprito - Intercessor, Ajudador, Conselheiro, Consolador 
- presumem que existiro problemas. Mas o Esprito tambm  um "penhor", uma garantia do que ainda vem, disse Paulo, utilizando uma metfora terrena emprestada do 
mundo financeiro. Ele nos lembra que tais desapontamentos so temporrios, um preldio para uma vida eterna com Deus. Deus julgou necessrio restaurar o elo espiritual 
antes de recriar cus e terra.
      Em dois lugares o Novo Testamento compara o ser cheio do Esprito Santo com o estado de embriaguez comum. Ambas as situaes alteram a maneira como voc encara 
as tribulaes da vida, mas h uma profunda diferena entre elas. Muitas pessoas voltam-se para a bebida, por exemplo, para afogar a tristeza do desemprego, enfermidade 
e tragdia pessoal.  inevitvel, contudo, que o bbado tenha de acordar do mundo de fantasia que  a embriaguez e voltar para a realidade inalterada. Mas o Esprito 
segreda-nos acerca de uma nova realidade, uma fantasia que  realmente verdade, uma verdade na qual despertaremos por toda eternidade.
*
      Referncias bblicas: Romanos 8; Efsios 3; 1 Pedro 1;1 Corntios 12; Efsios 5,1; Filipenses 2; Efsios 2; 2 Corntios 3; Glatas 3; 2 Corntios 3,5.
***
LIVRO II - ENXERGANDO NO ESCURO
Disse eu a minh'alma: aquieta-te e deixa
as trevas virem sobre ti,
O que ser a escurido de Deus. ...
Disse eu a minh'alma:
aquieta-te e espera sem esperana
Pois a esperana seria esperana pela coisa errada;
espera sem amor
Pois o amor seria amor pela coisa errada; ainda h f
Mas a f e o amor e a esperana esto todos eles
no aguardar.

- T. S. Eliot, "East Coker"
      
      
Captulo 21 - Uma Interrupo
      CERTA NOITE, ALTAS HORAS, eu me sentei em meu escritrio no poro e comecei a esboar a parte seguinte deste livro, o que eu pretendia que fosse uma retrospectiva 
e uma concluso. Ao longo dos anos eu havia enchido vrias pastas de arquivo com uma miscelnea de anotaes sobre o tema do desapontamento com Deus, e principiei 
a classificar esses pedaos de papel, revendo-os  luz do que eu tinha aprendido na Bblia.
      Enquanto eu trabalhava, tornei a pensar naquele primeiro encontro com Richard na minha sala de estar, quando pela primeira vez emergiram suas trs vastas perguntas. 
Essas perguntas quanto  justia e silncio e ocultamento de Deus tinham-se tornado minhas prprias e deram partida  minha busca atravs da Bblia. Quando comecei 
aquela busca, eu queria um Deus mais ativo, um Deus que ocasionalmente arregaasse as mangas e interviesse em minha vida com visvel poder. No mnimo, pensei, eu 
desejava um Deus que no permanecesse to oculto e calado. Certamente isso no era pedir demais.
      A Bblia, contudo, continha algumas surpresas. Eu tinha ouvido pregadores cristos apresentarem exemplos do poder de Deus - na poca do xodo, ou nos dias 
de Elias - como exemplos do que podia acontecer se to-somente aprendssemos a "juntar" mais f. No entanto, pelo que a Bblia relata, aquelas pocas de milagres 
freqentes geralmente no produziam uma crena de longa durao. Muito pelo contrrio - a maioria deles se destaca como exemplos de falta de f. Quanto mais eu estudava 
a Bblia, menos eu ansiava pelos "velhos bons tempos" do man dirio e de bolas de fogo vindas do cu.
      Mas, ainda mais importante, na Bblia tive um vislumbre do ponto de vista de Deus. O "alvo" de Deus, se  que se pode falar nesses termos, no  subjugar todos 
os cticos; ele poderia faz-lo num instante caso quisesse. Em vez disso, busca a reconciliao: amar e ser amado. E a Bblia mostra um claro avano nos esforos 
de Deus em chegar at os seres humanos sem vir a constrang-los: desde Deus Pai, que pairava paternalmente sobre os hebreus; passando pelo Deus Filho, que ensinou 
a vontade de Deus "de baixo para cima", em vez de mediante fiat, de cima para baixo; e finalmente at o Esprito Santo, que nos enche com a presena literal de Deus. 
Ns que vivemos agora no estamos em desvantagem, mas somos maravilhosamente privilegiados, pois Deus escolheu depender basicamente de ns para executar sua vontade 
na terra.
      Repassei esses pensamentos com um entusiasmo crescente  medida que, naquela noite, eu trabalhava em meu esboo. Ento, vasculhando uma outra pilha de papis, 
encontrei uma carta de Meg Woodson.
***
      Conheo Meg h mais de uma dcada.  uma crist dedicada, esposa de pastor, e excelente escritora. No entanto, no consigo pensar em Meg sem sentir uma ponta 
de tristeza.
      O casal Woodson teve dois filhos - Peggie e Joey - ambos nasceram com fibrose cstica. Peggie e Joey permaneciam esquelticos, no importando quanto comessem. 
Tossiam constantemente e faziam um grande esforo para respirar - duas vezes ao dia Meg tinha de bater repetidas vezes no peito das crianas para soltar o muco. 
Todos os anos passavam algumas semanas no hospital. Os dois cresceram sabendo que provavelmente morreriam antes de chegar  idade adulta.*
      Joey, um garoto vivaz, esperto e feliz, morreu aos doze anos. Peggie desafiou todas as probabilidades e viveu muito mais. Eu me uni a Meg em desesperadas oraes 
por Peggie. Ambos sabamos que no havia registros de curas miraculosas de fibrose cstica, mas de qualquer forma orvamos por uma cura. Peggie sobreviveu a algumas 
crises de sade enquanto estava no segundo grau e saiu de casa para estudar numa faculdade em outra cidade. Parecia que estava ficando cada vez mais forte, e cresceram 
nossas esperanas de que, por fim, ela encontraria a cura.
      No houve, porm, milagre algum: Peggie morreu com a idade de vinte e trs anos. E naquela noite, em meu escritrio no poro, eu me deparei com a carta que 
Meg me escrevera depois da morte de Peggie.

Encontro-me com o desejo de lhe contar algo de como Peggie morreu. No sei qual a razo desse desejo a no ser que a necessidade de conversar a respeito  muito 
forte e que, uma vez que eu me recuso a fazer com que meus amigos daqui me ouam mais de uma vez, j no tenho mais ningum com quem conversar.
No fim de semana, antes de ela ir pela ltima vez para o hospital, Peggie chegou a casa muito eufrica por causa de uma citao de William Barclay que o pastor dela 
havia mencionado. A citao tinha sido to significativa que ela havia copiado para mim num papel: "A perseverana no  apenas a capacidade de suportar uma coisa 
difcil, mas de torn-la em glria." Ela contou que o seu pastor devia ter tido uma semana difcil porque, depois de ler a frase, deu um murro no plpito e ento 
deu as costas para a congregao e chorou.
Certo dia, depois de Peggie j estar no hospital por algum tempo e as coisas no estarem indo bem, ela olhou em redor para toda aquela parafernlia de morte a que 
estava ligada e disse: "Ei, me, lembra-se daquela citao?" E ela olhou de novo em redor para todos aqueles tubos, tirou a ponta da lngua do canto da boca, assentiu 
com a cabea e ergueu os olhos vibrando com a experincia a que estava se consagrando.
Sua consagrao durou tanto quanto durou sua conscincia de qualquer coisa do mundo real. Numa ocasio, o diretor de sua faculdade veio v-la e perguntou se havia 
qualquer coisa especfica em favor da qual ele podia orar.
Ela estava fraca demais para falar, mas balanou a cabea para mim para que eu explicasse a citao de Barclay e pedisse-lhe que orasse para que seu momento difcil 
fosse transformado em glria.
Poucos dias antes de sua morte eu estava sentada ao lado de seu leito quando ela comeou repentinamente a gritar. Jamais me esquecerei daqueles gritos lancinantes, 
agudos, primais. Vindas de todas as direes, as enfermeiras correram para o quarto e cercaram-na com seu amor. "Est tudo bem, Peggie", disse uma delas. "A Jeannie 
est aqui."
As enfermeiras acariciavam o corpo de Peggie. Finalmente, com suas palavras e seus toques, acalmaram-na (embora,  medida que o tempo foi passando e os gritos continuando, 
elas no conseguissem). Raramente vi uma compaixo assim. Wendy, a amiga enfermeira muito especial de Peggie, me conta que no andar no h uma enfermeira que no 
tenha pelo menos um paciente a quem doaria um de seus pulmes para salv-lo, caso pudesse.
Por isso, nesse contexto de seres humanos se desintegrando - as enfermeiras no conseguem ficar naquele andar por muito tempo - porque elas no conseguiam fazer 
mais para ajudar,  que Deus, que podia ter ajudado, olhou para baixo para uma jovem dedicada a ele, bastante desejosa de morrer por ele para dar-lhe glria, e decidiu 
cruzar os braos e deixar que sua morte aumentasse as terrveis estatsticas de morte por fibrose cstica.
Olha, Philip, no adianta falar sobre o bem produzido pelo sofrimento. Nem adianta falar que Deus quase sempre permite que o processo fsico da doena siga o seu 
caminho. Porque, se ele de fato intervm, ento em cada situao de sofrimento humano ele toma uma deciso de intervir ou no, e no caso de Peggie ele escolheu deixar 
que a fibrose cstica a aniquilasse. H momentos em que minhas nicas reaes so tristeza e uma raiva to violenta como nenhuma outra que eu j conheci. Nem expressar 
essa emoo faz com que ela diminua.
Peggie nunca se queixou de Deus. No era um autodomnio piedoso: No acredito que alguma vez ela tenha pensado em se queixar. E todos ns que a acompanhamos at 
a sua morte tambm no nos queixamos na ocasio. Sentamos consolados. O amor de Deus era to real que no era possvel duvidar desse amor nem lutar contra ele.
Se eu venho lhe falando tudo isto, num esforo de chegar a algum tipo de soluo para o problema do sofrimento de Peggie e de mim, talvez mais uma vez eu tenha sido 
levada  nica coisa que me ajuda a experimentar o amor de Deus: Seu acariciar, seu "Estou aqui, Meg". Mas, fico de novo cogitando, como ele pde estar numa situao 
como essa e cruzar os braos?
Ao refletir sobre isso, nunca antes expressei tudo isso a algum, por medo de perturbar a f de quem quer que seja. No pense que voc tem de dizer alguma coisa 
para fazer-me sentir melhor. Mas obrigada por ouvir. A maioria das pessoas no tem a menor idia de quanto isso ajuda.

      Depois de ler a carta de Meg, no consegui mais trabalhar aquela noite.
O Nosso Ponto de Vista
      Velhas perguntas uma vez mais vieram  superfcie, minhas prprias indagaes sobre injustias sociais, oraes no atendidas, corpos incurados e incontveis 
outros exemplos de injustia. E as perguntas de Richard vieram ressurgindo com nova fora emocional, um tremor da fora que a prpria Meg deve ter sentido enquanto, 
no hospital, estava sentada desamparada ao lado do leito da filha.
      Eu havia procurado na Bblia conhecimento a respeito do propsito de Deus neste mundo. Eu havia procurado pistas de como  que  ser Deus - sabendo,  claro, 
que nunca poderemos chegar perto de compreender um ponto de vista to sublime. A carta de Meg, porm, empurrou-me em outra direo" e mudou todo o meu enfoque na 
parte final deste livro. Suas perguntas so perguntas do corao, no da cabea. Como me, ela observou dois filhos escaparem-lhe das mos, sofrendo mortes lentas, 
horrveis. No entanto, como cristo ela cr no Deus Pai amoroso. Como ela pode harmonizar estas duas realidades?
       timo considerar o ponto de vista de Deus - mas que dizer do nosso ponto de vista? Eu vinha explorando como  que  ser Deus; a carta de Meg me atirou de 
volta  questo como  que  ser humano, como uma me que acabou de sepultar seus dois nicos filhos sente.
      Naquela noite percebi que este livro no estava pronto. Conceitos teolgicos no tm muito sentido, a menos que consigam falar a algum como Meg Woodson, que 
tateia em busca do amor de Deus num mundo cercado de tristeza. Recordei-me de um pastor confuso, personagem de um romance de John Updike, que disse: "Algo est errado. 
No tenho f. Ou, melhor dizendo, tenho f, mas parece que ela no tem aplicao." Como  que a f se aplica? O que temos o direito de esperar de Deus?
***
Perguntou ainda o SENHOR a Satans: Observaste a meu servo J? porque ningum h na terra semelhante a ele, homem ntegro e reto, temente a Deus, e que se desvia 
do mal.
- J 1:8
***
Captulo 22 - O nico Problema
S h uma igreja aqui, de modo que a freqento. Nos domingos de manh saio de casa e vagueio colina abaixo at a velha igreja, toda de madeira, no pinheiral. Num 
domingo especial pode haver vinte de ns ali; com freqncia sou a nica pessoa com menos de sessenta anos de vida, e me sinto como se fizesse parte de uma expedio 
arqueolgica da Unio Sovitica. Os membros so de variadas denominaes; o pastor  congregacional, e veste uma camisa branca. O homem conhece a Deus. Certa vez, 
no meio da longa orao pastoral de intercesso pelo mundo inteiro - em favor do dom da sabedoria para seus lderes, de esperana e misericrdia para os entristecidos 
e os que sofrem, de socorro para os oprimidos, e da graa de Deus para todos - no meio disso ele parou e explodiu: "Senhor, ns te fazemos esses mesmos pedidos todas 
as semanas!** Depois de uma pausa assustada, prosseguiu lendo a orao. Por causa disso, gosto muito dele.
- Annie Dillard, Holy the Firm
      
      AT O MOMENTO tenho evitado um livro da Bblia, um livro que confronta as prprias questes levantadas pelo pastor congregacional, e por Richard e Meg, e por 
quase toda pessoa que pensa a respeito de Deus. Ento no  de surpreender que eu me vi retornando ao Livro de J.
      Possivelmente o livro mais antigo da Bblia, J d a impresso de ser o mais moderno. Suas colocaes radicais - um homem diante de um abismo num universo 
que no faz sentido - so uma antecipao da condio da humanidade contempornea. Pessoas que rejeitam quase tudo o mais na Bblia continuam retornando a J em 
busca de inspirao. O tema que se repete - Como um Deus bom pode permitir o sofrimento? -  "o nico problema que vale a pena discutir", disse um romancista canadense 
de nossos dias. O problema do sofrimento  uma obsesso contempornea, a criptonita teolgica de nossa poca, e o antigo J expressou-o melhor do que ningum.
      Richard queixou-se da perda de uma noiva, de um emprego e de uma vida familiar estvel. Meg gritou de dor com a perda de um filho e uma filha. No entanto, 
com base em qualquer padro, J perdeu bem mais: 7.000 ovelhas, 3.000 camelos, 5.000 bois e 500 jumentos, e inmeros servos. Ento todos os filhos de J - sete filhos 
e trs filhas - morreram por causa de um fortssimo golpe de vento. Finalmente a sade de J, seu ltimo consolo, foi embora,  medida que chagas irromperam desde 
a sola do p at a cabea. Do dia para a noite, o maior homem de todo o Oriente reduziu-se ao mais miservel.
      J  o principal caso de decepo com Deus estudado pela Bblia, e como tal parece antecipar qualquer desapontamento que eu, ou Richard, ou Meg ou qualquer 
de ns, possamos sentir. Um rabino norte-americano escreveu um livro popular chamado When Bad Things Happen to Good People ("Quando Coisas Ruins Acontecem a Pessoas 
Boas"). O Livro de J saiu  frente: retrata as piores coisas acontecendo  melhor pessoa da Terra.
Uma Leitura Errnea
      Se, quando comecei meu estudo, voc tivesse me perguntado de que trata o Livro de J, eu teria sido bem rpido na resposta. J? Todo mundo sabe de que  que 
J trata.  a mais completa anlise da Bblia sobre o problema do sofrimento. Trata da tristeza terrvel e da dor desconcertante. Sem dvida, a maior parte do livro 
est centrada no tema do sofrimento. Os captulos 3 a 37 no contm ao alguma a se narrar, apenas quatro homens problemticos - J, seus trs amigos e o enigmtico 
Eli - discutindo o problema da dor, tentando explicar as excessivas pedradas e flechadas que o destino atirou no pobre J, o qual est sentado, abandonado, sobre 
as cinzas do que outrora fora sua manso.
      Agora creio que li erroneamente o livro - ou, mais precisamente, no levei em conta o livro inteiro. Apesar do fato de que, com exceo de umas poucas pginas, 
todas as demais tratam do problema da dor, estou chegando  concluso de que J, na verdade, no  uma anlise do problema da dor. O sofrimento contribui como um 
dos ingredientes da histria, mas no como seu tema centrai. O livro diz respeito a perguntas ainda mais importantes, a perguntas csmicas. Visto como um todo, J 
trata basicamente da f em sua forma mais absoluta.
      Sou levado a essa concluso principalmente por causa da '"trama" introdutria dos captulos 1 e 2, que revela que o drama pessoal de J na terra teve origem 
num drama csmico no cu. No passado eu considerara J como uma expresso profunda da desiluso humana - algo parecido com a carta de Meg Woodson, s que mais comprido 
e mais detalhado, e com a sano bblica direta. Contudo,  medida que estudei o livro em mais profundidade, descobri que na realidade ele no apresenta o ponto 
de vista humano. Deus  o personagem central da Bblia, e em lugar algum essa mensagem fica mais clara do que no Livro de J. Percebi que eu sempre havia lido o 
livro da perspectiva do captulo 3 em diante - em outras palavras, da perspectiva de J.
      Ajuda um pouco pensar no Livro de J como uma pea de suspense, uma histria de investigao policial. Antes de a pea mesma comear, ns da platia assistimos 
um "trailer" do que est por vir, como se tivssemos chegado mais cedo a uma entrevista  imprensa em que o diretor explica sua obra (captulos 1 e 2). Ele conta 
o enredo e descreve as principais personagens, ento nos adianta quem fez o que na pea, e por qu. Na verdade, ele revela todos os mistrios da pea com exceo 
de um: como o personagem principal reagir? J ir confiar em Deus ou neg-lo?
      Mais tarde, quando se erguem as cortinas, vemos somente os atores no palco. Limitados  pea, eles no tm qualquer conhecimento do que o diretor nos contou 
na "pr-estria". Sabemos as respostas aos enigmas do mistrio, mas o ator principal, o detetive J, no sabe. Ele passa o tempo todo no palco tentando descobrir 
aquilo que j sabemos. Ele se coa com cacos de loua e pergunta: "Por que comigo? O que eu fiz de errado? O que Deus est tentando me dizer?"
      Para a platia, as perguntas de J devem ser um mero exerccio intelectual, pois no prlogo, os primeiros dois captulos, ficamos sabendo das respostas. O 
que J fez de errado? Nada. Ele representa o que h de melhor na humanidade. No foi o prprio Deus que chamou J de "homem ntegro e reto, temente a Deus, e que 
se desvia do mal"? Por que, ento, ele est sofrendo? No por castigo. Longe disso - ele foi escolhido como o ator principal numa grande disputa dos cus.
A Aposta
      Fazendo um retrospecto, s vezes fico imaginando como pude fazer uma leitura to incorreta do Livro de J. Parte da razo, creio, repousa na eloqncia dos 
captulos 3 a 37, que expressam o dilema humano com tanto vigor que podemos nos ver presos em seu campo de fora, esquecendo que as perguntas levantadas j foram 
respondidas nos captulos 1 e 2. Mas h ainda uma outra razo: ningum sabe muito bem como interpretar os dois primeiros captulos. At mesmo os estudiosos da Bblia 
tendem a se sentir meio embaraados diante do prlogo. Mostra Deus e Satans envolvidos em algo que faz lembrar uma Aposta. O trauma de J tem origem numa espcie 
de desafio feito entre os dois poderes [csmicos]
      O problema comea com a afirmao de Satans de que J  uma pessoa mimada, que s  leal a Deus porque Deus o cercou "com sebe". Satans zomba de que Deus, 
ele mesmo indigno de amor, s atrai pessoas como J porque so subornadas para segui-lo. Se as circunstncias algum dia ficassem pretas, acusa Satans, tais pessoas 
rapidamente abandonariam a Deus. Quando Deus aceita o desafio para testar a teoria de Satans, concordando que a reao de J ir comprov-la ou contest-la, as 
calamidades comeam a cair como uma chuvarada em cima do pobre J.
      Certamente no nego que  meio estranha essa disputa celestial. Por outro lado, no posso ignorar o relato da Aposta em J, pois nos oferece um raro vislumbre 
de um ponto de vista csmico, o qual em geral nos  negado. Quando as pessoas experimentam a dor, irrompem perguntas - as mesmssimas perguntas que atormentaram 
J. Por que comigo? O que est acontecendo? Deus se importa? Existe um Deus? Nessa ocasio especfica, no relato brutal do sofrimento atroz de J, ns, os espectadores 
- no J - temos oportunidade de dar uma olhada por detrs da cortina. O que Richard e Meg ansiaram, o prlogo de J proporciona: um vislumbre de como o mundo  
dirigido. Mais do que em qualquer outra parte da Bblia, o Livro de J mostra-nos o ponto de vista de Deus, inclusive a atividade sobrenatural, que geralmente est 
oculta de ns.
      J ps a Deus no banco dos rus, acusando-o de atos injustos contra um homem inocente. Irado, satrico, trado, J vagueia o mais prximo possvel da blasfmia. 
Suas palavras tm um toque surpreendentemente familiar, porque so to atuais. Ele expressa as nossas mais profundas queixas contra Deus. Mas os captulos 1 e 2 
provam que, no importa o que J pensa, Deus no est sendo julgado nesse livro.  J que est em julgamento. O tema do livro no  o sofrimento: Onde Deus est 
na hora da dor? O prlogo tratou dessa questo. O tema  a f: Onde J est na hora da dor? Como ele est reagindo? Para compreender o Livro de J, eu tenho de comear 
por a.

Crer no sobrenatural no  simplesmente crer que, depois de viver aqui uma vida bem-sucedida, material e razoavelmente virtuosa, a pessoa continuar a existir no 
melhor substituto possvel para este mundo, ou que, depois de viver aqui uma vida de privaes e necessidades, a pessoa receber compensao de todas as coisas que 
no experimentou:  crer que o sobrenatural , aqui e agora, a maior das realidades.
- T. S. Eliot
*
Referncias bblicas: J 1-2.
***
Que  o homem, para que tanto o estimes,
e ponhas nele o teu cuidado, e cada manh o visites,
e cada momento o ponhas  prova? At quando no apartars de mim a tua vista? At quando no me dars tempo de engolir a minha
saliva?
- J 7:17-19
***
Captulo 23 - Um Papel no Cosmos
Alguns dizem que, para os deuses, somos como moscas que meninos matam  toa num dia de vero. Outros dizem que nem mesmo uma pena de pardal cai ao cho sem que seja 
da vontade do Pai Celeste.
- Thornton Wilder, The Bridge of San Luis Rey ("A Ponte Sobre San Luis Rey")

      PARA O MEU AMIGO Richard, que escreveu um livro sobre J, aquele velho parecia um heri quase que irreal e que teve a ousadia de disputar uma queda de brao 
com o Deus Todo-Poderoso. Certa vez, depois de ouvi-lo expor acerca da grande bravura de J, eu trouxe  tona o relato da Aposta, e ento notei a ira surgir no semblante 
de Richard at ele quase explodir. "Tudo o que posso dizer", gritou por fim, " que J suportou um inferno s para fazer Deus se sentir bem!"
      Eu tambm, no incio, achei difcil evitar tais sentimentos. No h meios de contornar a dificuldade, pois a disputa celestial se manifestou na vida de J 
na forma de saqueadores, tempestades de fogo, tempestades de vento e furnculos. Deus ganhou a Aposta; mas como justificar o terrvel preo que J pagou?
      Entretanto,  medida que estudei melhor o livro, vi que eu estava abrigando a imagem errada do que havia acontecido. Sim, houve uma queda de brao, mas no 
entre J e Deus. Antes, Satans e Deus foram os principais lutadores, embora - algo profundamente significativo - Deus tivesse designado o homem J como seu substituto. 
O primeiro e o ltimo captulos deixam claro que J, sem saber, estava participando de uma decisiva luta csmica diante de espectadores do mundo invisvel.
Perturbando o Universo
      A estranha cena da Aposta me fez recordar de uns poucos outros lugares onde a Bblia permite um breve vislumbre por detrs das cortinas. Considere, por exemplo, 
Apocalipse 12, que descreve uma disputa ainda mais bizarra: uma mulher grvida, usando o sol como vestido e doze estrelas como coroa, ope-se a um drago vermelho 
to imenso que  capaz de bater em um tero das estrelas com um nico movimento de sua cauda. O drago est  espreita, buscando devorar, na hora do parto, o filho 
da mulher. E h mais: uma fuga para o deserto, uma serpente que tenta afogar a mulher, e uma violenta guerra no cu.
      Os comentaristas bblicos sugerem inmeras interpretaes detalhadas de Apocalipse 12, mas quase todos concordam que as imagens bizarras apontam para a grande 
ruptura no universo provocada pelo nascimento de Jesus, em Belm. Num certo sentido, Apocalipse 12 apresenta um outro lado do Natal, acrescentando um novo jogo de 
imagens hologrficas s cenas familiares da manjedoura, dos pastores e da matana dos inocentes. Qual  a "verdadeira" histria do Natal: a verso pastoril de Lucas 
ou o relato em Apocalipse do cosmos em guerra? So a mesma histria,  claro; apenas os pontos de vista diferem. Lucas apresenta o ponto de vista a partir da Terra, 
e Apocalipse apresenta detalhes a partir do mundo invisvel.
      O padro - dois mundos, visvel e invisvel, com acontecimentos num mundo afetando o outro - vem  tona por toda a Bblia: uma tarefa missionria de curta 
durao faz com que Satans caia do cu tal como um relmpago (Lucas 10); o arrependimento de um pecador provoca uma celebrao entre os anjos (Lucas 15); o nascimento 
de um nen faz todo o universo estremecer (Apocalipse 12). Essas cenas todas ilustram uma mensagem central da Bblia: aes aparentemente comuns no mundo visvel 
tm um efeito extraordinrio no mundo invisvel.
      Hoje em dia a crena num mundo invisvel constitui uma linha divisria crucial para a f. Muitas pessoas acordam, se levantam, se alimentam, pegam a conduo, 
trabalham, do telefonemas, do ateno aos filhos e vo dormir sem pensarem na existncia de um mundo invisvel. Mas, conforme a Bblia, a histria humana  muito 
mais do que o surgimento e desaparecimento de pessoas e naes;  um local de encenao para a batalha do universo. Grande parte da ao permanece oculta  nossa 
vista, com exceo dos vislumbres ocasionais que se nos oferecem em lugares como Apocalipse e J.
      Um indivduo comum no mundo visvel, J foi convocado a suportar um julgamento de conseqncias csmicas. Ele no teve qualquer lampejo de luz para orient-lo, 
nem qualquer indicao de que o mundo invisvel se importava com ele, nem de que sequer existisse. Tal qual uma cobaia de laboratrio, foi escolhido a dedo para 
solucionar uma das mais urgentes questes da humanidade e para impulsionar um pequeno trecho da histria do universo.
      Ser absurdo crer que um nico ser humano, um ponto minsculo num planeta minsculo, possa fazer uma diferena na histria do universo? Certamente assim pareceu 
para os amigos de J. Oua Eli, o ltimo dos consoladores de J:

Se pecas, que mal lhe causas tu?
Se as tuas transgresses se multiplicam, que lhe fazes? Se s justo, que lhe ds,
ou que recebe ele da tua mo?
A tua impiedade s pode fazer o mal ao homem como tu mesmo; e a tua justia dar proveito ao filho do homem.

      Eli, todavia, estava redondamente enganado. Os captulos iniciais e finais de J provam que Deus foi grandemente afetado e que questes csmicas estavam em 
jogo. (Mais tarde, numa mensagem ao profeta Ezequiel, Deus apontaria com orgulho para J - junto com Daniel e No - como sendo um de seus trs favoritos.)
      J fornece um exemplo, uma ilustrao desenhada em traos ntidos, de como a vida na Terra afeta o universo. Quando iniciei meu estudo, tive a tendncia de 
evitar a cena "embaraosa" do captulo 1, mas depois disso vim a crer que, seja drama ou histria, a Aposta pode oferecer de fato uma mensagem de grande esperana. 
No final, esclareceu decisivamente que a f de um nico ser humano  realmente de grande importncia, e isso  talvez a lio mais poderosa e duradoura dada pelo 
Livro de J. Todos ns vivemos s escuras, desconhecendo o que se passa no mundo invisvel. Ns tambm podemos questionar a sabedoria de Deus e, s vezes, at mesmo 
pensar que ele  o Inimigo. Mas J declara que nossa reao nos momentos de teste  algo que realmente importa. A histria da humanidade - e, de fato, minha prpria 
histria individual de f - est includa dentro do grande drama da histria do universo.
      Deus nos concedeu "a dignidade de causao", disse Pascal. Podemos duvidar, junto com Eli, de que uma nica pessoa possa fazer qualquer diferena. Mas a Bblia 
est repleta de indicaes de que algo como a Aposta tambm  encenada na vida de outros crentes. Ns somos a principal exibio de Deus, suas peas de mostrurio 
para serem vistas pelos poderes do mundo invisvel. O apstolo Paulo, tomando emprestada uma imagem da procisso de gladiadores quando entravam no Coliseu, descreveu-se 
a si mesmo como estando numa mostra ao pblico: "nos tornamos espetculo ao mundo, tanto a anjos, como a homens." E na mesma carta ele comentou, numa surpreendente 
digresso: "No sabeis que havemos de julgar os prprios anjos?"
      Ns, os humanos, podemos habitar numa mera partcula de uma galxia, que por sua vez  uma mera partcula no universo, mas o Novo Testamento insiste que aquilo 
que acontece aqui entre ns ajudar, na verdade, a determinar o futuro desse universo. Paulo expressou este conceito com vigor: "A ardente expectativa da criao 
aguarda a revelao dos filhos de Deus." A criao natural, gemendo devido  labuta e deteriorao, s pode ficar livre mediante a transformao de seres humanos.
A Grande Virada
      Toda a histria humana tem lugar em algum ponto entre a primeira parte de Gnesis e a ltima parte de Apocalipse, que retratam a mesma cena, com as mesmas 
pinceladas: Paraso, um rio, a luminosa glria de Deus e a Arvore da Vida. Assim, a histria comea e termina no mesmo lugar, e tudo nesse nterim diz respeito  
luta para recuperar o que foi perdido.
      Aps a queda, no Paraso, a histria entrou numa nova fase. A criao Deus havia feito por si mesmo, comeando com nada e culminando com o universo em todo 
o seu esplendor. A nova obra  a recriao, e para isso Deus emprega os prprios seres humanos que originalmente danificaram sua obra. A criao avanou atravs 
das etapas: primeiro estrelas, ento o cu e o mar, e depois plantas e animais, e finalmente o homem e a mulher. A recriao inverte a seqncia, comeando com o 
homem e a mulher e culminando com a restaurao de todo o restante.
      Em muitos aspectos, o ato de recriao  mais difcil do que o da criao, pois depende de seres humanos imperfeitos. Certamente Deus teve de pagar um preo 
maior: a morte de seu Filho. Ainda assim, Deus insiste em curar o mundo indo de baixo para cima em vez de cima para baixo. Como um telogo disse: "Quando se alcanou 
tudo o que se podia fazer mediante o uso de sua prpria liberdade, mediante a liberdade do homem ele alcanou ainda mais."
      Enquanto estudava J, chamou-me a ateno que a Aposta foi, em sua essncia, uma clara recolocao da pergunta original de Deus na criao: Os humanos escolhero 
em favor de mim ou contra mim? Do ponto de vista de Deus essa  a questo central da histria, comeando com Ado e prosseguindo at J e cada homem e mulher que 
j viveu. A Aposta no Livro de J ps em questo toda a experincia humana.
      Satans negou que os seres humanos sejam verdadeiramente livres.  claro que temos liberdade para descer - Ado e todos os seus descendentes provaram isso. 
Mas liberdade para ascender, para crer em Deus por nenhuma outra razo seno... bem... por absolutamente nenhuma razo? Ser que uma pessoa consegue crer, mesmo 
quando Deus lhe parea um inimigo? Ou ser que a f  apenas mais um produto do ambiente, da cultura e das circunstncias? Os captulos iniciais de J apresentam 
Satans como o primeiro grande behaviorista: J foi condicionado a amar a Deus, Satans sugeriu. Retire as recompensas e veja sua f sucumbir. A Aposta testou a 
teoria de Satans.
      Foi assim que vim a enxergar as tribulaes de J como um teste crucial da liberdade humana, uma questo igualmente importante na atualidade. Ser que nossas 
vidas realmente importam? Em nosso sculo  preciso ter f para crer que um ser humano  algo mais do que uma combinao de programao de DNA, instintos oriundos 
da associao gentica, condicionamento cultural e as foras impessoais da histria. No entanto, mesmo neste sculo behaviorista, queremos crer de modo diferente. 
Queremos crer que as mil e uma escolhas fceis e difceis que fazemos diariamente tm, de alguma forma, um valor. E o Livro de J insiste que elas tm; a f de algum 
pode fazer a diferena. Essa foi a verdadeira questo por trs da Aposta de Deus com Satans: h acima de tudo um papel para os seres humanos desempenharem.
      J calou o Acusador ao declarar sua f apesar de tudo o que acontecera. Despojado de tudo, exceto sua liberdade, ele ainda assim exercitou aquela liberdade 
para crer num Deus que no podia ver. E, em fazendo-o, estabeleceu um padro para quem quer que venha a se defrontar com a dvida ou o sofrimento.
      Com muita freqncia, a decepo com Deus remonta a circunstncias parecidas com as de J. Um acidente trgico, uma doena terminal, ou uma perda de emprego 
podem estimular as mesmas perguntas que J fez. Por que comigo? O que Deus tem contra mim? Por que ele parece to distante? Como leitores da histria de J, podemos 
ver por detrs da cortina uma disputa sendo travada no mundo invisvel. Mas em nossas prprias tribulaes no teremos tal perspectiva. Quando a tragdia desabar, 
tambm ficaremos amarrados a um ponto de vista limitado, e o drama que J atravessou se repetir em nossas vidas individuais. Mais uma vez Deus permitir que sua 
reputao dependa da reao de seres humanos imprevisveis.
      Para J, o campo de batalha da f implicou a perda de bens, perda de familiares, perda de sade. Poderemos nos defrontar com uma luta diferente: um fracasso 
profissional, um casamento problemtico, desvios sexuais, uma aparncia fsica que no atrai as pessoas. Em tais ocasies as circunstncias exteriores - a enfermidade, 
a conta bancria, a falta de sorte - parecero a verdadeira luta. Poderemos implorar a Deus que mude essas circunstncias. Se eu apenas fosse uma pessoa bonita ou 
simptica, ento tudo ia dar certo. Se eu apenas tivesse mais dinheiro - ou pelo menos um emprego - ento eu poderia crer facilmente em Deus.
      Porm, a batalha mais importante, conforme se v em J, ocorre dentro de ns. Confiaremos em Deus? J ensina que no momento em que a f  mais difcil e menos 
provvel, ento ela  mais necessria. A luta de J apresenta um vislumbre do que, em outras passagens, a Bblia descreve detalhadamente: a notvel verdade de que 
nossas escolhas importam no apenas para ns e para nosso prprio destino, mas, surpreendentemente, para o prprio Deus e para o universo que ele governa.
      Em resumo, Deus concedeu a homens e mulheres comuns o privilgio de participarem da Grande Virada que ir restaurar o cosmos a seu estado original. Todos os 
motivos de desapontamento com Deus que mencionei neste livro, bem como todos os cnceres, todas as mortes, todos os relacionamentos desfeitos, todos os gemidos acumulados, 
feitos por um planeta dominado pela competio selvagem - todas essas imperfeies sero extradas. Podemos eventualmente questionar a seqncia do plano divino 
de restaurao e podemos, tal como os discpulos de Jesus, nos impacientar com o calendrio de Deus. (Os judeus, afinal, sentiram uma amarga decepo quando Jesus 
rejeitou o sonho que tinham de um reino fsico em favor de um reino invisvel, espiritual.) Mas todas as promessas dos profetas algum dia se cumpriro, e ns, voc 
e eu, somos aqueles escolhidos para ajudar a tornar isso realidade.
      J expressou a dor e a injustia deste mundo de modo mais contundente do que qualquer outro. Ele expressou veementemente a desiluso com Deus. Devemos prestar 
ateno s queixas de J e  tempestuosa resposta de Deus. Mas o Livro de J principia no com as queixas - o ponto de vista humano - mas com o ponto de vista de 
Deus. No prlogo, a cena da Aposta estabelece uma verdade misteriosamente radiante: J - e voc e eu - podemos nos unir  luta para reverter tudo o que h de errado 
com o universo. Ns podemos fazer diferena.
O Livro de J no oferece respostas satisfatrias para a pergunta do "Por qu?'' Em vez disso, ele a substitui por uma outra pergunta: "Para qu?" Permanecendo fiel 
a Deus em meio s suas tribulaes, J, aquele velho extravagante e sarcstico, ajudou a acabar com a prpria dor e injustia deste mundo, contra as quais ele havia 
protestado to vigorosamente. E Meg Woodson, que mesmo em meio s trevas no larga do amor de Deus... ela tambm est ajudando a reverter esses erros.
      Por que, porm, a demora? Por que Deus permite que o mal e a dor existam e floresam to flagrantemente neste planeta? Por que permite que faamos lenta e 
desajeitadamente o que ele poderia fazer num piscar de olhos?
      Ele se controla por amor a ns. Estamos envolvidos na recriao; estamos, na verdade, no centro de seu plano. A Aposta, o tema por detrs de toda histria 
humana,  para o nosso desenvolvimento, no o de Deus. Nossa prpria existncia anuncia aos poderes do universo que a restaurao est em execuo. Cada ato de f 
realizado por qualquer um do povo de Deus  como o soar de um sino, e uma f como a de J ecoa por todo o universo.
     
      Nossa vida atual  como uma luta de verdade - como se no universo houvesse algo realmente indmito, para cuja redeno ns, com todos os nossos idealismos 
e fidelidades, somos necessrios.
      - William James, The Will to Believe ("A Vontade de Crer")
     
      Eu preferiria caminhar, como j o fao, diariamente apavorado com a eternidade do que sentir que isto no passava de um jogo para crianas, no qual todos os 
participantes ganhariam no fim prmios igualmente sem valor.
      - T. S. Eliot
*
      Referncias bblicas: J 35; 1 Corntios 4,6; Romanos 8
***
Aguardava eu o bem, e eis que me veio o mal;
esperava a luz, veio-me a escurido. O meu ntimo se agita sem cessar.
- J 30:26-27
***
Captulo 24 - Deus  Injusto?
      THE ROAD LESS TRAVELED ("A Estrada Menos Percorrida"), livro de M. Scott Peck, principia com uma brusca sentena de quatro palavras: "A vida  difcil." O 
Livro de J, caso fosse reduzido a uma s sentena, diria algo semelhante. O grito "A vida  injusta!" ressoa em quase todas as pginas.
      Para ns, hoje em dia, no  mais fcil aceitar a injustia do que foi para J milhares de anos atrs. Considere um improprio bem comum: "Ai, meu Deus!" As 
pessoas no dizem isso apenas quando enfrentam uma grande tragdia, mas tambm quando o motor do carro no quer pegar, quando o seu time de futebol perde, quando 
chove no seu passeio. Essa expresso revela um juzo instintivo de que a vida tem de ser justa e de que de alguma forma Deus deve "fazer um trabalho melhor" na direo 
do seu mundo.
      O mundo tal como  em contraste com o mundo tal como devia ser - a tenso constante entre aquelas duas situaes irrompe s claras no Livro de J. Durante 
trs rounds demorados e violentos, J e seus amigos se engalfinham numa luta de boxe verbal. Quanto s regras bsicas, todos concordam: Deus deve recompensar aqueles 
que fazem o bem e punir aqueles que fazem o mal.
      Por que, ento, J, um homem supostamente bom, est sofrendo tanto com o que parece ser punio? Os amigos de J, confiantes na justia de Deus, defendem o 
mundo tal como . "Use o seu bom senso", dizem a J. "Deus no afligiria voc sem motivo. Voc deve ter cometido algum pecado secreto." Mas J, que sabe sem sombra 
de dvida que nada fez para merecer tal punio, no consegue concordar. Alega inocncia.
      Pouco a pouco, entretanto, o sofrimento vai minando as crenas mais preciosas de J. Como Deus pode estar a seu lado?, J fica imaginando. Afinal de contas, 
ele est de ccoras num monte de cinzas, o que sobrou de sua antiga vida antes que Deus o "trasse".  um homem alquebrado, desesperado. "Olhai para mim, e pasmai; 
e ponde a mo sobre a boca", ele grita.
      Uma crise de f fermenta dentro dele. Deus  injusto? Uma idia dessas pe em xeque tudo em que J cr, mas de que outra forma pode explicar o que aconteceu? 
Procura em redor outros exemplos de injustia e v que algumas vezes as pessoas ms chegam a prosperar - no so punidas, como ele gostaria de acreditar. E os inocentes 
sofrem. Ao passo que muitos outros levam vidas alegres e de abundncia sem jamais pensarem em Deus. "S de pensar nisso me perturbo, e um calafrio se apodera de 
toda a minha carne." Para J os fatos simplesmente no se encaixam.
      A razo de o Livro de J parecer to atual  que, tambm para ns, os fatos no se encaixam. A estridente mensagem de J acerca da injustia da vida parece 
particularmente apropriada para nosso sculo atormentado pela dor. Simplesmente insira ilustraes contemporneas na argumentao de J: crianas "inocentes" mas 
famintas no Terceiro Mundo; pastores aprisionados na frica do Sul; lderes cristos que morrem no vigor da vida; os chefes da mfia e os empresrios depravados 
que atuam na rea das diverses e tm lucros obscenos por tratarem com menosprezo as leis de Deus; os milhes de habitantes da Europa Ocidental que levam vidas tranqilas 
e felizes e jamais pensam em Deus. Nenhuma das indagaes de J a respeito da injustia deste mundo se dissipou. Elas s tm-se tornado mais gritantes e estridentes. 
Ainda temos esperana de que um Deus de amor e poder siga certas regras na Terra. Por que no o faz?
Lidando com a Injustia
      Em algum momento, todo ser humano se defronta com os mistrios que levaram J a tremer aterrorizado. Deus  injusto? Cada gerao tem procurado modos de responder 
a essa pergunta.
      Uma opo pareceu bvia  esposa de J: "Amaldioa a Deus, e morre", ela aconselhou. Por que apegar-se a uma crena sentimental num Deus amoroso quando tanta 
coisa na vida milita contra essa idia? E neste sculo parecido com o de J, mais pessoas do que em qualquer outra poca tm concordado com ela. Alguns escritores 
judeus, tais como Jerzy Kosinski e Elie Wiesel, comearam com uma forte f em Deus, mas viram-na evaporar-se nas cmaras de gs do Holocausto. Cara a cara com a 
injustia mais flagrante da histria, concluram que Deus deve no existir. (Assim mesmo o instinto humano se impe. Kosinski e Wiesel no conseguem evitar um tom 
indignado, como se eles tambm se sentissem trados. Eles ignoram a questo subjacente: de onde vem nosso senso primitivo de justia. Por que deveramos esperar 
que o mundo seja justo?)
      Outros, igualmente atentos para a injustia do mundo, no conseguem chegar ao ponto de negar a existncia de Deus. Ao invs disso, propem uma outra possibilidade: 
talvez Deus concorde que a vida  injusta, mas ele nada pode fazer a respeito. O rabino Harold Kushner assumiu posio no seu best-seller When Bad Things Happen 
to Good People ("Quando Coisas Ruins Acontecem a Pessoas Boas"). Depois de ver seu filho morrer de progria, Kushner chegou  concluso de que "at mesmo Deus enfrenta 
dificuldades para manter o caos sob controle'', e que Deus  "um Deus de justia e no de poder".
      Conforme o rabino Kushner, Deus est to frustrado, at mesmo indignado, com a situao quanto qualquer outra pessoa, mas falta-lhe o poder para mudar a situao. 
Milhes de leitores encontraram consolo na descrio feita por Kushner de um Deus que parecia compassivo, embora fraco. Fico imaginando, entretanto, como aquelas 
pessoas interpretam os ltimos cinco captulos de J, que contm a "autodefesa" de Deus. Nenhuma outra parte da Bblia apresenta to marcante-mente o poder de Deus. 
Se Deus  menos-do-que-poderoso, por que escolheu a pior situao possvel, quando seu poder mais foi questionado, para insistir com sua onipotncia? (O escritor 
judeu e prmio Nobel Elie Wiesel disse acerca do Deus descrito por Kushner: "Se  isso o que Deus , por que ele no renuncia e deixa algum mais competente ocupar 
o seu lugar?")
      Um terceiro grupo de pessoas se furta ao problema da injustia ao olhar para o futuro, quando uma justia severa impor-se- no universo. A injustia  uma 
condio temporria, dizem. A doutrina hindu do carma, que analisa essa crena com uma preciso matemtica, calcula que uma alma pode levar 6.800.000 encarnaes 
para alcanar a justia perfeita. No final de todas essas encarnaes uma pessoa ter experimentado a quantia exata de dor e prazer que merece.
      Uma quarta abordagem  pura e simplesmente negar o problema e insistir que o mundo  justo. Fazendo eco aos amigos de J, essas pessoas insistem que o mundo 
anda de acordo com leis constantes e fixas: as boas pessoas prosperaro e as ms fracassaro. Encontrei esse ponto de vista na igreja que prega cura pela f, em 
Indiana, e a ouo praticamente todas as vezes em que assisto programas religiosos na televiso, onde algum evangelista promete sade perfeita e prosperidade financeira 
a quem quer que, tendo uma f de verdade, pea tais coisas.
       bvio que tais promessas extravagantes exercem grande atrao, mas deixam de dar explicao para todos os fatos. Os nens que contraem AIDS ainda no tero, 
por exemplo, ou a lista de santos perseguidos, encontrada no Foxe's Book of Martyrs ("Livro Foxe dos Mrtires") - como isso se encaixa numa doutrina de justia na 
vida? * O que eu teria preferido dizer a Meg Woodson : "O mundo  justo, e, por isso, se voc orar o suficiente, sua filha no ir morrer". Mas no pude dizer aquilo, 
assim como tambm no posso dizer agora: "Deus levou Peggie embora por causa de alguma coisa que voc fez de errado." Ambos os pontos de vista encontram-se representados 
no Livro de J; ambos so no final rejeitados por Deus.
       preciso dar um salto olmpico de f para argumentar que a vida seja completamente justa. Com mais freqncia, os cristos reagem  injustia da vida no 
por neg-la totalmente, mas por minimiz-la. Eles, como os amigos de J, buscam alguma razo oculta por detrs do sofrimento:
      "Deus est tentando ensinar alguma coisa para voc. Voc deve sentir-se privilegiado, no amargurado, pois voc tem uma oportunidade de depender dele pela 
f."
      "Medite sobre as bnos que voc ainda desfruta - pelo menos voc est vivo. Ser que voc  cristo s quando tudo vai bem?"
      "Voc est submetendo-se a um treinamento, est tendo uma oportunidade de exercitar novos msculos da f. No se preocupe - Deus no vai testar voc alm daquilo 
que voc consegue suportar."
      "No se queixe tanto! Voc vai perder esta oportunidade de demonstrar sua fidelidade para os no-crentes."
      "Sempre existe algum em pior situao do que voc. Agradea apesar das suas circunstncias."
      Os amigos de J ofereceram uma verso de cada uma dessas "palavras de sabedoria", e cada uma contm um elemento de verdade. Mas o Livro de J mostra claramente 
que tais "conselhos teis" em nada ajudam a responder s perguntas da pessoa que sofre. Foi o remdio errado, ministrado na hora errada.
      E, finalmente, existe mais uma maneira de explicar a injustia do mundo. Depois de ouvir a todas as alternativas, J foi levado  concluso que sugeri como 
sendo a sentena que resume o livro inteiro: A vida  injusta! Para J a idia aflorou mais como um sentimento do que como uma filosofia de vida, e  assim que atinge 
todos os que sofrem. "Por que comigo?" indagamos. "O que  que eu fiz?"
Um J Contemporneo
      Enquanto trabalhava neste livro, tomei o cuidado de me encontrar freqentemente com pessoas que se sentiram tradas por Deus. Enquanto eu escrevia, desejava 
ter constantemente diante de mim rostos de verdade, de pessoas decepcionadas e em dvida. Quando chegou a hora de escrever sobre o Livro de J, decidi entrevistar 
uma das pessoas cuja vida mais faz lembrar a de J, um homem a quem chamarei de Douglas.
      Para mim Douglas parece "justo" no mesmo sentido de J: naturalmente no  perfeito, mas  um modelo de fidelidade. Depois de anos de estudo terico e prtico 
em psicoterapia, abriu mo de uma lucrativa carreira para poder iniciar um ministrio urbano. Os problemas de Douglas tiveram incio alguns anos atrs quando sua 
esposa descobriu um tumor no seio. Mdicos operaram-na e removeram aquele seio, mas dois anos depois o cncer tinha-se espalhado para os pulmes. Douglas assumiu 
muitas tarefas domsticas e maternais  medida que sua esposa lutava contra os efeitos debilitantes da quimioterapia. Algumas vezes ela no conseguia segurar comida 
alguma no estmago. Perdeu o cabelo. E sempre se sentia cansada e vulnervel ao medo e  depresso.
      Certa noite, no meio dessa crise, quando Douglas estava descendo uma rua da cidade, ao volante do carro e tendo junto a esposa e a filha de doze anos de idade, 
um motorista bbado, em sentido contrrio, veio ziguezagueando pela rua e bateu frontalmente neles. A esposa de Douglas ficou bastante chocada, mas no se feriu. 
A filha teve um brao quebrado e cortes profundos no rosto por causa do vidro do pra-brisa. O prprio Douglas experimentou o pior, recebeu uma fortssima pancada 
na cabea.
      Depois do acidente, Douglas nunca sabia quando podia ter um ataque de dor de cabea. Ele no conseguia trabalhar um dia todo, e s vezes ficava desorientado 
e esquecido. Pior ainda, o acidente afetou permanentemente sua viso. Um dos olhos se movia sem controle, recusando-se a focalizar. Passou a ter viso duplicada 
e mal podia descer um lance de escadas sem ajuda. Douglas aprendeu a conviver com todas as suas limitaes  exceo de uma: ele no conseguia ler mais do que uma 
ou duas pginas de cada vez. A vida inteira ele tinha amado os livros. Agora estava preso aos livros gravados, produzidos para cegos.
      Quando telefonei para o Douglas para solicitar uma entrevista, ele sugeriu que nos encontrssemos para um caf da manh; e, quando o dia marcado chegou, eu 
me preparei para uma manh difcil. At ento eu tinha entrevistado uma dzia de pessoas e tinha ouvido todo o tipo de desiluso com Deus. Se algum tinha o direito 
de estar irado com Deus seria Douglas. Exatamente naquela semana sua esposa havia recebido um relatrio desanimador do hospital: uma outra mancha surgira em seu 
pulmo.
      Enquanto serviam-nos a comida, ns nos familiarizamos um com o outro, contando detalhes de nossas vidas. Douglas comia com grande concentrao e cuidado. culos 
espessos corrigiam parte dos seus problemas de viso, mas era necessrio muito esforo em focalizar apenas para poder levar o garfo  boca. Eu me forcei a olhar 
diretamente para ele enquanto conversvamos, tentando ignorar a distrao do seu olho rebelde. Finalmente, quando terminamos a refeio e fizemos sinal  garonete 
para pedir mais caf, descrevi meu livro sobre decepo com Deus.
      - O que voc teria a dizer sobre a sua prpria frustrao ou desiluso? - perguntei. - O que voc aprendeu que possa ajudar outra pessoa que esteja atravessando 
um perodo difcil?
      Douglas esteve em silncio pelo que pareceu um longo tempo. Cofiou sua barba grisalha e seu olhar se perdeu na distncia. Por um instante fiquei imaginando 
se ele estava tendo um "branco" mental. Finalmente disse:
      - Para dizer a verdade, Philip, no senti qualquer desiluso com Deus.
      Fiquei surpreso. Douglas, de forma marcantemente honesta, sempre havia rejeitado frmulas fceis, como os testemunhos do tipo "Conte a bno" que aparecem 
em programas religiosos na televiso. Esperei que explicasse.
      -  A razo  a seguinte. Aprendi, primeiramente com a enfermidade da minha esposa e ento especialmente com o acidente, a no confundir Deus com a vida. No 
sou nenhum heri. Fico to perturbado com o que me aconteceu como qualquer outra pessoa ficaria. Eu me sinto livre para amaldioar a injustia da vida e para dar 
vazo a toda minha tristeza e ira.
      Mas creio que Deus sente a mesma coisa quanto quele acidente - entristecido e irado. No o culpo pelo que aconteceu. Douglas prosseguiu:
      -  Aprendi a ver alm da realidade fsica deste mundo. Vejo claramente a realidade espiritual. Nossa tendncia  pensarmos: "A vida deve ser justa porque Deus 
 justo." Mas Deus no  a vida. E, se eu confundo Deus com a realidade fsica da vida - ao esperar, por exemplo, constante boa sade - ento me coloco na posio 
de ter uma decepo enorme. A existncia de Deus, at mesmo seu amor por mim, no depende de minha boa sade. Com toda franqueza, tive mais tempo e oportunidade 
para desenvolver meu relacionamento com Deus durante esse tempo de limitaes fsicas do que antes.
      Havia uma profunda ironia naquela cena. Por meses eu estivera absorto com os fracassos na f, tendo sado em busca de histrias de pessoas desapontadas com 
Deus. Eu havia escolhido Douglas como o meu J contemporneo, e havia esperado dele uma amargurada exploso de protesto. A ltima coisa que eu esperava era um curso 
superior de aperfeioamento na f.
      -  Se desenvolvermos um relacionamento com Deus independente das circunstncias de nossa vida - disse Douglas -, ento poderemos ser capazes de ficar firmes 
quando a realidade fsica se desmoronar. Podemos aprender a confiar em Deus apesar de toda a injustia da vida. No  essa a lio principal de J?
      Embora a separao rigorosa que Douglas fazia entre a "realidade fsica" e a "realidade espiritual" me incomodasse, achei intrigante essa sua idia. Durante 
os momentos que se seguiram trabalhamos juntos percorrendo a Bblia, testando suas idias. No deserto do Sinai as garantias divinas de sucesso fsico - sade, prosperidade 
e vitrias militares - nada fizeram para ajudar o desempenho espiritual dos israelitas. E a maioria dos heris do Antigo Testamento (Abrao, Jos, Davi, Elias, Jeremias, 
Daniel) passaram por tribulaes muito parecidas com as de J. Para cada um deles, eventualmente a realidade fsica com certeza parecia apresentar Deus como o inimigo. 
Mas cada um conseguiu apegar-se a uma confiana nele apesar das dificuldades. Com isso sua f deixou de ser uma "f contratual" - seguirei a Deus se ele me tratar 
bem - para ser um relacionamento que podia transcender qualquer dificuldade.
      De repente Douglas deu uma olhada no relgio e percebeu que j estava atrasado para um outro encontro. Apressadamente vestiu o casaco e se ps em p para sair, 
e ento se inclinou e disse um ltimo pensamento:
      - Desafio voc a ir para sua casa e ler de novo a histria de Jesus. A vida foi "justa" com ele? Para mim, a cruz acabou definitivamente com a crena enraizada 
de que a vida ser justa.
      Quando cheguei a casa, segui o conselho de Douglas e mais uma vez percorri os Evangelhos, imaginando como Jesus teria respondido  pergunta: "A vida  injusta?" 
Em lugar algum o encontrei negando a injustia. Quando Jesus encontrava uma pessoa enferma, jamais fazia uma palestra do tipo "aceite a vida como ela "; ele curava 
quem quer que o procurasse. E suas palavras incisivas quanto aos ricos e poderosos de sua poca mostram claramente o que pensava das desigualdades sociais. O Filho 
de Deus reagiu  injustia da vida de modo bem parecido como qualquer outra pessoa. Quando encontrava uma pessoa sofrendo, ficava profundamente tocado. Quando seu 
amigo Lzaro morreu, ele chorou. Quando o prprio Jesus se defrontou com o sofrimento, retraiu-se, trs vezes perguntando se havia alguma outra sada.
      Deus respondeu  pergunta sobre a injustia no com palavras, mas com uma visita, uma Encarnao. E Jesus oferece uma prova de carne e osso de como Deus se 
sente quanto  injustia, pois ele vestiu a "matria" da vida, a realidade fsica no que tem de mais injusto. (Ocorreu-me, enquanto lia os Evangelhos, que, se todos 
ns da Igreja gastssemos nossas vidas tal como ele fez - ministrando aos doentes, alimentando os famintos, resistindo aos poderes do mal, consolando aqueles enlutados 
e levando as Boas Notcias de amor e perdo - ento talvez a pergunta "Deus  injusto?" no fosse feita hoje em dia com tanta urgncia.)
A Grande Injustia
      Deus  injusto? A resposta depende de quo intimamente associamos Deus e a vida. Com certeza a vida na Terra  injusta. Douglas estava certo ao dizer que a 
cruz confirmou essa questo para sempre.
      O escritor Henri Nouwen conta a histria de uma famlia que ele conheceu no Paraguai. O pai, um mdico, protestou veementemente contra o regime militar de 
l e contra as violaes dos direitos humanos. A polcia local se vingou dele prendendo seu filho adolescente e torturando-o at a morte. Enraivecido, o povo do 
vilarejo quis transformar o sepultamento do menino numa imensa marcha de protesto, mas o mdico escolheu um outro meio de protesto. No sepultamento, o pai deixou 
 mostra o corpo do filho tal como o havia encontrado na priso - nu, marcado com sinais de choques eltricos e queimaduras de cigarros e espancamentos. Todos os 
moradores, em fila, passaram junto ao corpo, que jazia no num caixo mas no colcho da priso, encharcado de sangue. Foi o mais forte protesto imaginvel, pois 
ps a injustia numa vitrina grotesca.
      No foi isso o que Deus fez no Calvrio? " Deus quem deve sofrer, no voc e eu", dizem aqueles ressentidos contra Deus por causa da injustia da vida. O 
xingamento que- alguns ousam dizer expressa bem: Maldito Deus! E naquele dia Deus foi maldito. A cruz que sustinha o corpo de Jesus, nu e cheio de marcas, exps 
toda a violncia e injustia deste mundo. Foi necessrio aquele ato mais injusto da histria - a execuo de Jesus, o Cristo - para vencer o mal do mundo. A cruz 
revelou que tipo de mundo ns temos e que tipo de Deus ns temos.
      Ningum est isento da tragdia ou da desiluso - o prprio Deus no esteve isento. Jesus no ofereceu qualquer imunidade, nem qualquer caminho para escapar 
da injustia, mas, em vez disso, um caminho para atravess-la at chegar do outro lado. Assim como a Sexta-Feira da Paixo ps por terra a crena inata de que esta 
vida  justa, em seguida veio o Domingo de Pscoa com sua surpreendente pista para o enigma do universo. Em meio s trevas resplandeceu uma fulgurante luz.
      O desejo congnito de justia no desaparece facilmente, e assim deve ser. Quem de ns s vezes no anseia que haja mais justia aqui e agora neste mundo? 
Tenho de admitir que, no ntimo, anseio por um mundo  prova de tristeza e sofrimento, um mundo onde meus artigos de revista sempre encontraro aceitao e meu corpo 
no envelhea nem se enfraquea, um mundo onde minha cunhada no d  luz uma criana com leso cerebral, e onde Peggie Woodson viva at chegar a uma provecta velhice. 
Mas, se eu aposto minha f numa Terra assim  prova de defeitos, minha f me decepcionar. At mesmo o maior dos milagres no soluciona os problemas desta Terra: 
todas as pessoas que encontram alguma cura fsica iro morrer algum dia.
      Necessitamos de algo mais do que milagres. Necessitamos de um novo cu e uma nova terra, e, at que tenhamos isso, a injustia no desaparecer.
      Um amigo meu, lutando para crer num Deus amoroso em meio a muita dor e tristeza, soltou esta frase: "A nica desculpa de Deus  o Domingo de Pscoa!" O linguajar 
 no-teolgico e pesado, mas naquela afirmao existe uma verdade marcante. A cruz de Cristo pode ter vencido o mal, mas no venceu a injustia. Para isso  necessrio 
o Domingo de Pscoa. Algum dia Deus ir restaurar toda a realidade fsica a seu devido lugar, sob o seu domnio. Nesse nterim, far bem nos lembrarmos de que levamos 
nossas vidas no Sbado de Aleluia.

As mais difceis indagaes da vida nunca so "removidas" (nunca ficamos sabendo por que Deus faz isto ou aquilo, por que um avio cai ou acontece um desastre numa 
mina). Mas somos "redimidos" do poder destrutivo dessas perguntas. O pnico no mais pode nos surpreender quando no entendemos o sentido daquilo que Deus permite 
que nos acontea. O seu amor no mais nos confundir; aprenderemos a crer naquele amor mesmo quando no compreendemos os meios que aquele amor escolhe para se expressar.
- HELMUT THIELICKE, HOW to Believe Again ("Como Crer de Novo")
*
      Referncias bblicas: J 21, 2.
***
Na verdade falei do que no entendia;
coisas maravilhosas demais para mim,
coisas que eu no conhecia.
- J 42:3
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Captulo 25 - Por Que Deus No Explica
      PERTO DO FIM do Livro de J, Eli, jovem e afoito, profere uma mensagem contundente em que ridiculariza o desejo de J de receber uma visita de Deus. "Voc 
acha que Deus se importa com uma criatura insignificante como voc? Voc imagina que o Deus Todo-Poderoso, o Criador do Universo, condescender em visitar a Terra 
e encontrar-se pessoalmente com voc? Ser que ele lhe deve algum tipo de satisfao? Pense um pouco, J!"
       medida que Eli vai arrastando a voz, uma minscula nuvem aparece no horizonte, logo acima do seu ombro. E,  medida que a nuvem chega mais perto, formando 
uma tempestade, troveja uma Voz como nenhuma outra. O excelente discurso de Eli encerra-se rapidamente, e J comea a tremer. Chegou Deus, em pessoa. Veio responder 
pessoalmente s acusaes de injustia formuladas por J.
      Se J serve como o principal caso na Bblia de decepo com Deus, ento, certamente, essa impressionante fala proveniente do redemoinho deve fornecer uma compreenso 
aprofundada, importante, acerca de todos os outros perodos de confuso e dvida. O que, ento, Deus diz em sua prpria defesa?
      Posso pensar em algumas coisas teis que Deus podia ter dito: "J, lamento mesmo, lamento profundamente o que aconteceu. Voc suportou muitas tribulaes injustas 
por minha causa, e estou orgulhoso de voc. Voc no imagina o que isso significa para mim e at mesmo para o universo." Uns poucos elogios, uma dose de compaixo 
ou, no mnimo, uma rpida explicao do que ocorreu "nos bastidores" no mundo invisvel - qualquer destas coisas teria dado algum consolo a J.
      Deus no diz nada parecido. Sua "resposta", na realidade, consiste mais de perguntas do que de respostas. Deixando de lado trinta e cinco captulos de debates 
sobre o problema da dor, ele se lana a um magnfico passeio verbal pelo mundo da natureza. Parece que ele guia J atravs de uma galeria particular de suas obras 
prediletas, demorando-se com orgulho junto a dioramas de cabras monteses, jumentos selvagens, avestruzes e guias, falando como se estivesse atnito pelas suas prprias 
criaes. A beleza da poesia e o final de J rivalizam com o que h de melhor na literatura mundial. Entretanto, mesmo enquanto me maravilho diante da ofuscante 
descrio que Deus faz do mundo natural, uma sensao de perplexidade se infiltra. Essas palavras so relevantes? E, dentre todos os instantes, por que Deus escolheu 
justo esse para ministrar a J um curso de aperfeioamento sobre a vida selvagem?
      No livro Wishful Thinking ("Pensando Desejosamente"), Frederick Buechner resume bem a fala de Deus. "Deus no explica; explode. Pergunta a J quem ele pensa 
que . Ele diz que tentar explicar o tipo de coisas que J quer saber, seria como tentar explicar Einstein a um insignificante marisco... Deus no revela seu magnfico 
projeto. Ele revela a si prprio." A mensagem por detrs da estupenda poesia resume-se a isto: At que voc saiba um pouco mais sobre dirigir o universo fsico, 
J, no me diga como dirigir o universo moral.
      "Deus, por que ests me tratando de modo to injusto?" J choramingou o livro inteiro. "Pe-te no meu lugar."
      "NO!!!" Deus troveja em resposta. "Ponha-se voc em meu lugar! At que voc possa dar lies sobre como fazer o sol se levantar a cada dia, ou onde espalhar 
os relmpagos, ou como projetar um hipoptamo, no julgue como eu dirijo o mundo. Apenas cale-se e oua."
      O impacto da fala de Deus em J  quase to surpreendente quanto a prpria fala. Embora Deus nunca responda a uma sequer pergunta acerca da misria de J, 
a rajada da tempestade desmonta J. Ele se arrepende no p e na cinza, e todos os vestgios de decepo com Deus se desfazem.
O Que No Temos Condies de Saber
      O restante de ns, todavia, que talvez nunca oua uma voz falar vinda de um redemoinho, deve tentar imaginar o que Deus de fato disse a J. E, francamente, 
para mim a resposta evasiva de Deus cria tantos problemas quantos os que ela soluciona. No posso simplesmente fazer de conta que as perguntas sobre os por qus 
no existem. Elas surgem todas as vezes que converso com algum como Meg Woodson, todas as vezes que minha prpria vida comea a se desintegrar.
      A recusa divina em responder s perguntas de J no se ajusta s mentes modernas. No gostamos - eu no gosto - que nos digam que algo est alm da nossa compreenso. 
Possuo um livro intitulado The Encyclopedia of Ignorance ("A Enciclopdia da Ignorncia''), que descreve muitas reas da cincia que ainda no conseguimos explicar; 
mas os cientistas de todo o mundo esto dando o mximo de si para explorarem essas reas e preencherem os vazios do conhecimento. Ser que Deus cercou uma rea do 
conhecimento, A Enciclopdia da Ignorncia Teolgica, que nenhum ser humano jamais chegar a compreender?
      Por mais que eu resista, sou levado a tal concluso pelo Livro de J. Por que a vida  to injusta? Quando Deus provoca o sofrimento e quando simplesmente 
o permite - e qual  a diferena? Por que parece que algumas vezes Deus est cala-, do e algumas vezes est ntimo e chegado? Quando Deus teve a oportunidade perfeita 
para resolver definitivamente essas questes, fez carranca e meneou a cabea. Por que ter o trabalho de explicar? Possivelmente nem J nem qualquer outro ser humano 
conseguiriam entender.
      No tenho condies de oferecer respostas para as perguntas especficas feitas por J, porque Deus tambm no ofereceu nenhuma. Posso apenas indagar por que 
Deus no d resposta alguma, por que tem de existir uma Enciclopdia da Ignorncia Teolgica. Por estar penetrando numa rea sobre a qual a Bblia fica calada, o 
que segue  pura especulao. Eu a incluo para pessoas que nunca esto satisfeitas com uma no-resposta, para aqueles que no conseguem parar de fazer perguntas 
que at mesmo Deus se recusou a responder.
1. Talvez Deus nos mantenha na ignorncia porque o esclarecimento poder no nos ajudar.
      As mesmas perguntas urgentes atormentam quase toda pessoa que sofre: Por qu? Por que comigo? O que Deus est tentando me ensinar? No Livro de J Deus se afasta 
daquelas perguntas sobre a causa e, em vez disso, concentra a ateno em nossa resposta de f. Mas pense no que poderia acontecer se Deus respondesse sem rodeios 
s nossas perguntas. Presumimos que suportaramos melhor o sofrimento se to-somente soubssemos o motivo por trs dele. Mas suportaramos mesmo?
      Encontro semelhanas notveis em dois livros bblicos: J e Lamentaes. J fitou incrdulo as runas de sua casa e bens; o autor de Lamentaes fitou incrdulo 
as runas de sua cidade, Jerusalm. Ambos os livros expressam ira e amargura e profundo desapontamento com Deus. De fato, muitas passagens de Lamentaes soam como 
parfrases do muito mais antigo Livro de J. Porm, o profeta que escreveu Lamentaes (provavelmente Jeremias) no estava s escuras. Ele sabia exatamente por que 
Jerusalm fora destruda: os hebreus haviam quebrado sua aliana com Deus. Todavia, conhecer a causa em nada ajudou a aliviar o sofrimento ou os sentimentos de desespero 
e abandono. 'Tornou-se o Senhor como inimigo", pronunciou ao estilo de J. "Por que nos rejeitadas totalmente? Por que te enfurecerias sobremaneira contra ns outros?" 
indagou acerca de Deus, embora soubesse muitssimo bem as respostas - outras pores do livro apresentam as respostas, oferecendo detalhes e pormenores.
      Que possvel explicao poderia consolar um J ou uma Meg Woodson? O conhecimento  passivo, intelectual; o sofrimento  ativo, pessoal. Nenhuma resposta intelectual 
solucionar o sofrimento. Talvez seja por isso que Deus enviou seu prprio Filho como uma das respostas  dor humana, para experiment-la e absorv-la dentro de 
si. A Encarnao no "solucionou" o sofrimento humano, mas pelo menos foi uma resposta ativa e pessoal. No sentido mais verdadeiro, palavra alguma  capaz de falar 
mais audivelmente do que o Verbo.
      Se voc olha para o Livro de J em busca de resposta para as perguntas sobre os "por qus?", voc ficar frustrado.
      Deus recusou responder, J retirou as perguntas, e os trs amigos se arrependeram de todas as suas pressuposies errneas. De modo semelhante, Jesus evitou 
o tema da causa direta do sofrimento. Quando seus discpulos tiraram certas concluses acerca de um homem cego de nascimento (Joo 9) e acerca de duas catstrofes 
ocorridas na regio (Lucas 13), Jesus os repreendeu. A partir dos dados bblicos, tenho de concluir que quaisquer respostas  altura das perguntas sobre os "por 
qus?" esto, pura e simplesmente, alm do nosso alcance.
      Sempre que assumirmos alguma das prerrogativas de Deus, trilharemos por terreno perigoso. At mesmo uma tentativa bem intencionada de confortar uma criana, 
"Deus levou o seu papai porque gostava muito dele", invade uma rea que a Bblia parece declarar proibida. Embora as catstrofes - uma queda de avio, uma epidemia, 
um franco atirador matando ao acaso, o envenenamento intencional de medicamentos, uma fome na frica - clamem por uma interpretao oficial, o Livro de J oferece 
um lembrete importante: O prprio Deus no achou necessrio oferecer explicaes.
2. Talvez Deus nos mantenha ignorantes porque somos incapazes de compreender a resposta.
      Talvez a majestosa no-resposta de Deus a J no tenha sido um estratagema, no tenha sido uma forma engenhosa de se livrar de perguntas; talvez tenha sido 
o reconhecimento divino de um fato normal da vida. Uma criatura minscula num planeta minsculo numa galxia remota simplesmente no poderia compreender plenamente 
o grandioso esquema do universo. De igual forma voc pode tentar descrever cores a uma pessoa que nasceu cega, ou uma sinfonia de Mozart a uma pessoa que nasceu 
surda, ou expor a teoria da relatividade a uma pessoa que nem mesmo sabe a respeito de tomos.
      Para aquilatar o problema, imagine-se tentando comunicar-se com uma criatura numa lmina de microscpio. O "universo", para uma criatura dessas, consiste somente 
de duas dimenses, a superfcie plana da lmina de vidro; seus sentidos so incapazes de perceber qualquer coisa alm das bordas. Como voc poderia explicar um conceito 
de espao ou altura ou profundidade a uma criatura assim? Olhando "de cima", voc pode compreender o mundo bidimensional da criatura bem como o mundo tridimensional 
que a cerca. A criatura, no entanto, olhando "de baixo", s pode compreender um mundo de duas dimenses. De modo anlogo, o mundo invisvel existe fora do alcance 
de nossa percepo - exceto por ocasio de raras intervenes em nosso "plano", o que denominamos milagres. J, ou voc e eu, no conseguimos compreender o quadro 
todo com as faculdades mentais que temos no momento.
      O cineasta Woody Allen jocosamente explorou esse ponto de vista de "dois mundos" em seu filme A Rosa Prpura do Cairo. Inicialmente vemos o heri atravs dos 
olhos de Mia Farrow enquanto ela o v desempenhar um papel num filme. Ento, de alguma forma, o heri literalmente sai da tela de cinema e vai parar na sala de exibies 
em Nova Jersey, nos Estados Unidos; de repente ele est no mundo "real" junto com a atnita personagem interpretada por Mia Farrow.
      O mundo exterior reserva muitas surpresas para o ator do filme. Quando algum o atinge com um soco, obedientemente cai ao cho, conforme foi ensinado a fazer 
na tela, mas, surpreso, esfrega o queixo - no era para aqueles golpes machucarem! Quando ele e Mia Farrow se beijam, ele faz uma pausa, esperando o desaparecimento 
da imagem, como nos filmes antigos. E, quando algum tenta explicar o conceito de Deus - "Ele  quem est no controle de tudo.  com ele que todo mundo se preocupa" 
- o ator assente com a cabea: "Ah! voc quer dizer o Sr. Mayer, o dono do estdio de cinema." Suas percepes esto limitadas ao mundo do cinema.
      Por fim o ator retorna  tela de cinema bidimensional e tenta explicar o mundo real ao restante do elenco. Fitam-no como se seu lugar fosse num hospcio. Est 
falando coisas sem sentido. No h qualquer "outro" mundo l fora; s o mundo do filme  real para eles.
      Se um mundo (o mundo de duas dimenses, ou o mundo do filme) existe dentro de outro, s far sentido a partir de um ponto de vista do mundo "superior". E, 
para levar adiante a analogia, esticando-a at o Livro de J, a maioria das indagaes de J diziam respeito  atividade no mundo "superior", um mundo alm de sua 
compreenso.
      Deus vive num nvel "superior", numa outra dimenso. O universo no o contm; ele criou o universo. Num sentido que no conseguimos compreender, ele no est 
limitado pelo tempo e pelo espao. Ele pode penetrar no mundo material - na realidade, se no o fizesse, nossos sentidos jamais o perceberiam - mas para ele isso 
 um "penetrar", tal como um escritor que se introduz como uma personagem de sua prpria pea, tal como uma pessoa do mundo real, a qual faz uma rpida apario 
num filme.
Uma Questo de Tempo
Brilho era o nome de um jovem senhor,
Sua velocidade em relao  da luz era muito superior.
Dessa forma um dia partiu, enfim,
De um modo relativo, sim. E retornou na noite anterior.

      A percepo do tempo destaca a enorme diferena entre a perspectiva de Deus (o ponto de vista de cima) e a nossa, e creio que essa diferena encontra-se no 
cerne de muitas de nossas dvidas acerca da decepo com Deus. Por essa razo, merece o que poder parecer uma digresso.
      Santo Agostinho dedicou o Livro 11 das Confisses a uma discusso sobre o tempo. "O que, ento,  o tempo?" principia ele. "Se ningum me perguntar, eu sei; 
se quero explic-lo a algum que me pergunta, eu no sei." Quando indagado sobre o que Deus estava fazendo antes da criao, Agostinho respondia que, uma vez que 
Deus inventou o tempo juntamente com o mundo, tal pergunta no faz sentido, e simplesmente denuncia a perspectiva daquele que indaga, perspectiva esta limitada ao 
tempo. "Antes" do tempo existe somente a eternidade, e para Deus a eternidade  um presente que nunca termina. Para Deus um dia  como mil anos, e mil anos so como 
um dia.
      O que Agostinho pensaria sobre tudo o que aconteceu desde que Einstein relacionou o tempo e o espao? Agora entendemos o tempo como algo relativo, no como 
absoluto. Dizem que a percepo do tempo depende da posio relativa do observador. Tome um exemplo recente: Na noite de 23 de fevereiro de 1987 um astrnomo no 
Chile observou a olho nu a exploso de uma longnqua supernova, uma exploso to poderosa que liberou num s segundo tanta energia quanto o nosso Sol ir dispensar 
em dez bilhes de anos. Mas ser que aquela ocorrncia realmente se deu em 23 de fevereiro de 1987?
      S da perspectiva do nosso planeta. Na verdade a supernova explodiu 170.000 anos antes de nosso 1987, mas a luz gerada pelo acontecimento, viajando quase 9,5 
trilhes de quilmetros por ano, levou 170.000 anos para chegar  nossa galxia.
      E  aqui que o ponto de vista "superior" da eternidade desafia nossa compreenso usual acerca do tempo. Se quiser, imagine um Ser muito grande, maior do que 
todo o universo - to grande que o Ser existe simultaneamente na terra e no espao ocupado pela Supernova 1987A. Em 1987 qual era a data para aquele Ser? Depende 
da perspectiva. Da perspectiva da Terra, o Ser teria "observado" a histria de 1987, o que inclui a descoberta da Supernova 1987A. Mas da perspectiva da Supernova 
1987A, o Ser teria experimentado o que a Terra s iria saber 170.000 anos depois! Assim, o Ser observou simultaneamente tanto o passado (desde a Terra ele viu a 
exploso da supernova, ocorrida 170.000 anos antes), quanto o presente (os acontecimentos de 1987 na Terra), quanto o futuro (o que estava acontecendo "agora" na 
Supernova 1987A, e que os terrqueos s sabero cerca de 170.000 anos depois).
      Um Ser como esse, to grande quanto o universo, poderia, de algum posto de observao, ver o que est acontecendo em qualquer ponto do universo e em qualquer 
instante determinado. Por exemplo, se deseja saber o que est acontecendo neste exato momento no Sol, pode "observar" da perspectiva do Sol. Se deseja saber o que 
aconteceu no Sol oito minutos atrs, pode "observar" a partir da Terra - e  isso o que vemos, depois de a luz ter percorrido 149 milhes de quilmetros desde o 
Sol at a Terra.
      A analogia  inexata, pois aprisiona no espao um Ser como esse, embora liberte-o do tempo. Mas pode ilustrar como a nossa concepo de tempo (primeiro acontece 
A, depois acontece B) expressa a perspectiva bem limitada de nosso planeta. Deus, fora tanto do tempo quanto do espao, pode ver o que acontece na Terra de uma forma 
que podemos somente supor, e jamais plenamente compreender.
      Tais noes no so meras brincadeiras fantasiosas. Nas escolas de segundo grau, estudantes de fsica estudam acerca de hipotticos astronautas do futuro, 
que viajaro pelo espao numa velocidade mais rpida do que a da luz e, dessa forma, voltaro at mais jovens do que quando partiram. Teorias que pareciam fantasticamente 
especulativas h apenas uma dcada esto sendo comprovadas por pesquisadores da atualidade, os quais refletem raios-laser na lua e enviam relgios atmicos para 
o espao. A cincia est realizando a fantasia: " uma memria fraca que, de fato, s trabalha de trs para a frente!" disse a Rainha Branca a Alice no Pas das 
Maravilhas.
Deus e o Tempo
      Mais uma analogia: como escritor eu vivo em dois diferentes "fusos horrios". Primeiro existe o fuso horrio do mundo real, que abrange meu ritual dirio de 
acordar, vestir-me, tomar o caf e ento me dirigir at meu escritrio para completar captulos, pginas e palavras. Nesse nterim, o prprio livro est criando 
um outro mundo, artificial, com seu prprio fuso horrio particular.
      Se eu estivesse escrevendo um romance, eu poderia escrever estas duas sentenas: "O telefone tocou. Imediatamente ela se levantou do sof e correu para atender." 
Dentro do livro, a seqncia cronolgica  algo assim: o telefone toca, reao imediata. Mas fora do livro, no mundo do autor, minutos, horas, at mesmo dias podem 
separar essas duas sentenas. Talvez eu termine um dia de trabalho com a sentena "O telefone tocou", e ento saia de frias por duas semanas. No importa quando 
eu volto a trabalhar no livro; estou preso pelas leis de seu fuso horrio. Eu jamais poderia escrever: "O telefone tocou. Duas semanas depois ela se levantou e foi 
atender." Misturar os dois fusos horrios criaria um absurdo.
      Depois que eu termino o livro, de uma forma que me  peculiar por ser o seu autor, por onde quer que eu v carrego o livro inteiro dentro de minha mente. "De 
cima", posso ver todo o enredo de uma s vez: incio, meio e fim. Ningum mais consegue faz-lo - a no ser que tambm experimente-o dentro do tempo, labutando em 
todo ele, uma sentena aps outra.
      Continuo me armando com analogias, pois as analogias so o nico meio que temos para imaginar a histria humana tal qual Deus a v. Ns vemos a histria como 
uma seqncia de quadros parados, um aps o outro, como num carretel de filme de cinema; mas Deus v o filme todo de uma s vez, num piscar de olhos. Ele a v simultaneamente 
do ponto de vista de uma estrela longnqua e do ponto de vista da minha sala de estar, onde estou sentado, orando. Ele a v na sua totalidade, como um livro inteiro, 
em vez de sentena por sentena e pgina por pgina.
      Podemos imaginar tal perspectiva obscuramente, como se num nevoeiro. Mas simplesmente reconhecer nossa incurvel condio de estarmos presos ao tempo pode 
nos ajudar a compreender por que Deus no respondeu ao "por qu?" de J. Talvez Deus nos mantenha na ignorncia porque possivelmente nem J, nem Einstein, nem voc 
nem eu conseguiremos compreender o ponto de vista "de cima". Ao invs disso, Deus respondeu desenrolando uns poucos fatos fundamentais do universo que J mal conseguiu 
compreender, e advertiu: "Deixe o resto comigo."
      No conseguimos compreender quais "regras" se aplicam a um Deus que vive fora do tempo, tal qual o percebemos, e assim mesmo algumas vezes penetra no tempo. 
Considere toda a confuso que cerca a palavra "prescincia". Deus sabia com antecedncia que J permaneceria fiel a ele e assim ganharia a Aposta? Se sabia, como 
 que foi uma aposta de verdade? Ou que dizer das calamidades naturais da Terra? Se Deus sabe com antecedncia sobre elas, no  ele que deve levar a culpa? No nosso 
mundo, se uma pessoa sabe com antecedncia que uma bomba ir explodir num automvel estacionado e deixa de alertar as autoridades, tal pessoa  legalmente responsvel. 
Portanto, ser que Deus  "responsvel" por tudo o que acontece, at mesmo tragdias, pois ele sabe a respeito com antecedncia?
      Mas - e esta pode ser a principal mensagem subjacente  vigorosa fala de Deus a J - no podemos aplicar nossas regras simplistas a Deus. A prpria palavra 
prescincia - pr-cincia - denuncia o problema, pois expressa o ponto de vista de algum preso dentro do tempo. Deus no enxerga o tempo numa seqncia A-B. Na 
realidade, estritamente falando, ele no nos "prev" realizando coisas. Ele simplesmente nos v fazendo-as, num eterno presente. E, quando tentamos imaginar o papel 
de Deus num determinado acontecimento, obrigatoriamente vemos as coisas "de baixo", e julgamos seu comportamento pelos frgeis padres de uma moralidade contingente 
ao tempo. Um dia poderemos ver problemas tais como "Deus provocou a queda daquele avio?" sob uma tica bem diferente.
      As prolongadas discusses da igreja quanto  prescincia e  predestinao ilustram nossas tentativas desajeitadas de compreender o que, para ns, s faz sentido 
 medida que entra no tempo. Numa outra dimenso indubitavelmente encararemos essas questes de modo bem diferente. Em algumas de suas mais misteriosas passagens 
a Bblia d pistas quanto ao ponto de vista "de cima". Diz que Cristo foi "conhecido... antes da fundao do mundo", o que significa antes de Ado e antes da Queda 
e, portanto, antes que houvesse qualquer necessidade de redeno. Diz que a graa, a vida eterna, "nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos". Como se 
poderia dizer que alguma coisa aconteceu "antes dos tempos eternos"? Tal linguajar sugere o ponto de vista de um Deus que vive fora do tempo. Antes de criar o tempo, 
fez provises para redimir um planeta cado que ainda nem existia! Mas, quando "entrou" no tempo (tal como eu, um escritor, posso me fazer personagem de meu prprio 
livro), Deus teve de viver e morrer, de acordo com as regras de nosso prprio mundo, preso dentro do tempo.*
O Eterno Presente
      H um sentido em que ns, os humanos, tambm temos uma percepo do tempo como se este fosse um presente que nunca termina.  verdade, experimentamos o tempo 
em seqncia - a manh acontece, ento a tarde, depois a noite - mas realizamos todo o nosso pensamento no presente. Se penso no caf que tomei no incio da manh, 
penso no presente sobre o que aconteceu no passado. Se eu planejo jantar esta noite, penso no presente sobre o que acontecer no futuro. Por existir somente no presente, 
s posso perceber o passado e o futuro desde a perspectiva do presente.
      Essa idia d uma ligeira indicao de como  o eterno presente, a partir do qual Deus "v" o mundo. E pode explicar o constante padro da Bblia para com 
pessoas que duvidam de Deus. Para tais pessoas, presas no presente, decepcionadas com Deus, a Bblia oferece dois tratamentos: lembrar do passado e considerar o 
futuro. Nos Salmos, nos Profetas, nos Evangelhos e Epstolas, a Bblia constantemente nos insta a olhar para trs e lembrar das grandes coisas que Deus fez. Ele 
 o Deus de Abrao, Isaque e Jac, aquele que libertou os hebreus da escravido no Egito. Ele  o Deus que, por amor, enviou seu Filho para morrer, e quem ento 
o ressuscitou da morte.
      Semelhantemente, a Bblia aponta para o futuro. Para pessoas desiludidas de todos os lugares - os judeus mantidos cativos na Babilnia, os cristos perseguidos 
por Roma, ou pelo Ir ou frica do Sul ou Albnia - os profetas enxergam um futuro estado de paz e justia e felicidade; e eles nos chamam a viver  luz do futuro 
que imaginam. Ser que conseguimos viver agora "como se" Deus est de fato sendo amoroso, gracioso, misericordioso e todo-poderoso, muito embora os antolhos do tempo 
estejam obscurecendo nossa viso? Os profetas proclamam que a histria no ser determinada pelo passado ou presente, mas pelo futuro.
      Fiz uma longa digresso pelos mistrios do tempo porque creio que no h qualquer outra resposta para a questo da injustia. No importa o quanto racionalizemos, 
algumas vezes Deus parecer injusto desde a perspectiva de uma pessoa presa ao tempo. S no final dos tempos, depois de termos alcanado o ponto de vista de Deus, 
depois de todo mal ser punido ou perdoado, toda enfermidade ser curada, e todo o universo ser restaurado - s ento reinar a justia. Ento compreenderemos que 
papel o mal, e a Queda, e a lei natural desempenham num acontecimento "injusto" como a morte de uma criana. At l no saberemos, e s podemos confiar num Deus 
que de fato sabe.
      Permanecemos na ignorncia de muitos detalhes, no porque Deus se agrade em nos manter na escurido, mas porque no temos a capacidade de absorver tanta luz. 
Com um nico olhar Deus sabe para onde o mundo caminha e como a histria ir terminar. Mas ns, criaturas presas ao tempo, s possumos a maneira mais primitiva 
de compreender: podemos deixar o tempo passar. S quando a histria tiver completado o seu caminho compreenderemos como "todas as cousas cooperam para o bem". A 
f significa crer com antecedncia no que s far sentido ao contrrio.
      Tenho um amigo que se enerva com tal definio de f: "Voc nunca culpa Deus pelas coisas ruins, mas ao mesmo tempo lhe d crdito pelas coisas boas!" Numa 
forma um tanto quanto curiosa, meu amigo est certo. Isso, creio,  tambm o que s vezes a f exige: confiar em Deus quando no h qualquer prova visvel dele - 
tal qual J o fez. Confiar em sua bondade suprema, uma bondade que existe fora do tempo, uma bondade que o tempo ainda no alcanou.

O Eterno pode encontrar-se conosco naquilo que, de conformidade com nossas medies atuais,  um dia ou (mais provavelmente) um minuto ou um segundo; mas temos tocado 
o que no  de forma alguma mensurvel com medidas de tempo, sejam longas ou curtas. Assim, nossa esperana , no final, emergir, se no totalmente do tempo (o que 
talvez no se adapte  nossa humanidade), pelo menos da tirania, da pobreza unilinear, do tempo; domin-lo e no ser dominado por ele; e assim curar aquela ferida 
sempre dolorida, a qual a mera sucesso e mutabilidade nos infligem, quase igualmente quando estamos felizes e quando estamos infelizes. Pois nos damos to mal com 
o tempo que at mesmo ficamos atnitos diante dele. "Como ele cresceu!" exclamamos. "Como o tempo voa!", como se vez aps vez a forma universal de nossa experincia 
fosse uma novidade.  to estranho quanto se um peixe repetidamente se surpreendesse com a umidade da gua. E isso seria realmente estranho; a no ser que
O peixe estivesse destinado a um dia se tornar num animal terrestre.
- C. S. Lewis, Reflections on the Psalms ("Reflexes sobre os Salmos")
*
Referncias bblicas: J 36-38; Lamentaes 2,5; 1  Pedro 1; 2 Timteo 1; Isaas 7:14; romanos 8.
***
Por que se concede luz ao homem,
cujo caminho  oculto,
e a quem Deus cercou de todos os lados?
Porque em vez do meu po me vm gemidos,
e os seus lamentos se derramam como gua.
- J 3:23-24
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Captulo 26 - Deus Est Calado?
      CERTA VEZ UM AMIGO MEU foi nadar ao crepsculo num grande lago. Enquanto estava nadando tranqilamente a uns noventa metros da margem, uma inesperada neblina 
noturna inundou o lago. De repente no enxergava nada: nenhum horizonte, nenhuma baliza, nenhum objeto, nenhuma luz  margem. Como o nevoeiro dispersava toda a luz, 
nem mesmo conseguia identificar o lado onde o sol se punha.
      Durante trinta minutos debateu-se na gua, tomado de pnico. Comeava a nadar numa direo, ficava inseguro, e virava noventa graus  direita. Ou  esquerda 
- no fazia qualquer diferena o lado para o qual ele virava. Podia sentir o corao batendo descontroladamente. Parava e flutuava, tentando conservar as energias, 
e se esforava em respirar mais devagar. Ento, s cegas comeava de novo. Finalmente ouviu uma voz fraca chamando da margem. Posicionou o corpo na direo dos sons 
e os seguiu at chegar em segurana.
      Algo parecido com aquela sensao de total perdio deve ter-se instalado em J enquanto estava sentado nas cinzas e procurava entender o que havia acontecido. 
Ele tambm tinha perdido todas as balizas, todos os pontos de referncia.
      Para onde devia se voltar? Deus, aquele que podia orient-lo em meio  neblina, permanecia calado.
      O objetivo bsico da Aposta era manter J na escurido. Se Deus tivesse dito uma inspirativa palavra de estmulo - "Faa isso para mim, J, como um Cavaleiro 
da F, como um mrtir'' - ento J teria tido uma nobre razo para sofrer e o teria feito alegremente. Mas Satans havia questionado se a f de J poderia sobreviver 
sem qualquer ajuda ou explicao exterior. No momento em que Deus aceitou essas condies, a neblina invadiu onde J estava.
      No final, Deus,  claro, ''ganhou'' a Aposta. Embora J tivesse disparado uma saraivada de queixas amargas, e embora tivesse se desesperado da vida e ansiado 
pela morte, ainda assim desafiadoramente recusou-se a abandonar a Deus. "Ainda que ele me mate, nele esperarei." (ARC.) J creu quando no havia qualquer razo para 
crer. Creio no meio da neblina.
      Voc poder ler a histria de J, enfronhar-se para entender a Aposta, ento dar um profundo suspiro de alvio: "Arre! Deus resolveu aquele problema. Depois 
de demonstrar seu argumento de modo to decisivo, certamente ele retornar a seu estilo preferido de comunicar-se claramente com seus seguidores." Voc poder pensar 
assim - isto , a menos que leia o restante da Bblia. Hesito em dizer isto porque  uma dura verdade, uma verdade que no quero admitir, mas J se situa apenas 
como o exemplo mais extremo do que parece ser uma lei universal da f. O tipo de f que Deus valoriza parece se desenvolver melhor quando todas as coisas ficam confusas, 
quando Deus permanece calado, quando a neblina invade.
Sobreviventes da Neblina
      Um lampejo de luz, vindo de um farol na costa, e ento um longo e terrvel perodo de silncio e escurido - esse  o padro que encontro no apenas no Livro 
de J, mas por toda a Bblia. Recorde-se do trmulo e idoso Abrao quando se aproximava de um sculo de existncia, tenuemente se apegando  viso resplandecente 
de que seria o pai de uma grande nao. Durante vinte e cinco anos aquela viso pareceu uma miragem no deserto at que um filho, apenas um, nasceu. E, quando Deus 
falou de novo, chamou Abrao para um teste de f em todos os aspectos to severo quanto o de J. "Toma teu filho, teu nico filho, Isaque, a quem amas", disse Deus 
com palavras que atingiram profundamente o corao de Abrao, "e... oferece-o ali em holocausto."
      Ento houve o caso de Jos, que em seus sonhos ouviu da parte de Deus, mas foi parar no fundo de um poo e, mais tarde, numa masmorra egpcia por tentar seguir 
aquela orientao. E Moiss, escolhido a dedo como libertador do povo hebreu, que se enfiou num deserto durante quarenta anos, caado pela guarda pessoal de um fara. 
E o fugitivo Davi, ungido rei por ordem de Deus, e que passou uma dcada seguinte esquivando-se de lanas e dormindo em cavernas.
      O padro desnorteante de orientao divina, como se fosse um cdigo Morse - uma mensagem clara seguida por um vazio longo, silencioso -  abertamente exposto 
em 2 Crnicas. Lemos ali acerca de um raro bom rei, Ezequias, que agradou tanto a Deus que foi-lhe concedida uma prorrogao de quinze anos em sua vida. O que aconteceu 
em seguida? "Deus o desamparou, para prov-lo e faz-lo conhecer tudo o que lhe estava no corao."
      A maioria dessas personagens do Antigo Testamento aparece na galeria de honra de Hebreus 11, um captulo que alguns tm rotulado de "Galeria dos Heris da 
F". Prefiro chamar esse captulo de "Sobreviventes da Neblina", pois muitos dos heris alistados tm uma experincia em comum: um tempo terrvel de teste, tal como 
o de J, um tempo quando desce a neblina e tudo fica opaco. Torturas, zombadas, espancamentos, aprisionamentos, apedrejamentos, serrar ao meio - Hebreus registra 
com detalhes cruis as tribulaes que podem atingir pessoas fiis, cheias de f.
      Os santos tornam-se santos por, de alguma forma, apegarem-se  indmita convico de que as coisas no so como parecem, e que o mundo invisvel  to slido 
e confivel quanto o mundo visvel ao seu redor. "Homens dos quais o mundo no era digno", conclui Hebreus 11 acerca do surpreendente grupo de pessoas que reuniu, 
acrescentando este intrigante comentrio: "Deus no se envergonha deles, de ser chamado o seu Deus." Para mim aquela frase d um giro de 180 graus no comentrio 
de Dorothy Sayer quanto s trs grandes humilhaes de Deus - a Igreja, em especial, tem causado vergonha para Deus, mas tambm tem lhe trazido momentos de orgulho, 
e os desolados santos de Hebreus 11 mostram como.
      At os favoritos de Deus, especialmente os favoritos de Deus, no esto imunes a perodos de perplexidade, quando Deus parece calado. Como disse Paul Tournier, 
"Onde j no h qualquer oportunidade de dvida, tambm j no h qualquer oportunidade de f." A f requer incerteza, confuso. A Bblia inclui muitas provas do 
interesse de Deus - algumas bastante espetaculares - mas nenhuma garantia. Uma garantia, no final das contas, eliminaria toda a f.
Dois Tipos de F
      Para meu amigo Richard, a palavra "f" representava um obstculo central para ele crer: " s ter f", diziam outros cristos quando ele tinha dvidas. O que 
eles queriam dizer? Para ele parecia que "f" era um mtodo de evitar perguntas, no de responder-lhes.
      Parte da dificuldade, penso eu, se origina da maneira elstica como empregamos a palavra. Primeiro, empregamo-la para descrever sorvos enormes, ingnuos, quando 
uma pessoa engole o impossvel. Davi exercitou esse tipo de f extravagante quando caminhou resolutamente para encontrar-se com Golias, como tambm o fez o centurio 
romano a quem Jesus elogiou (Jesus ficou surpreso diante da inamovvel confiana do homem). Nos nossos dias "missionrios de f" escrevem relatos emocionantes do 
que pode ser o resultado de confiana. Essa  a "f como um gro de mostarda" que pode alimentar um orfanato ou mover uma montanha, e a Bblia contm muitos incentivos 
a isso.
      Mas J, junto com os santos de Hebreus 11, aponta para uma f com uma qualidade diferente, o tipo que venho assinalando aqui e ali neste livro sobre decepo 
com Deus. A confiana ingnua poder no sobreviver quando o milagre no ocorrer, quando a orao urgente no obtm resposta, quando uma densa neblina obscurece 
qualquer sinal do interesse divino. Tais perodos requerem um outro tipo de f, e empregarei a antiquada palavra "fidelidade" para essa f-que-se-mantm-a-qualquer-preo.
      Entrevistei uma jovem enfermeira cuja frustrao com Deus tinha diretamente razes na confuso que fazia entre os dois tipos de f. Criada num lar cristo, 
raras vezes teve dvidas de Deus, mesmo durante os anos na faculdade. Na parede de seu quarto estava pendurada uma pintura de Jesus com uma criana nos braos, ilustrando 
um belo poema, "Foot-prints" ("Pegadas"). Aquele quadro retratava a f na sua forma mais infantil: simplesmente creia em Deus e voc nem mesmo sentir o peso. Ao 
olhar para trs nas horas difceis, voc ver na areia as pegadas de uma nica pessoa, pois Jesus carregou voc em meio s circunstncias adversas.
      Com 24 anos de idade, essa enfermeira foi designada para trabalhar numa ala de cancerosos. Um a um, ela me contou os casos de pessoas de quem ela havia cuidado 
naquele local. Alguns dos seus pacientes haviam orado com f infantil, clamando a Deus por cura e consolo, por alvio da dor. No entanto, tiveram mortes cruis, 
terrveis. E a cada noite essa enfermeira voltava para casa, arrasada pelas cenas de sofrimento insolvel, e via o quadro com as pegadas, quadro com suas promessas 
auspiciosas, fascinantes.
      Para entender nitidamente este dilema, simplesmente leia dois salmos vizinhos. Comece pelo Salmo 23: "O Senhor  o meu pastor: nada me faltar... Guia-me... 
No temerei mal nenhum... Bondade e misericrdia certamente me seguiro todos os dias da minha vida." Ento volte uma pgina e leia o Salmo 22. "Deus meu, Deus meu, 
por que me desamparaste? ... clamo de dia e no me respondes... Posso contar todos os meus ossos; eles me esto olhando e encarando em mim."
      O Salmo 23  um exemplo da f infantil; o Salmo 22  um exemplo da fidelidade, um tipo de f mais profunda, mais misteriosa. A vida com Deus pode incluir ambos. 
Podemos experimentar perodos de intimidade incomum, quando cada orao  respondida de uma maneira bvia e Deus parece ntimo e cuidadoso. E tambm podemos experimentar 
"perodos de neblina", quando Deus permanece calado, quando nada funciona de acordo com o convencionado e todas as promessas da Bblia parecem ostensivamente falsas. 
A fidelidade significa aprender a crer que, fora do permetro de nvoa cinzenta, Deus ainda reina e no nos abandonou, no importam as aparncias.
      Paradoxalmente, as ocasies de maior perplexidade, parecidas com as de J, ajudam a "fertilizar" a f e a nutrir uma comunho ainda mais profunda com Deus. 
A f mais profunda, que tenho chamado de fidelidade, brota num ponto de contradio, como uma folha de grama brota entre pedras. Os seres humanos crescem por estafar, 
trabalhar, exercitar; e, num certo sentido, a natureza humana precisa mais de problemas do que de solues. Por que nem todas as oraes so respondidas mgica e 
instantaneamente? Por que cada novo convertido tem de percorrer a mesma e entediante senda da disciplina espiritual? Porque a orao perseverante, e o jejum, e o 
estudo, e a meditao tm o propsito bsico de ajudar a ns, no a Deus.
      O filsofo dinamarqus Sren Kierkegaard disse que os cristos faziam-no lembrar de estudantes que desejam olhar as respostas dos seus problemas de matemtica, 
respostas estas que esto no fim do livro, em vez de resolver os problemas. Confesso que sou assim, e duvido que seja o nico. Ansiamos por atalhos. Mas os atalhos 
geralmente nos afastam do crescimento, no nos aproximam dele. Aplique esse princpio diretamente em J: qual foi o resultado final do teste pelo qual passou? Como 
disse o rabino Abraham Heschel, "Uma f como a de J no pode ser sacudida porquanto  o resultado de ter sido sacudida."
      Num artigo sobre a orao, C. S. Lewis sugeriu que Deus trata os novos cristos com um tipo especial de ternura, bem parecida com a que um pai dispensa a um 
recm-nascido. Ele cita um cristo experiente: "Tenho visto muitas respostas impressionantes a oraes, e mais de uma vez vi uma resposta que achei um milagre. Mas 
geralmente elas vm no incio, antes da converso, ou logo aps.  medida que a vida crist transcorre, elas tendem a ser mais raras. As respostas negativas s oraes, 
de igual forma, no so apenas mais freqentes; tornam-se mais inconfundveis, mais enfticas."
       primeira vista, uma idia dessas parece estar virada s avessas. No devia a f se tornar mais fcil, e no mais difcil,  medida que o cristo progride? 
Mas, como assinala Lewis, o Novo Testamento oferece dois grandes exemplos de oraes no respondidas: Jesus implorou trs vezes a Deus; "Passa de mim este clice", 
e Paulo suplicou a Deus que curasse seu "espinho na carne".
      Lewis indaga: "Quer dizer ento que Deus abandona justo aqueles que o servem melhor? Bem, aquele que o serviu melhor do que todos disse, perto de sua excruciante 
morte: 'Por que me desamparaste?' Quando Deus se torna homem, aquele Homem, dentre todos os demais,  o que, em Sua maior necessidade, menos recebe consolo de Deus. 
Aqui h um mistrio que, mesmo que eu tivesse condies, talvez no tivesse a coragem de explorar. Nesse nterim,  melhor que pessoas como voc e eu, superando 
todas as esperanas e probabilidades, tendo nossas oraes s vezes atendidas, no tiremos concluses apressadas quanto s vantagens que ns mesmos temos. Se fssemos 
mais fortes, talvez fssemos tratados com menos ternura. Se fssemos mais corajosos, talvez fssemos enviados, com bem menos ajuda, para defender posies bem mais 
crticas na grande batalha."
A Pergunta Inevitvel
      As palavras de C. S. Lewis soam marcantemente. No entanto, simplesmente no posso reduzir a uma frmula o padro de fidelidade - f enrijecida atravs das 
provaes. Este livro comeou com a histria de Richard, que estava seguro e bem firme at que sua f foi testada e ele sentiu-se trado. Por que Deus tinha de submeter 
Richard ou quem quer que ele ame a um teste desses? Richard no mais conseguiu confiar num Deus assim. E tenho conversado com muitos outros cuja f exuberante, infantil, 
afundou na hora da provao.
      Assim, uma pergunta inevitvel est latente logo abaixo da superfcie do Livro de J. Se, devido a um "teste" de amor, um marido submetesse a esposa ao trauma 
que J teve de suportar, ns o chamaramos de mente doentia e o internaramos. Se uma me se escondesse dos filhos, recusando-se a orient-los desde a margem, na 
hora da neblina, ns a julgaramos uma me incapaz. Como, ento, podemos compreender tal comportamento, tal Aposta, por parte do prprio Deus?
      No ofereo uma soluo engenhosa, apenas as seguintes observaes.
      1. Temos pouqussima compreenso do que nossa f significa para Deus. Por alguma razo misteriosa, o terrvel ordlio de J "valeu a pena" para Deus porque 
foi ao mago de toda a experincia humana. Mais do que a f de J, estava em jogo o motivo por trs de toda a criao. Desde o momento em que Deus assumiu o "risco" 
de abrir espao para seres humanos livres, a f - a f verdadeira, no comprada, livremente oferecida - tem tido para Deus um valor intrnseco que mal podemos imaginar. 
No h forma melhor de expressar amor a Deus do que exercer f, ou fidelidade.
       errado dizer que Deus "necessite" do amor de sua criao, mas lembre-se de como o prprio Deus expressou seu "anseio" por aquele amor: como um pai faminto 
de alguma resposta, qualquer resposta, da parte de seus filhos rebeldes; como um amante abandonado que, sem qualquer lgica, d mais uma chance  sua infiel amada. 
So essas as imagens que Deus evocou repetidas vezes durante todo o perodo dos profetas. Os mais profundos anseios que, na qualidade de pais, de amantes, sentimos 
na terra so meros vislumbres do vido desejo que Deus sente por ns.  um desejo que custou-lhe a Encarnao e a Crucificao.
      Todas as metforas humanas so incapazes de tratarem adequadamente desses temas, mas isso ocorre por serem incompletas, no por exagerarem. Como disse Jesus, 
no final da histria (quando a neblina se levantar definitivamente) s importar uma questo: "Quando vier o Filho do homem, achar porventura f na terra?" E o 
apstolo Paulo, aps esboar a histria do mundo desde a criao at Jesus, concluiu, dizendo que Deus assim havia procedido para os homens "buscarem a Deus se, 
porventura, tateando o possam achar, bem que no est longe de cada um de ns". Enviar seu Filho foi o "preo" que Deus teve de pagar; uma resposta de algum como 
J - ou voc ou eu - representa a "recompensa".
      Admito que  difcil para qualquer um de ns, com nossa viso limitada, perceber a "recompensa" ganha com as tribulaes de J. C. S. Lewis tem talvez tocado 
num ponto central em seu comentrio sobre Deus nos enviar a "posies bem mais crticas na grande batalha". Conforme a Bblia, os seres humanos atuam como os principais 
soldados de infantaria no combate entre as foras invisveis do bem e do mal; e a f  a nossa arma mais poderosa. Talvez Deus nos envie a posies perigosas tendo 
a mesma mistura de amor, angstia e remorso que qualquer pai sente quando envia um filho para a guerra.
      A tribulao de J "valeu" para Deus? S Deus pode responder. At agora tenho concludo que a soberania divina significa pelo menos isto: s Deus pode decidir 
o que  de valor para ele. "Bem-aventurados os que no viram, e creram", disse Jesus numa repreenso branda ao desconfiado Tom. J viu o lado escuro da vida, ouviu 
o mais profundo silncio de Deus, e ainda creu.
      2. Deus no se eximiu das mesmas exigncias de f. As tribulaes de J no podem ficar isoladas do seu eco mais forte na vida de Jesus. Ele tambm foi tentado. 
Ele tambm perdeu tudo o que tinha de valor, inclusive os amigos e a sade. Conforme diz Hebreus, ele, "tendo oferecido, com forte clamor e lgrimas, oraes e splicas 
a quem o podia livrar da morte...", no fim perdeu a vida.
      Jamais conseguiremos desvendar completamente o mistrio do que houve na cruz, mas isso nos oferece o consolo de que Deus no deseja submeter suas criaturas 
a qualquer teste que ele mesmo no tenha suportado. Ao longo dos anos tenho conversado com muitas pessoas sofredoras, e, por mais que eu enfatize, no consigo expressar 
o quo importante esse fato parece para eles. De pessoas famosas como Joni Eareckson Tada, de desconhecidos em hospitais pblicos, de internos em prises infernais 
do Terceiro Mundo, tenho ouvido algo assim: "Por causa de Deus, pelo menos Deus sabe como  que me sinto."
      Penso de novo no comentrio de Richard: "Tudo o que posso dizer  que J suportou um inferno s para fazer Deus se sentir bem!" Ele estava pensando em J, 
sentado nas cinzas, coando as feridas. Mas, enquanto ele dizia essas palavras, eu estava pensando em Jesus, pendurado numa cruz, incapaz de alcanar suas feridas. 
Tive de concordar. De fato, foi um preo infernal. Num certo sentido, Deus amarrou as prprias mos na Aposta sobre J; no sentido mais literal, deixou que suas 
mos fossem amarradas na noite da crucificao. (Jesus, falando de sua morte: "Agora est angustiada a minha alma, e que direi eu? Pai, salva-me desta hora? mas 
precisamente com este propsito vim para esta hora. Pai, glorifica o teu nome.")
      No estudo que fiz da Bblia, chamou-me a ateno uma mudana radical nas atitudes de seus autores quanto ao sofrimento, uma mudana que tem origem diretamente 
na cruz. Quando os escritores do Novo Testamento falam de tempos difceis, nada expressam da indignao que caracterizou J, os profetas e muitos dos salmistas. 
No oferecem qualquer explicao concreta para o sofrimento, mas ficam apontando para dois acontecimentos - a morte e a ressurreio de Jesus - como se eles formassem 
uma espcie de resposta pictogrfica.
      A f dos apstolos, como admitiram livremente, repousava totalmente no que acontecera no Domingo de Pscoa, quando Deus transformou a maior tragdia de toda 
a histria, a execuo de seu Filho, num dia que hoje comemoramos como a Sexta-Feira Santa. Aqueles discpulos, que fitaram a cruz desde as sombras, logo aprenderam 
o que tinham deixado de aprender nos trs anos com seu lder: Quando Deus parece ausente, pode estar mais perto do que nunca. Quando Deus parece morto, pode estar 
tornando a viver.
      O padro de trs dias - tragdia, trevas, triunfo - tornou-se para os escritores do Novo Testamento um gabarito que se pode aplicar a todos os nossos momentos 
de teste. Podemos olhar para trs, para Jesus, a prova do amor de Deus, muito embora talvez jamais obtenhamos uma resposta para o nosso "Por qu?" A Sexta-Feira 
Santa demonstra que Deus no nos abandonou em nossa dor; ele tambm est "aflito... oprimido''. Naquele dia o prprio Jesus experimentou o silncio de Deus - foi 
o Salmo 22, no o 23, que ele citou na cruz.
      E o Domingo de Pscoa mostra que, no final, o sofrimento no vai triunfar. Assim sendo, "tende por motivo de toda a alegria o passardes por vrias provaes", 
escreve Tiago; e "nisso exultais, embora, no presente, por breve tempo, se necessrio, sejais contristados por vrias provaes", escreve Pedro; e "agora me regozijo 
nos meus sofrimentos por vs", escreve Paulo. Os apstolos passam ento a explicar qual o bem que pode resultar de tal "sofrimento redimido": maturidade, sabedoria, 
f autntica, perseverana, carter e muitas recompensas vindouras.
      Por que regozijar-se? No por causa da sensao masoquista da prpria tribulao, mas porque aquilo que Deus fez em grande escala no Domingo de Pscoa ele 
pode fazer em pequena escala em favor de cada um de ns. As aflies de que se ocupam Tiago, Pedro e Paulo provavelmente teriam desencadeado uma grande crise de 
f no Antigo Testamento. Mas os escritores do Novo Testamento vieram a crer que, no dizer de Paulo, "todas as cousas cooperam para o bem".
      Aquele texto bem conhecido  freqentemente distorcido. Algumas pessoas interpretam seu significado como sendo:
      "S coisas boas acontecero queles que amam a Deus." Paulo quis dizer exatamente o oposto, e j no pargrafo seguinte ele define o tipo de coisas que podemos 
esperar: tribulao, angstia, perseguio, fome, nudez, perigo, espada. Paulo suportou tudo isso. No entanto ele insiste que "em todas estas cousas, porm, somos 
mais que vencedores"; por maior que seja a dificuldade, ela no pode nos separar do amor de Deus.  uma questo de tempo, afirma Paulo. Apenas aguarde: o milagre 
de Deus transformar uma sexta-feira sombria, silenciosa, em Domingo de Pscoa ser algum dia ampliado numa escala csmica.

Embora, como disfarce, nuvens de ira teu rosto tem, Assim mesmo, atravs daquela mscara, vejo aqueles olhos, Os quais, embora algumas vezes se apartem, Jamais trataro 
alguma pessoa com desdm.
- John Donne, A Hymn to Christ ("Um Hino a Cristo")

Tudo que existe de difcil indica algo mais do que nossa teoria de vida consegue abarcar.
- George MacDonald
*
Referncias bblicas: J 13; Gnesis 22; 2 Crnicas 32; Mateus 8, 17; Marcos 14; 2 Corntios 12; Marcos 15; Lucas 18; Atos 17; Joo 20; Hebreus 5; Joo 12; Isaas 
53; Tiago 1; 1 Pedro 1; Colossenses 1; Filipenses 3; Romanos 8.
***
Eis que se me adianto, ali no est;
se torno para trs, no o percebo.
Se opera  esquerda, no o vejo;
esconde-se  direita, e no o diviso.
- J 23: 8-9
***
Captulo 27 - Por Que Deus No Intervm
      SEI O QUE meu amigo Richard pensaria acerca das idias destes captulos finais. Na realidade, sei exatamente o que ele pensa porque discuti durante horas com 
ele a respeito. Richard, voc talvez se recorde, havia escrito um livro sobre J, de modo que no precisei repassar a histria de J com ele. Em vez disso, eu me 
concentrei no final do livro, especulando em voz alta por que Deus tinha se recusado a responder a J. Repeti cuidadosamente meus pensamentos sobre a atemporalidade, 
e a incapacidade de J em compreender a perspectiva de Deus, e o valor intrnseco da f em Deus.
      Richard ouviu atentamente, e, quando terminei de percorrer as minhas idias, balanou a cabea em sinal de aprovao. - Gostei, Philip.  bem possvel que 
voc esteja certo. No discordo do que voc diz. Mas h uma grande diferena entre a histria de J e a minha. No final das contas, J chegou a receber uma palavra 
da parte de Deus. Supe-se que ele ouviu uma voz de verdade, vinda do redemoinho. Mas no meu caso, Deus ficou quieto. E acho que essa  a razo por que J escolheu 
crer, e eu escolhi no crer.
       medida que avanamos na conversa, ficou claro que Richard simplesmente no podia aceitar a noo de dois mundos. Vivendo num mundo visvel de rvores, edifcios, 
carros e pessoas, ele no conseguia crer num outro mundo, invisvel, coexistindo com o primeiro.
      - Quero provas - disse. - Como posso ter certeza at mesmo de que Deus existe se ele no entrar em meu mundo?
      A conversa transportou-me de volta a uma poca quando eu tambm era ctico. Por ironia, Richard perdeu a f numa faculdade evanglica, cercado por crentes 
que professavam um conhecimento ntimo de Deus; e foi num ambiente parecido - tambm numa faculdade evanglica - que achei mais difcil ter f.
A Opinio de um Ctico
      Topei com a mesma pedra de tropeo com que Richard topara: atividades consideradas como "espirituais" pelos crentes da faculdade pareciam-me profundamente 
corriqueiras. Se o mundo invisvel estava realmente fazendo contato com o mundo visvel, onde estavam as chamuscadas, os sinais seguros de uma Presena sobrenatural?
      Considere, por exemplo, a questo da orao: os crentes pareciam distorcer acontecimentos para fazer com que tudo parecesse uma resposta de orao. Se um tio 
enviasse um dinheiro extra para ajudar a pagar as contas na escola, abriam um largo sorriso e convocavam uma reunio de orao para agradecer a Deus. Aceitavam essas 
"respostas de orao" como prova definitiva de que Deus estava l fora ouvindo seus pedidos. Mas eu sempre conseguia encontrar uma outra explicao. Talvez, naquele 
ms, o tio tivesse enviado a todos os sobrinhos um dinheiro extra, e as oraes eram uma simples coincidncia. Afinal, eu tambm tinha um tio que ocasionalmente 
me enviava alguma coisa, embora eu nunca tivesse orado pedindo algo assim. E que dizer dos muitos pedidos desses estudantes que ficavam sem resposta? Para mim parecia 
que a orao no envolvia nada mais do que falar para as paredes e uma profecia ocasional que se cumpria sozinha.
      Como experincia, comecei a imitar o comportamento "espiritual" na faculdade. Eu orava fervorosamente nas reunies de orao, dava testemunhos falsos quanto 
 minha converso e enchia o meu vocabulrio com jargo religioso. E funcionava. Eu, o ctico, logo fui aceito como um santo de verdade, s por seguir a frmula 
prescrita. Minhas dvidas se confirmaram: ser que a experincia crist podia ser autntica se, em sua maior parte, podia ser reproduzida convincentemente por um 
ctico?
      Encetei essa experincia como resultado de minhas leituras em psicologia da religio. Livros como As Variedades da Experincia Religiosa, de William James, 
persuadiram-me de que a religio no passava de uma complexa reao psicolgica s tenses da vida. William James examinou as afirmaes de homens religiosos como 
Jonathan Edwards, que insistia que o cristo sincero  uma nova criatura surgida a partir de um novo tecido. Mas, concluiu William James, "Como categoria, os homens 
convertidos so indistinguveis dos homens naturais; com seus frutos alguns homens naturais at mesmo superam alguns homens convertidos; e ningum que desconhea 
a teologia doutrinria  capaz de, por meio de uma simples inspeo nos 'acidentes' dos dois grupos de pessoas, imaginar que haja diferena na substncia deles da 
mesma forma como h diferena entre a substncia divina e a humana." Eu tambm no conseguia enxergar qualquer brilho incomum, qualquer caracterstica distintiva 
nos crentes ao meu redor.
      Por razes que explicarei mais tarde, no permaneci ctico. Mas, com toda honestidade, tenho de admitir que mesmo agora, depois de duas dcadas de uma f rica 
e recompensadora, sou vulnervel ao tipo de dvida experimentada por Richard. A experincia espiritual no suporta facilmente a introspeco; acenda um refletor 
de luz sobre ela, e ela se evapora. Se investigo meus momentos de comunho com Deus, geralmente posso descobrir uma outra explicao, mais natural, para aquilo que 
aconteceu. No h qualquer diferena gritante entre os mundos natural e sobrenatural, qualquer abismo demarcado com arame farpado a separar os dois mundos.
      No deixo de ser uma pessoa "natural" quando oro: fico com sono, perco a concentrao e, enquanto converso com Deus, experimento as mesmas frustraes e dificuldades 
de comunicao que tenho enquanto converso com outras pessoas. Quando escrevo sobre assuntos "espirituais", no acontece de eu me ver repentinamente erguido em direo 
ao cu; ainda tenho de apontar os lpis, riscar palavras, consultar o dicionrio e jogar fora interminveis comeos de rascunho. Exemplos de "conhecer a vontade 
de Deus" em minha vida jamais foram to diretos e objetivos como os exemplos que vejo na vida de um Moiss ou um Gideo. Nunca ouvi a Voz estrondosa vinda do redemoinho. 
Caso quisesse, eu poderia fazer o que Richard faz agora: racionalizar o comportamento espiritual como alguma combinao de teorias psicolgicas.
      Por que, ento, creio num mundo invisvel? Nessa luta recebi grande ajuda com os escritos de C. S. Lewis. O tema de dois mundos  algo que permeia a maior 
parte de sua obra - nos primeiros escritos, em cartas aos amigos e em toda a sua obra de fico, at que o tema, por fim, amadurece numa teoria plenamente desenvolvida, 
num ensaio intitulado Transposition ("Transposio", que faz parte da coleo The Weight of Glory "O Peso da Glria"). Lewis definiu o problema como sendo o da "continuidade 
bvia entre coisas que se reconhece que sejam naturais e coisas que, afirma-se, so espirituais; o ressurgimento, naquilo que se acredita ser nossa vida espiritual, 
de todos os mesmos antigO3 elementos que constituem nossa vida natural". A maior parte do que segue neste captulo ser uma recolocao de suas idias.
Olhando ao Longo do Feixe de Luz
      Lewis iniciou seu ensaio fazendo referncia ao curioso fenmeno de glossollia, ou falar em lnguas. Como  curioso, comentou, que um acontecimento inegavelmente 
"espiritual", a descida do Esprito Santo no Pentecostes, se expressasse no estranho fenmeno humano de falar em um outro idioma. Para os espectadores de Pentecostes, 
isso fazia lembrar a embriaguez; para muitos observadores "cientficos" de nossos dias a glossollia faz lembrar histeria ou um desequilbrio nervoso. Como  que 
aes assim naturais, como  o caso do movimento das cordas vocais, podem expressar a habitao sobrenatural por parte do Esprito Santo de Deus?
      Lewis sugeriu a analogia de um feixe de luz num escuro depsito de ferramentas. Quando, pela primeira vez, entrou num depsito, viu um raio de luz e olhou 
para o luminoso feixe de brilho, repleto de partculas de poeira flutuando. Mas, quando se aproximou do feixe e olhou ao longo dele, ganhou uma perspectiva bem diferente. 
Repentinamente viu no o feixe, mas, emolduradas pela janela do depsito, folhas verdes balouando nos galhos de uma rvore l fora e, alm da rvore, a 149 milhes 
de quilmetros de distncia, o Sol. Olhar para o feixe de luz e olhar ao longo do feixe de luz so coisas bem diferentes.
      Nosso sculo  insupervel em tcnicas de olhar para o feixe; "reducionismo"  a palavra mais comumentemente empregada para descrever esse processo. Podemos 
"reduzir" o comportamento humano a neurotransmissores e enzimas, reduzir borboletas a molculas de DNA, e reduzir pores-do-sol a ondas com partculas de luz e energia. 
Em suas formas mais extremas, o reducionismo encara a religio como projeo psicolgica, histria mundial como luta evolucionista e o prprio pensamento como apenas 
a abertura e fechamento de bilhes de "bytes" de computador, no crebro.
      Este mundo moderno, to traquejado em olhar de todos os ngulos para o feixe de luz,  um mundo hostil  "f". Atravs da maior parte da histria, todas as 
sociedades normalmente aceitaram a existncia de um mundo invisvel e sobrenatural. De que outra forma poderiam explicar maravilhas tais como um nascer do Sol, um 
eclipse, uma tempestade? Mas agora podemos explic-los, e mais do que isso. Podemos reduzir a maioria dos fenmenos naturais, e at mesmo a maioria dos fenmenos 
espirituais, aos elementos que os compem. Como Lewis observou acerca da glossollia, at mesmo os atos mais "sobrenaturais" expressam-se nesta terra em formas "naturais".
      A teoria da transposio oferece as seguintes observaes para pessoas que vivem num mundo como este.
1. Primeiro, temos de simplesmente reconhecer a fora poderosa do reducionismo. Essa fora oferece tanto uma bno quanto uma maldio. Abenoa-me com a capacidade 
de analisar os terremotos e temporais e furaces e, dessa forma, de nos defendermos deles. Por termos olhado para o feixe, aprendemos a voar - at mesmo ir  Lua 
e voltar - e a dar um passeio pelo mundo enquanto temos os olhos fitos numa telinha nas salas de nossos lares, e a trazer os sons de orquestras at nossos ouvidos 
no mesmo instante em que fazemos cooper em estradas rurais. Ao olhar para o feixe do comportamento humano, podemos reconhecer componentes qumicos e, dessa forma, 
mediante remdios, tirar pessoas de estados profundos de depresso e esquizofrenia.
      Mas o reducionismo tambm tem trazido uma maldio. Por olhar para o feixe, em vez de ao longo dele, arriscamo-nos a ter a pressuposio de que a vida consiste 
de nada alm das partes que analisamos. Jamais tornaremos a observar o nascer do Sol ou da Lua com a mesma sensao de reverncia e quase adorao que nossos "primitivos" 
ancestrais - ou mesmo os poetas do sculo dezesseis - sentiram. E, se reduzirmos o comportamento humano a apenas hormnios e qumica, perderemos todo o mistrio 
humano e livre-arbtrio e romantismo. Os ideais de amor romntico que tm inspirado artistas e amantes atravs dos sculos repentinamente se reduzem a uma questo 
de secrees hormonais.
      O reducionismo pode exercer em ns uma influncia indevida a menos que o interpretemos tal como : uma maneira de olhar. No  um conceito de Verdade ou Falsidade; 
 um ponto de vista que nos informa acerca das partes de uma coisa, mas no do todo.
      Pode-se ver as atividades espirituais, por exemplo, a partir de um ponto de vista inferior ou superior. Um no suplanta o outro; cada um apenas enxerga diferentemente 
o mesmo comportamento (da mesma forma como olhar para um feixe de luz  diferente de olhar ao longo dele). Da perspectiva "inferior", a orao  uma pessoa falando 
consigo mesma (e a glossollia no passa de uma fala sem sentido). A perspectiva "superior" presume uma realidade espiritual em ao, com a orao humana servindo 
de ponto de contato entre os mundos visvel e invisvel.
      Posso assistir a uma cruzada evangelstica de Billy Graham como um espectador curioso e ter o cuidado de escolher uma pessoa no vasto auditrio, especulando 
a respeito de todos os fatores sociolgicos e psicolgicos que podem induzir essa mulher em questo a estar receptiva  mensagem de Billy Graham. Seu casamento est 
se destroando; ela est procurando estabilidade; ela se recorda da fora de vontade de uma av muito piedosa; a msica a faz recordar de experincias na igreja, 
quando era criana. Mas esses fatores "naturais" no excluem o sobrenatural; ao contrrio, podem ser o meio que Deus escolhe para trazer a pessoa para junto de si. 
Talvez a continuidade entre o natural e o sobrenatural seja uma continuidade de propsito por parte do mesmo Criador. Esse, pelo menos,  o ponto de vista "superior" 
da f. Um ponto de vista no exclui o outro; so duas maneiras de olhar para o mesmo acontecimento.
      2.  Curiosamente, o ponto de vista inferior pode at parecer mais importante do que o superior. C. S. Lewis chama a ateno para isso com uma ilustrao de 
sua infncia. Lewis conta como ouviu, pela primeira vez, os acordes de msica instrumental. Foi atravs de um gramofone primitivo que produzia um som nico e indistinto. 
Ele podia ouvir a melodia, mas no muito mais do que isso. Mais tarde, quando foi pela primeira vez assistir a concertos ao vivo, ficou profundamente decepcionado. 
Uma multido de sons vinha de muitos instrumentos que tocavam diferentes notas. Ele ansiava pela msica "genuna," que para seu ouvido no treinado era o som rspido 
do gramofone. Para Lewis, naquele momento, o substituto parecia superior  realidade.
      De modo semelhante, uma pessoa criada com uma dieta constante de televiso poder achar que uma experincia real de alpinismo, cheia de pernilongos, falta 
de flego e repentinas mudanas de clima, seja inferior  experincia vicria proporcionada por um bom documentrio.
      Ainda mais relevante  o fato de que o ponto de vista inferior pode parecer mais importante em questes morais. O ideal do amor romntico inspirou nossos maiores 
sonetos e romances e peras. Mas reducionistas como Hugh Hefner, o fundador da revista Playboy, atualmente argumentam com grande desenvoltura que o sexo  superior 
quando liberado dos limites do amor e do relacionamento. (Com certeza a revista Playboy apela muito mais s emoes viscerais do que as obras da poetisa inglesa 
Elizabeth Barrett Browning.) E os secularistas, descartando a religio, considerando-a uma muleta, sadam o desafio "mais ousado" de sobreviver neste mundo sem apelar 
a um Ser superior.
      3. A realidade do mundo superior  transmitida pelas faculdades do mundo inferior. A palavra "transposio" pertence ao vocabulrio da msica. Uma msica pode 
ser transposta de uma escala musical para outra. Ou pode-se transpor uma pea sinfnica, composta para 110 instrumentos de orquestra, numa verso para piano. Naturalmente 
algo se perder na transposio: dez dedos tangendo as teclas do piano no conseguiro reproduzir todas as nuanas auditivas de uma orquestra. Assim mesmo, aquele 
que transpe, apesar de limitado pelo conjunto de sons feitos por aquelas teclas, de alguma forma deve reproduzir, atravs delas, a essncia da sinfonia.
      C. S. Lewis citou um registro feito pelo escritor Samuel Pepys em seu dirio, registro acerca de um extasiante concerto musical. Pepys disse que o som dos 
instrumentos de sopro era to agradvel que o arrebatou "e, alis, em outras palavras, se apossou de minh'alma de modo que me deixou de fato doente, da mesma forma 
como anteriormente eu me havia sentido quando me apaixonei pela minha esposa". Tente analisar a fisiologia de qualquer reao emocional, sugeriu Lewis. O que acontece 
em nossos corpos quando experimentamos a beleza, ou o orgulho, ou o amor? Para Pepys esse foi um sentimento arrebatador e, ao mesmo tempo, no diferente da nusea. 
Ele sentiu um golpe no estmago, um tremor, uma contrao muscular - exatamente as mesmas reaes corporais que poderia sentir num momento de enfermidade!
      Encaradas do ponto de vista inferior, nossas reaes fsicas  alegria e ao medo so quase idnticas. Em ambos os casos as glndulas supra-renais segregam 
o mesmo hormnio, e neurnios no aparelho digestivo disparam as mesmas substncias qumicas; mas o crebro interpreta uma mensagem como alegria e a outra como medo. 
Em seus nveis inferiores, o corpo humano tem um vocabulrio limitado, da mesma forma como aquele que adapta uma pea musical tem um nmero limitado de teclas de 
piano para expressar os sons de uma orquestra completa.
      E  a onde o reducionismo revela sua maior fraqueza: se voc olhar somente "para o feixe", reduzindo as emoes humanas a seus componentes mais bsicos (neurnios 
e hormnios), poder deduzir logicamente que alegria e medo so a mesma coisa, quando na verdade so quase que opostos. O corpo humano no possui clulas nervosas 
especialmente designadas para transmitir uma sensao de prazer - a natureza nunca  to esbanjadora. Todas as nossas experincias de prazer vm de clulas nervosas 
"emprestadas", as quais tambm levam sensaes de dor e tato e calor e frio.
Um Modo de Vida
      O crebro humano oferece um modelo quase perfeito de transposio. Embora o crebro represente o ponto de vista "superior" dentro do corpo, no existe rgo 
mais solitrio ou desamparado. Est situado numa caixa de ossos espessos, totalmente dependente das faculdades inferiores para obter informaes sobre o mundo. O 
crebro nunca v coisa alguma, nem sente o gosto de coisa alguma, nem sente o tato de coisa alguma. Todas as mensagens chegam at ele na mesma forma codificada, 
nossas muitas experincias sensoriais reduzidas a uma seqncia eltrica de pontos e traos (-.-..-...-). O crebro depende completamente dessas mensagens, como 
num cdigo morse, vindas das extremidades, as quais ele ento rene para darem sentido.
      Enquanto escrevo, estou ouvindo a magnfica Nona Sinfonia de Beethoven. Que  aquela sinfonia seno uma srie de cdigos transpostos atravs do tempo e da 
tecnologia? Comeou como uma idia musical que Beethoven "ouviu" em sua mente (um feito mental extraordinrio, pois o compositor, na poca j totalmente surdo, s 
dispunha da memria para gui-lo e no pde testar sua idia em instrumentos musicais). Beethoven ento transps a sinfonia para o papel, utilizando uma srie de 
cdigos conhecidos como notao musical.
      Mais de um sculo depois, uma orquestra leu aqueles cdigos, interpretou-os, e reuniu-os num som maravilhoso, parecido com o que Beethoven deve ter "ouvido" 
em sua mente. Tcnicos de gravao registraram aquele som da orquestra como uma srie de impulsos magnticos ao longo de uma fita, e um estdio transps aquele cdigo 
numa forma mais mecnica, representada pelos minsculos sulcos ondulantes de meu disco.
      Meu toca-discos est agora "lendo" aqueles sulcos ondulados e amplificando as ondulaes atravs de alto-falantes. Vibraes moleculares provocadas por aqueles 
alto-falantes chegam at meus ouvidos, pondo em ao uma outra srie de atos mecnicos: ossos minsculos batem em meus tmpanos, transferindo as vibraes atravs 
de um lquido viscoso at o rgo de Corti, onde 25.000 clulas receptoras de som esto  espera. Uma vez estimuladas, as clulas correspondentes disparam sua mensagem 
eltrica. Finalmente, esses impulsos, simples pontos e traos em cdigo, alcanam meu crebro, onde o crtex as associa num som que reconheo como sendo a Nona Sinfonia 
de Beethoven. Experimento satisfao, at mesmo prazer, enquanto fao uma pausa e ouo aquela grande obra musical - o prazer sendo mais uma vez transmitido a mim 
mediante as faculdades "inferiores" de meu corpo.
      A transposio  um modo de vida. Todo o conhecimento chega at ns atravs de um processo de traduzir, no sentido descendente, num cdigo, e ento, num sentido 
ascendente, recuperando o sentido. Acabei de escrever trs pargrafos sobre a Nona Sinfonia de Beethoven. Foram pensamentos que se originaram na minha mente, os 
quais ento transpus em palavras e digitei num computador. O computador registrou as palavras em cdigo, num disquete magntico. No fim, meu computador ir transpor 
aquele cdigo magntico em um cdigo binrio, e um aparelho chamado modem transpor o cdigo binrio em sons digitais e os enviar, via telefone, at uma editora. 
Se eu ficar ouvindo enquanto o meu modem transmite os trs pargrafos sobre Beethoven, nada ouvirei seno uma massa de rudos desconexos. Assim mesmo acredito que 
este barulho de alguma forma contm meus pensamentos e palavras.
      O computador da editora, ao receber os sons digitais, os traduzir de novo em cdigos magnticos armazenados num disquete. A editora retraduzir esses cdigos 
em palavras visveis numa tela de monitor e ento transpor as palavras em sinais padronizados de tinta no papel - os prprios sinais de tinta que voc est lendo 
agora mesmo. Para o seu olho treinado, essas gotas de tinta numa pgina constituem letras e palavras que so transmitidas s clulas de seu olho e transpostas em 
impulsos eltricos que seu crebro est decodificando.
      Toda comunicao, todo conhecimento, toda experincia sensorial - toda a vida deste planeta - depende do processo de transposio: o significado viaja "em 
sentido descendente" at cdigos que podem ser mais tarde decifrados. Instintivamente, confiamos nesse processo, crendo que os cdigos inferiores realmente transportam 
algo do significado original. Creio que as palavras que escolho, e at as transmisses estticas de meu modem, transmitiro meus pensamentos originais sobre a Nona 
Sinfonia de Beethoven. Olho para uma fotografia, uma imagem das Montanhas Rochosas transposta numa folha pequena, plana, reluzente, e mentalmente me recordo de uma 
visita quele local. Arranho o anncio numa revista para cheirar uma amostra de perfume, e a imagem de minha esposa, que usa aquele perfume, repentinamente me vem 
 mente. O inferior transporta algo do superior.
Transposio do Esprito
      Ser, ento, que deveramos ficar surpresos em encontrar o mesmo princpio universal atuando no mbito do esprito?
      Pense de novo nas perguntas de Richard, expostas no incio deste livro e reapresentadas no comeo deste captulo. Por que Deus no intervm e se torna bvio? 
Por que no fala em voz alta para que possamos ouvi-lo? Ansiamos pelo miraculoso, pelo sobrenatural em sua forma mais pura e inalterada.
      Escolhi a palavra "inalterada" deliberadamente porque revela um sentimento que  central nesta questo. Ns, os modernos, lutamos por separar o natural do 
sobrenatural. O mundo natural que podemos tocar e cheirar e ver e ouvir parece auto-evidente; o mundo sobrenatural, entretanto,  outra questo. No h nada seguro 
a respeito, no tem carne nem ossos, e isso nos perturba. Queremos provas. Queremos que o sobrenatural entre no mundo natural de uma forma que retenha o fulgor, 
que deixe chamuscos, que matraqueie os tmpanos.
      O Deus revelado na Bblia no parece partilhar de nosso desejo. Enquanto separamos o natural do sobrenatural, o visvel do invisvel, Deus procura conciliar 
os dois. Seu objetivo, algum poder dizer,  resgatar o mundo "inferior", restaurar o domnio natural da criao decada ao seu estado original, onde esprito e 
matria convivem em harmonia.
      Quando nos tornamos cristos e assim estabelecemos contato com o mundo invisvel, no somos transportados misteriosamente para cima; no vestimos repentinamente 
corpos espaciais que nos tiram do mundo natural (desde os gnsticos e maniquestas a igreja tem consistentemente julgado tais noes como sendo herticas). Em vez 
disso, nossos corpos fsicos religam-se  realidade espiritual, e comeamos a ouvir o cdigo mediante o qual o mundo invisvel se transpe neste. Nossa tarefa  
exatamente o contrrio do reducionismo. Buscamos meios de tornar a cativar ou "santificar" o mundo: ver na natureza um instrumento de louvor, ver no po e no vinho 
um sacramento de graa, ver no amor humano uma sombra do Amor ideal.
      Reconhece-se que temos um vocabulrio limitado para este domnio superior. Falamos com Deus como se falssemos com uma outra pessoa; ser que alguma coisa 
poderia ser mais ordinria, mais "natural"? Orar, proclamar o evangelho, meditar, jejuar, oferecer um copo de gua fria, visitar os presos, celebrar os sacramentos 
- esses atos cotidianos, dizem-nos, carregam o significado "superior". De alguma forma expressam o mundo invisvel.
      Encarados desde a perspectiva inferior, reducionista, todos os atos espirituais possuem "explicaes" naturais. A orao  murmurar em vo; um pecador que 
se arrepende  emocionalismo planejado; o Dia de Pentecostes um surto de embriaguez. Um ctico poder dizer que as faculdades naturais so pauprrimas, se  que 
so de fato tudo o que temos para expressar o sublime mundo superior.
      A f, porm, olhando ao longo do feixe, enxerga tais atos naturais como transportadores santificados do sobrenatural. A partir dessa perspectiva, o mundo natural 
no est empobrecido, mas agraciado com o miraculoso. E o milagre de um mundo natural recuperado alcanou um clmax no Grandioso Milagre, quando a Presena real 
de Deus fez residncia num corpo "natural" exatamente como o nosso: o Verbo transposto em carne.
      Em um corpo, Cristo conciliou os dois mundos, unindo finalmente esprito e matria, unificando a criao de uma forma que no se via desde o den. O telogo 
Jrgen Moltmann assim o expressa, numa sentena que merece muita reflexo: "A corporificao  o propsito de todas as obras de Deus." E  assim que o apstolo Paulo 
o expressa: "Ele  a cabea do corpo, da igreja... porque aprouve a Deus que nele residisse toda a plenitude, e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, 
por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as cousas, quer sobre a terra, quer nos cus."
      Quando aquele Verbo-feito-carne ascendeu, deixou para trs sua Presena na forma de seu corpo, a igreja. Nossa bondade torna-se literalmente a bondade de Deus 
("Sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmos, a mim o fizestes"). Nosso sofrimento torna-se, no dizer de Paulo, "a comunho dos seus sofrimentos". 
Nossas aes tornam-se suas aes ("Quem vos recebe, a mim me recebe"). O que acontece a ns, acontece a ele ("Saulo, Saulo, por que me persegues?"). Os dois mundos, 
visvel e invisvel, fundem-se em Cristo; e ns, como Paulo sempre insistia, estamos mui literalmente "em Cristo". A incorporao  o propsito de toda obra de Deus, 
o objetivo de toda a criao.
      Olhando a partir de baixo, nossa tendncia  pensarmos em milagres como uma invaso, uma erupo no mundo natural com uma fora espetacular, e ns ansiamos 
por tais sinais. Mas a partir de cima, do ponto de vista de Deus, o milagre real  o da transposio; que corpos humanos possam tornar-se vasos cheios do Esprito, 
que atos humanos corriqueiros de caridade e bondade possam tornar-se nada menos do que a encarnao de Deus na terra.
      Para finalizar a analogia, no preciso procurar alm das palavras de Paulo, pois a imagem que ele apresenta para descrever o papel de Cristo no mundo de hoje 
 a mesma que empreguei para ilustrar a transposio. Jesus Cristo, disse Paulo, agora atua como a cabea do corpo. Sabemos como uma cabea humana realiza sua vontade: 
traduzindo, num sentido descendente, ordens que as mos e os olhos e a boca possam entender. Um corpo saudvel  aquele que segue a vontade da cabea. Dessa mesma 
maneira, o Cristo ressurreto realiza sua vontade atravs de ns, os membros de seu corpo.
      Deus est calado? Respondo a essa pergunta com uma outra: A igreja est calada? Ns somos seus porta-vozes, as cordas vocais que ele designou neste planeta. 
Um plano de uma transposio assim chocante garante que a mensagem de Deus algumas vezes parea confusa ou incoerente; garante que Deus algumas vezes parea calado. 
Mas a incorporao era o seu objetivo, e,  luz disso, o Dia de Pentecostes torna-se uma metfora perfeita: a voz de Deus na terra, falando atravs de seres humanos 
em formas que at eles no conseguiam compreender.
A Esperana
      Tenho uma amiga inteligente, talentosa e muito graciosa que mora em Seattle, nos Estados Unidos. Seu nome  Carolyn Martin. Mas Carolyn sofre de paralisia 
cerebral, e o drama especfico de sua situao  que os sinais visveis da enfermidade - movimentos desengonados com os braos, baba, fala com dificuldade, uma 
cabea bamboleante - levam as pessoas que se encontram com ela a ficar imaginando se ela  retardada. Na realidade, sua mente  uma das partes que funcionam perfeitamente; 
o que lhe falta  o controle muscular.
      Carolyn viveu quinze anos numa casa para retardados mentais, porque o Estado no tinha nenhum outro local onde p-la. Seus amigos mais chegados eram pessoas 
como Larry, que arrancava de si todas as roupas e comia as plantas ornamentais da instituio, e Arelene, que s sabia falar trs sentenas e chamava todo mundo 
de "mame". Carolyn decidiu escapar daquela casa e encontrar um lugar significativo para si no mundo l fora.
      Finalmente ela conseguiu mudar-se e ter o seu prprio lar. Ali, as tarefas mais triviais representavam um desafio avassalador. Levou trs meses para ela aprender 
a preparar um bule de ch e servi-lo nas xcaras sem se escaldar. Mas Carolyn alcanou esse e muitos outros feitos. Matriculou-se numa escola de segundo grau, formou-se, 
ento foi estudar na faculdade de sua cidade.
      Todo mundo no campus da faculdade conhecia Carolyn como "a deficiente fsica". Viam-na sentada numa cadeira de rodas, encurvada, com grande esforo datilografando 
as anotaes num aparelho denominado Canon Communicator. Poucos sentiam-se  vontade em conversar com ela; no conseguiam acompanhar os sons desordenados que fazia. 
Mas Carolyn perseverou, gastando sete anos para fazer um curso de cincias humanas que normalmente levaria dois anos para completar. Em seguida, ela matriculou-se 
numa faculdade luterana com o objetivo de estudar a Bblia. Depois de estar dois anos ali, solicitaram-lhe que falasse aos colegas na capela.
      Carolyn trabalhou muitas horas em cima do que ia falar. Datilografou a mensagem em sua forma definitiva - na sua velocidade mdia de quarenta e cinco minutos 
por pgina - e pediu  sua amiga Josee que a lesse em seu lugar. Josee tinha uma voz forte e clara.
      No dia do culto na capela, Carolyn estava sentada em sua cadeira de rodas, do lado esquerdo da plataforma. De quando em quando seus braos convulsionavam-se 
sem qualquer controle, sua cabea pendia para um dos lados de modo que quase encostava no ombro, e algumas vezes um filete de saliva escorria at a blusa. Ao seu 
lado estava Josee, que lia o texto belo e maduro que Carolyn havia escrito, centrado nesta passagem bblica: "Temos, porm, este tesouro em vasos de barro, para 
que a excelncia do poder seja de Deus e no de ns.''
      Pela primeira vez, alguns estudantes viram Carolyn como um ser humano completo, como eles mesmos. Antes disso, a mente de Carolyn, uma mente muito boa, tinha 
sempre sido restringida por um corpo "desobediente", e dificuldades de fala haviam mascarado sua inteligncia. Mas, ao ouvir sua mensagem lida em voz alta enquanto 
olhavam para ela no palco, os estudantes puderam enxergar alm do corpo numa cadeira de rodas e imaginar uma pessoa completa.
      Com sua fala entrecortada Carolyn me contou sobre aquele dia, e eu s consegui entender mais ou menos metade das palavras. Mas a cena que descreveu tornou-se 
para mim uma espcie de parbola da transposio: uma mente perfeita presa dentro de um corpo espstico, sem controle, e cordas vocais que falhavam a cada duas slabas. 
A imagem neotestamentria de Cristo como sendo a cabea do corpo assumiu um novo significado para mim; adquiri uma noo tanto da humilhao que Cristo experimenta 
em seu papel como cabea, como tambm da exaltao que concede a ns, os membros de seu corpo.
      Ns, a igreja, somos um exemplo da transposio levada ao extremo. Lamentavelmente no oferecemos prova inquestionvel do amor e da glria de Deus. Algumas 
vezes,  semelhana do corpo de Carolyn, obscurecemos a mensagem em vez de a transmitirmos. Mas a igreja  a razo por detrs de toda a experincia humana, a razo 
primeira para existirem seres humanos: para de alguma forma deixar que outras criaturas que no so Deus levem a imagem de Deus. Ele julgou que isto valia a pena, 
o risco e a humilhao.

Aquele que desceu  tambm o mesmo que subiu acima de todos os cus, para encher todas as cousas. E ele mesmo concedeu uns para apstolos, outros para profetas, 
outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeioamento dos santos para o desempenho do seu servio, para a edificao do corpo 
de Cristo, at que todos cheguemos  unidade da f e do pleno conhecimento do Filho de Deus,  perfeita varonilidade,  medida da estatura da plenitude de Cristo, 
para que no mais sejamos como meninos... Mas... cresamos em tudo naquele que  o cabea, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado, pelo auxlio 
de toda junta, segundo a justa cooperao de cada parte, efetua o seu prprio aumento para a edificao de si mesmo em amor.
*
Referncias bblicas: Colossenses 1; Mateus 25; Filipenses 3; Mateus 10; Atos 9; 2 Corntios 4, 5; Efsios 2, 4.
***
Por que escondes o teu rosto,
e me tens por teu inimigo? Queres aterrorizar uma folha arrebatada pelo vento?
e perseguirs a palha seca?
- J 13:24-25
***
Captulo 28 - Deus Est Escondido?
      PARA SENTIR todo o impacto emocional da terrvel condio de J, peneirei as palavras do prprio J das demais falas no livro. Eu esperava encontr-lo se queixando 
de sua pobre sade e lamentando a perda dos filhos e dos bens; mas, para minha surpresa, J disse relativamente pouco a respeito dessas questes. Ao invs disso, 
concentrou a ateno apenas no tema da ausncia de Deus. O que mais o machucava era a sensao de clamar desesperadamente e no receber qualquer resposta. Eu tinha 
ouvido esse mesmo sentimento sendo descrito por muitas pessoas que experimentaram o sofrimento. Talvez esse sentimento tenha sido melhor descrito por C. S. Lewis, 
que escreveu estas palavras em meio a profunda tristeza aps a morte da esposa, de cncer:

Nesse entretempo, onde Deus est? Este  um dos sintomas mais inquietantes. Quando voc est contente, to contente que no tem qualquer sensao de precisar dele... 
voc ser recebido de braos abertos - ou pelo menos assim parece. Mas v at ele quando voc precisa desesperadamente de ajuda, quando qualquer outra ajuda  em 
vo, e o que  que voc recebe? Uma batida de porta na cara, e o som, vindo de dentro, de passar uma tranqueta na porta, e depois mais uma outra. Depois disso, silncio. 
No adianta aguardar. Quanto mais voc espera, mais enftico se tornar o silncio.
      
      Acima de qualquer outra coisa, J exigia uma oportunidade de apresentar seu caso diante de Deus. Livrou-se da compaixo de seus amigos tal qual um cachorro 
se livra de pulgas. Ele desejava a coisa de verdade, um encontro pessoal com o Deus Todo-Poderoso. Apesar do que havia acontecido, J no conseguia se induzir a 
crer num Deus de crueldade e injustia. Talvez, se eles se encontrassem, pelo menos ele poderia ouvir o lado divino a respeito. Mas Deus no se achava em lugar algum. 
J ouviu apenas a ladainha lamuriosa de seus amigos e ento um vento terrvel, vazio. A porta bateu na sua cara.
Um Fato de F
"Ah! Senhor querido, eu realmente quero te ver, realmente quero estar contigo..."
- msica de George Harrison

"Sei que Deus est vivo: conversei com ele esta manh"
- adesivo de pra-choque

"Deus o ama e tem um plano maravilhoso para sua vida."
- folheto evangelstico

"E ele anda comigo e conversa comigo e me diz que sou dele."
- hino evanglico

      O anseio humano pela presena real de Deus pode brotar quase em qualquer lugar. Mas no ousamos fazer afirmaes genricas sobre a promessa da presena ntima 
de Deus a menos que levemos em conta aqueles perodos quando as pessoas se defrontam com a aparente ausncia de Deus. Em algum momento quase todas as pessoas tm 
de encarar o fato do ocultamento de Deus.
      A nuvem do no-saber pode descer sem prvio aviso, algumas vezes no exato momento em que mais urgentemente desejamos sentir a presena de Deus. Um pastor sul-africano, 
o reverendo Allan Boesak, foi atirado  priso por falar contra o governo. Passou trs semanas na solitria, quase o tempo todo de joelhos, orando para que Deus 
o libertasse. "No me importo em lhes dizer", contou mais tarde  sua igreja, "que esse foi o momento mais difcil da minha vida. Enquanto eu estava ali ajoelhado, 
as palavras j no vinham mais e no havia mais lgrimas para derramar." Sua experincia foi uma experincia comum dos negros da frica do Sul: oram, pranteiam, 
esperam e ainda assim no provocam qualquer resposta da parte de Deus.
      Alguns argumentariam que Deus no se esconde. Um adesivo de pra-choque diz: "Se voc se sente distante de Deus, imagine quem foi que se afastou?" Mas a culpa 
implcita na frase pode ser uma culpa falsa: o Livro de J conta em detalhes de uma poca em que, aparentemente, foi Deus quem se afastou. Muito embora J nada tivesse 
feito de errado e desesperadamente suplicasse ajuda, Deus ainda assim optou por ficar escondido. (Se voc ainda duvida que um encontro com o ocultamento de Deus 
 uma parte normal da peregrinao da f, apenas v a uma biblioteca teolgica e d uma espiada nas obras de msticos cristos, homens e mulheres que passaram a 
vida em comunho pessoal com Deus. Procure um mstico, apenas um, que no descreva um perodo de um duro teste, "a noite sombria da alma".)
      Para aqueles que sofrem, e para aqueles que ficam ao seu lado, J proporciona uma lio importante. As perguntas quanto aos "por qus?", as queixas de Meg 
Woodson e de Allan Boesak, e de J, so perguntas vlidas, no sintomas de uma f fraca - so, na realidade, to vlidas que Deus tomou providncias para que a Bblia 
inclusse todas elas. No se espera encontrar os argumentos dos adversrios de Deus - digamos, As Cartas da Terra de Mark Twain, ou Por que No Sou Cristo de Bertrand 
Russell - includos na Bblia, mas quase todos esses argumentos aparecem, se no em J, pelo menos nos Salmos ou nos Profetas. Parece que a Bblia se antecipa s 
nossas decepes, como se Deus antecipadamente nos entregasse as armas para usarmos contra ele, como se o prprio Deus compreendesse a dificuldade de suster a f.
      E, devido a Jesus, talvez ele realmente compreenda. No Getsmani e no Calvrio, de uma forma inexprimvel, o prprio Deus se viu obrigado a confrontar o ocultamento 
de Deus.
      "Deus lutando com Deus"  a maneira como Martinho Lutero resumiu a luta csmica ocorrida nas duas traves de madeira. Naquela escura noite, Deus aprendeu por 
si mesmo todo o alcance do que significa ser uma pessoa humana. "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" -  isso o que Jesus sentiu. Os amigos de J insistiram 
que Deus no estava escondido. Chamaram a ateno para todos os meios - sonhos, vises, bnos passadas, os esplendores da natureza - pelos quais Deus, no passado, 
dera provas de si mesmo a J. "No se esquea nas trevas do que aprendeu na luz", repreenderam-no. E aqueles que vivemos depois de J temos ainda mais luz: o registro 
das profecias cumpridas e da vida de Jesus. Mas algumas vezes todas as descobertas ou "provas" no bastam. A simples lembrana, no importa quo agradvel seja, 
no atenuar a dor ou a solido. Talvez, por algum tempo, todos os versculos da Bblia e todas as frases inspirativas de igual modo fracassem.
Trs Reaes
      Conheo bem demais a minha prpria reao instintiva diante do ocultamento de Deus: dou o troco ignorando-o. Igual a uma criana que acha que pode se esconder 
dos adultos ao tapar os olhos com sua mozinha gorducha, tento afastar Deus da minha vida. Se ele no se revelar para mim, por que devo reconhec-lo?
      O Livro de J apresenta duas outras reaes a tal desapontamento com Deus. A primeira se viu nos amigos de J, que se escandalizaram com os ataques de J contra 
os princpios mais bsicos daquilo que criam. O profundo desapontamento de J com Deus no se encaixava na teologia deles. Viam uma clara linha divisria entre um 
homem que afirmava ser justo e um Deus que sabiam que era justo.Que audcia! pensavam. J exige uma audincia com Deus! Acabe com esses sentimentos, disseram-lhe. 
Sabemos que, na realidade, Deus no  injusto. Por isso, pare de pensar assim! Tome vergonha e pare de dizer tudo isto!
      A segunda reao, a de J, foi uma mistura desordenada, um contraponto irritante  lgica incansvel de seus amigos. "Por que, pois, me tiraste da madre?" 
questionou com Deus. "Ah! se eu morresse, antes que olhos nenhuns me vissem!" disparou J num protesto que ele sabia que era ftil, qual um pssaro que se atira 
repetidamente contra uma vidraa. Ele tinha pouqussimos argumentos razoveis, e at admitiu que a lgica de seus amigos parecia correta. Ele se debateu, se contradisse, 
voltou atrs, e algumas vezes teve crises de desespero. Esse homem, reconhecido por sua retido, lanou imprecaes contra Deus: "Cessa, pois, e deixa-me, para que 
por um pouco eu tome alento; antes que eu v para o lugar de que no voltarei, para a terra das trevas e da sombra da morte.''
      E qual das duas reaes o livro apia? Ambas as partes necessitavam de alguma correo, mas depois de todos se expressarem, Deus ordenou aos amigos de J que 
se arrastassem arrependidos at ele e pedissem que orasse em favor deles.
      Uma audaciosa mensagem do livro de J  que voc pode dizer qualquer coisa para Deus. Atire nele a sua tristeza, a sua ira, a sua dvida, a sua amargura, a 
sua traio, a sua decepo - ele pode absorver tudo isso. Com mais freqncia do que se espera, a Bblia mostra seus gigantes espirituais em luta com Deus. Preferiam 
ir embora mancando, como Jac, do que aceitar o ocultamento de Deus como a resposta final. Neste aspecto, a Bblia prefigura um princpio da psicologia moderna: 
na realidade voc no pode negar seus sentimentos nem faz-los desaparecer, por isso voc pode muito bem express-los. Deus pode lidar com cada reao humana, com 
exceo de uma. Ele  incapaz de tolerar a reao em que instintivamente me apio: uma tentativa de mant-lo longe, de ignor-lo ou de trat-lo como se no existisse. 
Essa reao nem uma nica vez ocorreu a J.
A Perspectiva Global
      A liberdade de expressar os sentimentos no , todavia, a nica lio proporcionada por J. Com a viso dos bastidores do que acontece no mundo invisvel, 
aprendemos que um encontro com o ocultamento de Deus pode desorientar profundamente. Pode nos tentar a encarar Deus como o inimigo e a interpretar seu ocultamento 
como uma falta de interesse.
      Essa foi a concluso de J: "Na sua ira me despedaou, e tem animosidade contra mim." Aqueles que estamos na platia sabemos que J estava enganado. De um 
lado, o prlogo de J faz a distino sutil, mas importante, de que pessoalmente Deus no provocou os problemas de J. Ele os permitiu,  verdade, mas o relato da 
Aposta apresenta Satans, e no Deus, como o instigador do sofrimento de J. De qualquer forma, certamente Deus no era inimigo de J. Longe de ser abandonado por 
Deus, J estava sendo objeto de uma examinao direta, quase microscpica, por parte de Deus. No exato instante em que J estava implorando para apresentar seu caso 
diante de um tribunal, ele estava realmente participando de um julgamento de significado csmico - no como o promotor apontando o dedo para Deus, mas como a principal 
testemunha de um teste de f.
      De modo algum podemos inferir que nossas prprias tribulaes sejam, tais como a de J, especialmente preparadas por Deus para resolver alguma questo decisiva 
do universo. Mas, com segurana, podemos presumir que o limitado alcance de nossa viso ir, de um modo semelhante, distorcer a realidade. A dor estreita a viso. 
Sendo a mais pessoal das sensaes, ela nos fora a pensar quase que exclusivamente em ns mesmos.
      Com J, podemos aprender que do "outro lado" est acontecendo muito mais do que talvez suspeitemos. No mundo natural, os seres humanos s recebem cerca de 
30% do espectro da luz. (As abelhas e pombos-correios conseguem, por exemplo, detectar ondas de luz ultravioleta que nos so invisveis.) No domnio sobrenatural 
a nossa viso  ainda mais limitada. S ocasionalmente temos vislumbres daquele mundo invisvel. J sentiu o peso da ausncia de Deus; uma olhada nos bastidores 
revela que, num sentido, nunca Deus tinha estado to presente.
      Um incidente na vida de uma outra famosa personagem bblica ensina a mesma coisa de uma maneira bem diferente. O profeta Daniel teve um encontro tranqilo 
- tranqilo em comparao com o de J - com o ocultamento de Deus. Daniel se debatia com o problema dirio de orao sem resposta: por que Deus estava ignorando 
seus repetidos pedidos? Durante vinte e um dias Daniel se dedicou  orao. Pranteou. No quis saber de comidas finssimas. Jurou abster-se de carne e vinho, e no 
utilizou ungentos no corpo. Em todo esse tempo clamou a Deus, mas no recebeu resposta alguma.
      Ento certo dia Daniel recebeu muito mais do que esperava. Um ser sobrenatural, com olhos como tochas acesas e um rosto como relmpago, repentinamente surgiu 
a seu lado,  margem de um rio. Os companheiros de Daniel fugiram todos apavorados. Quanto a Daniel, "No restou fora em mim; o meu rosto mudou de cor e se desfigurou." 
Quando tentou conversar com o ser ofuscante, mal conseguiu respirar.
      O visitante passou a explicar a razo para a longa demora. Parecia que fora despachado para responder j  primeira orao de Daniel, mas tinha enfrentado 
forte resistncia por parte do "prncipe do reino da Prsia". Finalmente, depois de um impasse de trs semanas, chegaram reforos, e Miguel, um dos principais anjos, 
ajudou-o a romper as linhas adversrias.
      No tentarei interpretar essa surpreendente cena do universo em guerra, exceto para assinalar um paralelo com J.  semelhana de J, Daniel desempenhou um 
papel decisivo na guerra entre as foras csmicas do bem e do mal, embora grande parte da ao tenha ocorrida fora do alcance de sua viso. Para ele, a orao pode 
ter parecido ftil, e Deus, indiferente; mas uma olhadela nos bastidores revela exatamente o oposto. A perspectiva limitada de Daniel, tal como a de J, distorcia 
a realidade.
      Como entenderemos um ser angelical que necessita de reforos, para no mencionar uma Aposta csmica? Apenas isto: o grande quadro, a perspectiva global, com 
todo o universo servindo de fundo, inclui muita atividade que jamais enxergamos. Quando obstinadamente nos apegamos a Deus numa poca de dificuldades, ou quando 
simplesmente oramos, podero estar envolvidas muito mais coisas do que imaginamos. Requer-se f para crer nisso, e f para acreditar que jamais somos abandonados, 
no importa quo distante Deus parea estar.
      No final, quando ouviu a Voz vinda do redemoinho, J finalmente alcanou aquela f. Deus mencionou de raspo fenmenos - o sistema solar, constelaes, tempestades, 
animais selvagens - que J era incapaz de comear a explicar. Se voc no consegue compreender o mundo visvel em que voc vive, como tem a ousadia de esperar compreender 
um mundo que nem pode ver? Finalmente cnscio da perspectiva maior, J arrependeu-se no p e nas cinzas.
*
Referncias bblicas: Marcos 15; J 10, 16; Daniel 10.
***
Porque eu sei que o meu Redentor vive, 
e por fim se levantar sobre a terra.
Depois, revestido este meu corpo da minha pele,
em minha carne verei a Deus.
V-lo-ei por mim mesmo,
os meus olhos o vero, e no outros;
de saudades me desfalece o corao dentro em mim.
- J 19:25-25
***
Captulo 29 - Por Que J Morreu Feliz
      APS RELATAR a tragdia e a dor, o bater no peito e a discusso violenta, uma aposta csmica perdida e ganha - aps tudo isso, a histria de J termina quase 
que confortavelmente, com J se distraindo com seus tetranetos em perfeita tranqilidade. O livro d um relato minucioso dos bens restaurados a J: 14.000 ovelhas, 
6.000 camelos, 1.000 jumentos e dez novos filhos.
      Esse final feliz frustra alguns leitores, como  o caso de Elie Wiesel (escritor que ganhou o Prmio Nobel e testemunha do holocausto). Para ele, J foi um 
heri, um importante lder da dissidncia contra as injustias de Deus. No entanto, diz Wiesel, J cedeu. Ele no devia ter deixado Deus escapar da sinuca. Volume 
algum de uma nova prosperidade podia compensar o sofrimento que J havia experimentado. Que dizer dos dez filhos que morreram? Nenhum pai podia crer, por um instante 
sequer, que o burburinho de uma nova famlia removeria a tristeza daquela que J tinha perdido.
      Mas deixemos J falar por si mesmo. Isto  o que disse depois da majestosa fala de Deus, pronunciada desde o redemoinho:
Na verdade falei do que no entendia;
cousas maravilhosas demais para mim...
Eu te conhecia s de ouvir,
mas agora os meus olhos te vem.
Por isso me abomino,
e me arrependo no p e na cinza.
      
      Evidentemente o que tenho chamado de "no resposta" de Deus satisfez completamente a J.
      Por outro lado, alguns leitores apontam para o final feliz como a resposta final para a desiluso com Deus. Veja, dizem eles, Deus livra seu povo da adversidade. 
Restaurou a sade e as riquezas de J, e far o mesmo conosco caso aprendamos a confiar nele como o fez J. Esses leitores, no entanto, passam por cima de um detalhe 
importante: J falou essas palavras de contrio antes da recuperao de suas perdas. Ainda estava sentado num monte de cinzas, nu, coberto de feridas, e foi nessas 
circunstncias que aprendeu a louvar a Deus. S uma coisa havia mudado: Deus havia dado a J um vislumbre da perspectiva maior.
      Na minha opinio, penso que Deus podia ter dito qualquer coisa - podia, na verdade, ter lido um trecho de lista telefnica - e ter produzido o mesmo efeito 
poderoso em J. Aquilo que ele disse no chegou a ser to importante quanto o simples fato de que ele apareceu. Deus respondeu de maneira espetacular  maior das 
perguntas de J: H algum l fora? Assim que J teve uma viso do mundo invisvel, todas as suas urgentes perguntas se desvaneceram.
      Alis, do ponto de vista de Deus, o consolo de J foi - por mais cruel que parea - insignificante em comparao com as questes csmicas em jogo. A verdadeira 
batalha terminou quando J recusou-se a largar Deus, fazendo assim com que Satans perdesse a Aposta. Depois dessa vitria apertada, Deus se apressou em derramar 
boas ddivas sobre J. Dor? Posso consertar isso facilmente. Mais filhos? Camelos e bois? No h problema.  claro que quero que voc esteja feliz e rico e cheio 
de vida! Mas, J, voc tem de entender que algo bem mais importante do que a felicidade esteve em jogo aqui.
Acerca de Dois Mundos
      Meu amigo Richard, que ainda olha para J como a poro mais honesta da Bblia, tem ainda uma outra reao diante do final. Considera-o quase irrelevante. 
"J recebeu uma visita pessoal de Deus, e fico contente por J.  isso o que venho pedindo todos esses anos. Mas, uma vez que Deus no apareceu para mim, como  
que J me ajuda?"
      Creio que Richard apontou para uma importante linha divisria da f. Num certo sentido, nossos dias na terra se parecem com os de J antes de Deus vir at 
ele num redemoinho. Ns tambm vivemos em meio a indcios e rumores, alguns dos quais argumentam contra um Deus poderoso e amoroso. Ns tambm temos de exercitar 
a f, sem qualquer certeza.
      Richard estava prostrado no assoalho de seu apartamento, implorando a Deus que "se revelasse", apostando toda sua f na disposio de Deus em entrar no mundo 
visvel tal qual havia feito para J. E Richard saiu perdendo. Com toda franqueza, duvido que Deus sinta qualquer obrigao de dar provas de si mesmo dessa maneira. 
Ele o fez muitas vezes no Antigo Testamento, e o fez conclusivamente na pessoa de Jesus. Que mais encarnaes queremos dele?
      Digo isto com muito cuidado, mas fico imaginando se um desejo veemente, insistente de milagres - digamos, de uma cura fsica - algumas vezes no denuncia uma 
falta de f, em vez de uma abundncia dela. Tais oraes podem, como as de Richard, estabelecer condies para Deus. Quando ansiando por uma soluo miraculosa para 
um problema, fazemos com que nossa lealdade a Deus dependa de ele se revelar mais uma vez no mundo visvel?
      Se insistirmos em receber provas visveis da parte de Deus, podemos muito bem estar preparando o caminho para um permanente estado de desiluso. A verdadeira 
f no busca tanto manipular Deus para que faa nossa vontade quanto busca nos posicionar para que faamos sua vontade. Enquanto procurava em toda a Bblia exemplos 
de grande f, fiquei surpreso com o nmero inexpressivo de santos que experimentaram algo parecido com o impressionante encontro de J com Deus. Os demais reagiram 
ao ocultamento de Deus, no exigindo que ele se mostrasse, mas avanando crendo nele embora permanecesse escondido. Hebreus 11 assinala que os gigantes da f "morreram... 
sem ter obtido as promessas, vendo-as, porm, de longe, e saudando-as".
      Ns, seres humanos, instintivamente consideramos o mundo visvel como o mundo "real" e o mundo invisvel como o mundo "irreal", mas a Bblia requer quase que 
o oposto. Mediante a f, o mundo invisvel cada vez mais toma a forma do mundo real e estabelece o rumo de como vivermos no mundo visvel. Vivam para Deus, que  
invisvel, e no para as outras pessoas, disse Jesus ao falar sobre o mundo invisvel, ou "o reino dos cus".
      Certa vez o apstolo Paulo tratou diretamente da questo da frustrao e decepo com Deus. Disse aos corntios que, apesar das dificuldades inacreditveis, 
ele no se desanimava: "Mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo o nosso homem interior se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e momentnea tribulao 
produz para ns eterno peso de glria, acima de toda comparao, no atentando ns nas cousas que se vem, mas nas que se no vem; por que as que se vem so temporais, 
e as que se no vem so eternas."
Uma Amostra do Futuro
      Paulo suportou tribulaes e morreu martirizado, ainda antevendo sua recompensa. J suportou tribulaes, mas recebeu tima recompensa. O que  que podemos 
exatamente esperar de Deus? Talvez a melhor maneira de ver o final de J  consider-lo no como um padro do que acontecer conosco nesta vida, mas, em vez disso, 
como um sinal do que est para vir. Coloca-se como um smbolo agradvel, satisfatrio, uma soluo para a decepo de uma pessoa, soluo que nos oferece uma amostra 
do futuro.
      Num aspecto Elie Wiesel est certo: os prazeres da velhice de J no compensaram as perdas que ele experimentou anteriormente. At mesmo J, feliz e cheio 
de dias, morreu, deixando como herana para os que o sobreviveram o ciclo de tristeza e dor. O pior de todos os erros seria concluir que Deus de alguma forma se 
satisfaz em fazer uns poucos ajustes, sem grande importncia, neste mundo trgico, injusto.
      Algumas pessoas arriscam toda sua f num milagre, como se um milagre eliminasse todo desapontamento com Deus. Mas mesmo se eu tivesse enchido este livro com 
descrio de casos de curas fsicas, em vez das histrias de Richard e Meg Woodson e Douglas e J, isso no resolveria o problema da decepo com Deus. Alguma coisa 
ainda est bastante errada com este planeta. Por exemplo, todos ns morremos; a taxa de mortalidade  a mesma quer para ateus quer para santos.
      Os milagres servem como sinais que apontam para o futuro. So aperitivos que despertam um anelo por algo mais, por algo permanente. E a felicidade de J em 
sua velhice foi uma simples amostra daquilo que ele desfrutaria depois da morte. As boas novas no final de J e as boas novas do Domingo de Pscoa no final dos evangelhos 
so trailers das boas novas descritas no final de Apocalipse. No nos atrevemos a perder de vista o mundo que Deus deseja.
      A mensagem de J 42 , ento, um sinal de que no final Deus acertar os erros que caracterizam nossos dias. Algumas tristezas - a morte dos filhos de J, por 
exemplo, ou a morte dos filhos de Meg Woodson - nunca se recuperam nesta vida. Nenhuma palavra de consolo  capaz de mitigar a dor no corao de Meg Woodson, pois 
aquela dor tem uma forma exata, a forma de sua filha Peggie e de seu filho Joey. Mas no fim dos tempos aquela dor tambm se desvanecer. Meg ter sua filha de volta, 
e seu filho refeito. E, se eu no cresse nisso, no cresse que Peggie e Joey Woodson esto agora mesmo respirando grandes sorvos de ar, e pulando, e explorando novos 
mundos, ento eu no creria em coisa alguma e teria abandonado h muito tempo a f crist. "Se a nossa esperana em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os 
mais infelizes de todos os homens.'4
      A Bblia aposta a reputao de Deus em sua habilidade de vencer o mal e restaurar os cus e a terra  sua perfeio original. Se no levssemos em conta aquele 
estado futuro, Deus poderia ser julgado como algum menos-do-que-poderoso, ou menos-do-que-amoroso.* At o presente as vises profticas de paz e justia no se 
tornaram verdade. Espadas ainda no esto sendo fundidas em arados. A morte, com terrveis novas mutaes da AIDS e de canceres provocados por distrbios do meio-ambiente, 
ainda est devorando pessoas em vez de ser devorada. O mal, e no o bem, parece estar vencendo. Mas a Bblia nos conclama a ver alm da insensvel realidade da histria, 
a ter a viso de toda a eternidade, quando o domnio de Deus encher a Terra com a luz e a verdade.
      Em qualquer discusso acerca da decepo com Deus, o cu  a palavra final, a mais importante de todas as palavras. S o cu finalmente solucionar o problema 
do ocultamento de Deus. Pela primeira vez na histria, os seres humanos sero capazes de erguer os olhos para Deus e v-lo face a face. No meio de sua agonia, de 
alguma forma J encontrou a f para crer que, "revestido este meu corpo da minha pele, em minha carne verei a Deus". Sua profecia se tornar realidade no apenas 
para J, mas para todos ns.
Com Saudades
      Muitas pessoas tm problemas at mesmo em imaginar um tal estado futuro. Como disse o escritor Charles Williams, "Nossa experincia na terra torna difcil 
para ns entender uma coisa boa que no nos arme alguma espcie de cilada." Em vez de tentar projetar a ns mesmos num futuro que jamais poderemos compreender plenamente, 
talvez fosse melhor olhar para os sonhos no realizados - as decepes - do presente.
      Para um refugiado ou favelado, o cu representa um sonho de um novo pas, uma nova morada, um lugar de segurana, uma famlia novamente reunida, um lar farto, 
com abundncia de coisas simples como comida e gua fresca para beber. (Muitos dos profetas falaram a refugiados, o que talvez explique por que fizeram uso dessas 
imagens terrenas.)
      Todos partilhamos desses anelos. Este mundo pode estar cheio de poluio, guerra, crimes e cobia, mas dentro de ns - de todos ns - perduram vestgios que 
nos fazem lembrar como o mundo podia ser, como ns podamos ser.  possvel sentir tais anelos no movimento pela preservao do meio-ambiente, cujos lderes anseiam 
por um mundo mantido em seu estado original; e no movimento pela paz, que sonha com um inundo sem guerras; e nos grupos de terapia, que buscam restabelecer laos 
de amor e amizade que se romperam. Toda a beleza e prazer que encontramos na terra representam "somente a fragrncia de uma flor que no encontramos, o eco de uma 
msica que no ouvimos, as notcias de um pas que ainda no visitamos".
      Os profetas proclamam que tais sensaes no so iluses nem simples sonhos. So ecos adiantados daquilo que de fato se tornar realidade. Temos pouqussimos 
detalhes sobre o mundo futuro, somente uma promessa de que Deus se mostrar confivel. Quando acordarmos no novo cu e na nova terra, finalmente possuiremos o que 
quer que temos desejado. De alguma forma, do meio de todas as notcias ruins, surgem surpreendentes Boas Notcias - uma coisa boa que no oculta cilada alguma. O 
cu e a terra voltaro a funcionar do jeito como Deus planejou. Depois de tudo h um final feliz.
      O escritor de fico J. R. R. Tolkien cunhou uma nova palavra para essa boa notcia, em sua trilogia The Lord of the Rings ("O Senhor dos Anis"): ser uma 
"eucatstrofe", disse Tolkien.

- Ser que todas as coisas tristes vo deixar de ser verdade? - perguntou Samwise.
-  Uma grande Sombra se foi - disse Gandalf, e ento ele riu, e o som foi como de msica, ou como de gua numa terra ressequida; e, enquanto ouvia, veio-lhe o pensamento 
de que ele no tinha ouvido risos, o som puro da alegria, por dias e dias, dias sem conta. Caiu em seus ouvidos como o eco de todos os prazeres que j havia conhecido. 
Mas ele mesmo irrompeu em lgrimas. Ento, assim como uma chuva suave faz passar um vento primaveril e o sol resplandece ainda mais brilhante, suas lgrimas cessaram, 
e seu riso jorrou, e, rindo, pulou da cama.
-  Como  que me sinto? - gritou. - Bem, no sei como diz-lo. Eu sinto, eu sinto - brandia os braos no ar - eu sinto como a primavera depois do inverno, e como 
o sol batendo nas folhas; e como clarins e harpas e todos os sons que j ouvi!
      
      Para pessoas que se sentem presas  dor, ou a um lar destroado, ou  pobreza extrema, ou ao medo - para todas essas pessoas, para todos ns, o cu promete 
um perodo, muito mais longo e mais substancioso do que o perodo que passamos na terra, perodo de sade e inteireza e prazer e paz. Se no crermos nisso, ento, 
como Paulo claramente afirmou, h pouqussima razo para crer em qualquer outra coisa. Sem aquela esperana, no h qualquer esperana.
      A Bblia jamais faz pouco caso da decepo humana (lembre-se da proporo em J - um captulo de restaurao segue-se a quarenta e um captulos de angstia); 
acrescenta, porm, uma palavra chave: temporrio. O que sentimos agora, nem sempre sentiremos. Nosso desapontamento  ele prprio um sinal, uma dor, uma fome de 
algo melhor. E a f , afinal, um tipo de saudade - de um lar que jamais visitamos, mas que nunca deixamos de anelar.
      
E o fim de toda nossa explorao Ser chegar ao lugar donde partimos, E pela primeira vez conhecer o local.
- T. S. Eliot

      Vi novo cu e nova terra, pois o primeiro cu e a primeira terra passaram, e o mar j no existe. Vi tambm a cidade santa, a nova Jerusalm, que descia do 
cu, da parte de Deus, ataviada como noiva adornada para o seu esposo. Ento ouvi grande voz vinda do trono, dizendo: Eis o tabernculo de Deus com os homens. Deus 
habitar com eles. Eles sero povos de Deus e Deus mesmo estar com eles. E lhes enxugar dos olhos toda lgrima, e a morte j no existir, j no haver luto, 
nem pranto, nem dor, porque as primeiras cousas passaram.
*
Referncias bblicas: J 42; Hebreus 10; 2 Corntios 4; 1 Corntios 15; J 19; Apocalipse 21.
***
Captulo 30 - Duas Apostas, Duas Parbolas
Existe ento algum paraso terrestre onde, em meio ao farfalhar das folhas de oliveira, as pessoas podem estar com aqueles de quem gostam e ter aquilo de que gostam 
e ficar  vontade  sombra, serenos, ou ser que as vidas de todos os homens so... vidas destroadas, tumultuadas, sofridas e sem romantismo, perodos marcados 
por gritos, por imbecilidades, por mortes, por agonias?
- Ford Madox Ford, The Good Soldier ("O Bom Soldado")

      O ESCRITOR ITALIANO Umberto Eco conta de uma ocasio quando, aos treze anos de idade, acompanhou o pai a uma partida de futebol. Na realidade Umberto no apreciava 
esportes, e, enquanto estava sentado no estdio observando o jogo, sua mente comeou a divagar. "Enquanto observava com indiferena os movimentos sem sentido ali 
embaixo no campo, senti como o sol alto, do meio-dia, parecia envolver os homens e as coisas numa luz congelante, e como, diante de meus olhos, uma encenao csmica, 
sem sentido,  estava em andamento... pela primeira vez duvidei da existncia de Deus e cheguei  concluso de que o mundo era uma fico irracional."
      Instalado num ponto elevado do estdio, o adolescente Eco tinha imaginado um ponto de vista de cima, como o de Deus. Mas daquele ponto de observao as lutas 
frenticas da raa humana pareciam to desprovidas de sentido quanto as lutas frenticas de homens crescidos correndo atrs de uma bola de couro atravs do gramado. 
Ocorreu a Eco que no devia existir ningum "l em cima" observando o que tem lugar neste planeta. E, se no final das contas algum estivesse l, devia se importar 
to pouco com a vida na Terra quanto Umberto Eco se importava com futebol.
      A imagem de Eco sobre o estdio levanta a pergunta mais fundamental sobre a f, a pergunta da qual tudo o mais depende: Algum est observando! Estamos dando 
murros no ar, num caos sem sentido, cercado pela "benigna indiferena do universo", ou estamos de fato representando para Algum que se importa? Pessoalmente J 
obteve resposta atravs de uma revelao inconfundvel, mas que dizer de ns outros? No h pergunta mais importante, e cinco anos depois da conversa que deu origem 
a este livro eu me encontrei discutindo demoradamente essa pergunta com meu amigo ctico Richard.
      Quando me encontrei com Richard pela primeira vez, ele parecia um amante abandonado que se encontrava nos primeiros dias da separao e divrcio - de Deus. 
A ira ardia em seus olhos. Mas, quando eu o vi cinco anos depois, era visvel que a passagem do tempo o havia amadurecido e acalmado. Seu ardor ainda irrompia enquanto 
conversvamos, mas mesclado com melancolia, ou nostalgia. Ele no conseguia tirar Deus totalmente de sua cabea, e a ausncia de Deus se fazia sentir, persistentemente, 
como a dor de um membro fantasma, um membro amputado. Raras vezes eu levantava questes sobre a f, mas Richard, ainda ferido, trado, continuava voltando a elas.
      Certa vez ele se voltou para mim com um olhar perplexo.
      - No entendo, Philip - disse. - Ns dois lemos muitos dos mesmos livros, e partilhamos muito dos mesmos valores. Parece que voc compreende minha dvida e 
desiluso. E, assim mesmo, de alguma forma voc acha possvel crer, e eu no. Qual  a diferena? Onde voc conseguiu a sua f?
      Minha mente voou atravs das possveis respostas. Eu poderia ter sugerido todas as provas em favor da existncia de Deus: desgnio na criao, a vida de Jesus, 
provas da Ressurreio, exemplos de santos cristos. Mas Richard conhecia essas respostas to bem quanto eu, e ainda assim no cria. Alm do mais, no foi disso 
que extra a minha f. Eu passei a ter f quando estava num dormitrio de uma faculdade evanglica, numa certa noite de um ms de fevereiro, e assim passei a contar 
a Richard sobre aquela noite.
Uma Noite de F
      J mencionei que, no incio, a faculdade evanglica foi um terreno frtil para a dvida e o ceticismo. Sobrevivi aprendendo a imitar um comportamento "'espiritual" 
- na realidade, os estudantes tinham de fazer isso apenas para conseguirem boas notas. Havia, por exemplo, a repugnante questo do "servio cristo". A faculdade 
exigia que cada aluno participasse de uma atividade regular de servio, do tipo evangelizao nas ruas, ministrio nas cadeias, ou visita a hospitais. Eu me inscrevi 
em "trabalho entre universitrios".
      Todos os sbados  noite eu visitava um centro estudantil na Universidade da Carolina do Sul e assistia  televiso.  claro que supunham que eu estivesse 
testemunhando, e na semana seguinte eu diligentemente dava relatrio sobre todas as pessoas que eu havia abordado para apresentar uma f pessoal. Minhas histrias 
inventadas devem ter soado autnticas, pois ningum jamais as questionou.
      Eu tambm tinha a obrigao de freqentar uma reunio semanal de orao, junto com quatro outros alunos envolvidos no trabalho com universitrios. Aquelas 
reunies obedeciam a um padro constante: Joe orava, e em seguida Craig, e Chris, e o outro Joe, e ento todos os quatro educadamente faziam uma pausa por aproximadamente 
dez segundos. Eu nunca orava; e depois do breve silncio, abramos os olhos e voltvamos para nossos quartos.
      Mas certa noite de fevereiro, para surpresa de todos, inclusive de mim, eu orei. No tenho qualquer idia da razo disso. Eu no tinha planejado faz-lo. Mas 
depois de Joe e Craig e Chris e Joe terem terminado, eu me vi orando em voz alta. "Deus", eu disse, e eu podia sentir o aumento do nvel de tenso na sala.
      Pelo que me lembro, eu disse qualquer coisa assim: "Deus, aqui estamos, e esperam que estejamos preocupados com esses dez mil alunos da Universidade da Carolina 
do Sul que esto indo para o inferno. Bem, voc sabe que na realidade eu no me importo se todos eles forem de fato para o inferno, se  que o inferno existe. Alm 
do mais, nem mesmo me importo se eu for para o inferno."
       preciso estudar numa faculdade evanglica para perceber como essas palavras devem ter soado para os outros no quarto. Daria na mesma se eu estivesse invocando 
bruxaria ou oferecendo sacrifcios de crianas. Mas ningum se moveu nem tentou me interromper, e eu prossegui orando.
      Por alguma razo, comecei a falar sobre a parbola do Bom Samaritano. Esperavam que ns, estudantes de faculdades evanglicas, sentssemos o mesmo interesse 
pelos estudantes universitrios como o samaritano sentiu pelo judeu ensangentado que jazia no fosso. Mas eu no sentia qualquer interesse por eles, eu disse. No 
sentia nada por eles.
      E ento aconteceu. No meio da minha orao, bem quando eu estava descrevendo quo pouco me importava com os alvos que haviam sido designados para demonstrarmos 
compaixo, vi aquela histria numa nova luz. Eu vinha visualizando a cena enquanto eu falava: um samaritano de aparncia antiquada, vestido com mantos e um turbante, 
debruado sobre um vulto sujo, salpicado de sangue, num fosso. Mas repentinamente, na tela interna de meu crebro, aquelas duas pessoas mudaram. O bondoso samaritano 
assumiu o rosto de Jesus. O judeu, pobre vtima de um assalto na estrada, tambm assumiu um outro rosto - um rosto que de imediato reconheci como sendo o meu prprio.
      Num piscar de olhos vi Jesus se agachando com um trapo mido para limpar minhas feridas e estancar o fluxo de sangue. E, enquanto ele se encurvava, eu - a 
vtima ferida, a vtima do assalto - me vi abrindo os olhos e fazendo um bico com os lbios. Ento, como em cmara lenta, eu me vi cuspindo nele, em cheio no rosto. 
Vi tudo isso - eu, que no acreditava em vises, nem em parbolas da Bblia, nem mesmo em Jesus. Isso chocou-me. Abruptamente parei de orar, levantei-me e sa do 
quarto.
      Toda aquela noite fiquei pensando sobre o que ocorrera. No foi exatamente uma viso - foi mais um devaneio com um sentido. Ainda assim, no conseguia deixar 
de pensar nisso. O que significava? Era autntico? Eu no tinha certeza, mas a minha arrogncia tinha sido esmigalhada. Naquela faculdade eu sempre tinha encontrado 
segurana em meu agnosticismo. Agora nunca mais seria assim. Eu tinha tido um novo vislumbre de mim mesmo. Talvez, em todo o meu ceticismo autoconfiante e zombeteiro, 
eu fosse o mais necessitado de todos.
      Naquela noite escrevi um curto bilhete para minha noiva, dizendo cautelosamente: "Quero aguardar mais alguns dias antes de conversar a respeito, mas talvez 
eu tenha acabado de ter a primeira experincia religiosa genuna de minha vida."
As Apostas
      Contei essa histria a Richard, que ouviu com interesse autntico. Tudo na minha vida mudou daquele momento em diante, eu disse. Antes, se algum tivesse insinuado 
que eu passaria a minha vida escrevendo acerca da f crist, eu teria achado doida essa pessoa. Mas desde aquela noite de fevereiro tenho estado numa peregrinao 
lenta e constante para resgatar aquilo que outrora eu havia rejeitado como uma bobagem religiosa. Recebi olhos de f que abriram minha mente para crer no mundo invisvel.
      Richard foi atencioso, mas no se convenceu. Educadamente assinalou que, afinal, havia explicaes alternativas para o que tinha acontecido. Por alguns anos 
eu tinha resistido a uma educao fundamentalista, e, sem dvida alguma, aquela represso havia criado uma profunda "dissonncia cognitiva" dentro de mim. Uma vez 
que fazia tanto tempo que eu no orava, ser que eu deveria me surpreender com o fato de que minha primeira orao, no importa quo hesitante tenha sido, liberasse 
um turbilho de emoes que encontrasse vazo em formas como a "revelao" da parbola do Bom Samaritano?
      Tive de sorrir enquanto Richard falava, porque eu me identifiquei em suas palavras. Eu havia empregado o mesmo linguajar para encontrar explicaes para os 
testemunhos pessoais de vintenas de colegas de faculdade. Mas desde aquela noite de fevereiro passei a ver as coisas diferentemente. Richard e eu estvamos descrevendo 
o mesmo fenmeno de duas maneiras diferentes: ele estava olhando "para" o feixe, enquanto eu estava olhando ao longo dele. Ele possua certos indcios a seu favor. 
Eu tinha certos indcios a meu favor - principalmente a profunda e inesperada mudana em minha maneira de encarar a vida. Mas as converses s fazem sentido de dentro 
para fora, para pessoas igualmente convertidas. Estvamos de volta ao ponto em que havamos principiado nossa conversa cinco anos antes: havamos chegado ao mistrio 
da f, uma palavra que Richard detestava.
      Eu me vi desejando ter condies de fazer com que, para ele, a f fosse clara como cristal, mas me senti impotente para faz-lo. Senti em Richard o mesmo desassossego 
e alienao com que eu convivera, e Deus havia trazido uma cura gradual para mim. Mas eu no podia transplantar a f em Richard; ele tinha de exercit-la por si 
mesmo.
      Foi durante essa conversa que percebi que, na verdade, havia duas apostas em andamento. Neste livro focalizei a aposta, vendo-a a partir do ponto de vista 
de Deus, a Aposta tal como est revelada no Livro de J, em que Deus "arrisca" o futuro da experincia humana. Duvido que algum compreenda totalmente essa aposta, 
mas Jesus ensinou que o final da histria humana se resumir a uma s questo: "quando vier o Filho do homem, achar porventura f na terra?"
      A segunda aposta reflete o ponto de vista humano e  aquela em que J se envolveu: Devia escolher a favor de Deus ou contra ele? J avaliou as provas, a maioria 
das quais no apontava para um Deus confivel. Mas, chutando e gritando durante todo o trajeto, decidiu pr sua f em Deus.
      Cada um de ns deve escolher se vai viver como se Deus existe, ou como se ele no existe. Quando Umberto Eco estava sentado naquele ponto elevado do estdio, 
sob um sol de meio-dia, e olhou para os jogadores de futebol embaixo, fez uma opo diante da mais importante pergunta de sua vida - da vida de qualquer um. Algum 
est observando? E a resposta a essa pergunta depende redondamente da f - por ela o justo viver.
Duas Parbolas
      Encerro este livro com duas histrias, ambas verdadeiras, que para mim se colocam como parbolas das alternativas: o caminho da f e o caminho da no-f.
      A primeira vem de um sermo de Frederick Buechner:

 uma histria tpica do sculo vinte, e quase chega a ser por demais terrvel para se contar:  sobre um garoto de uns doze ou treze anos que, num acesso de loucura 
e depresso, apanhou uma arma de fogo em algum lugar e disparou em seu pai, que no morreu imediatamente, mas pouco tempo depois. Quando as autoridades interrogaram 
o menino sobre por que tinha feito aquilo, respondeu que era porque no podia suportar o pai, porque o pai exigia demais dele, porque estava sempre em cima dele, 
porque odiava o pai. E ento, depois que foi internado num recolhimento de menores, um guarda em certa ocasio estava caminhando pelo corredor, tarde da noite, quando 
ouviu sons vindos da cela do garoto, e parou para ouvir. As palavras que ouviu o garoto pronunciar aos prantos, no escuro, foram: "Quero o meu pai, quero o meu pai."

      Buechner sugere que essa histria  "uma espcie de parbola sobre a vida de todos ns." A sociedade moderna  como aquele garoto no recolhimento de menores. 
Eliminamos nosso Pai. Poucos pensadores ou escritores ou cineastas ou produtores de televiso continuam levando Deus a srio. Ele  um anacronismo, algo que ns 
superamos. O mundo moderno aceitou o desafio e apostou contra Deus. H perguntas demais sem resposta. H decepes demais.*
      Assim mesmo, ainda se pode ouvir soluos, abafados gritos de perda, tais como aqueles expressos na literatura e no cinema e quase em toda a arte contempornea. 
Difcil coisa  viver sem ter certeza de coisa alguma. A alternativa para a decepo com Deus parece ser a decepo sem Deus. ("O centro de mim", disse Bertrand 
Russell, " sempre e eternamente uma dor terrvel - uma curiosa dor indmita - uma busca por algo que est alm do que o mundo contm.") Mesmo agora vejo essa sensao 
de perda nos olhos de meu amigo Richard. Ele diz que no acredita em Deus, mas continua trazendo o assunto  tona, protestando em voz alta demais. De onde vem essa 
dolorida sensao de traio se no h ningum para perpetrar a traio?
***
      A parbola de Frederick Buechner diz respeito  perda de um pai; a segunda diz respeito  descoberta de um pai. Tambm  uma histria de verdade, minha prpria 
histria.
      Certo feriado fui visitar minha me, que vive a mil e cem quilmetros de distncia. Ali nos relembramos de acontecimentos ocorridos h muito tempo, como me 
e filho tendem a fazer. Inevitavelmente a grande caixa de fotografias antigas saiu do alto do armrio do closet, derramando uma pilha desordenada de estreitos retngulos 
que assinalam meu desenvolvimento atravs da infncia e adolescncia: vestido de caubi e de ndio, fantasiado de coelhinho na dramatizao na primeira srie, poses 
com meus animais de estimao da infncia, interminveis recitais de piano, as formaturas do primeiro grau e do segundo grau e finalmente da faculdade.
      Entre aquelas fotos encontrei a de uma criana de colo, com meu nome escrito no verso. O retrato em si mesmo no tinha nada de incomum. Eu parecia como qualquer 
outro nen: rosto gorducho, meio careca, com um olhar desfocado, irrequieto. Mas a fotografia estava amassada e mutilada, como se algum daqueles animais de estimao 
a tivesse apanhado. Perguntei a minha me por que ela havia guardado uma foto to maltratada se tinha tantas outras fotos inteiras.
      H algo que voc precisa saber sobre a minha famlia: quando eu tinha dez meses de idade meu pai contraiu poliomielite bulbar. Ele morreu trs meses depois, 
logo aps meu primeiro aniversrio. Meu pai ficou totalmente paralisado com a idade de vinte e quatro anos, seus msculos enfraqueceram tanto que ele teve de viver 
dentro de um grande cilindro de ao que respirava por ele. Recebeu pouqussimas visitas - havia tanta histeria quanto  plio em 1950 quanto existe hoje em dia em 
relao  AIDS. A nica visita que ele recebia fielmente, minha me, costumava sentar num certo lugar de modo que ele podia ver a imagem dela num espelho aparafusado 
num dos lados do pulmo de ao.
      Minha me explicou que havia guardado a foto como uma recordao, porque durante a enfermidade de meu pai a fotografia tinha estado afixada em seu pulmo de 
ao. Ele havia pedido fotografias dela e dos dois filhos, e minha me teve de forar as fotografias a se encaixarem entre alguns botes metlicos. Por isso, o estado 
amarrotado da minha foto de nen.
      Raras vezes vi meu pai depois que entrou no hospital, pois no se permitiam crianas nas enfermarias de plio. Alm disso, eu era to novo que, mesmo que eu 
tivesse tido permisso para entrar, eu no teria guardado aquelas lembranas.
      Quando minha me me contou a histria da foto amassada, eu tive uma estranha e forte reao. Parecia esquisito imaginar algum que, num certo sentido, eu nunca 
encontrei, se importasse comigo. Durante os ltimos meses de sua vida, meu pai passou suas horas acordado fitando aquelas trs imagens de sua famlia, a minha famlia. 
No havia mais nada em seu campo de viso. O que ele fazia o dia todo? Orava por ns? Certamente orava. Ele nos amava? Claro. Mas como uma pessoa paralisada pode 
exprimir seu amor, especialmente quando seus prprios filhos esto banidos do quarto?
      Freqentemente tenho pensado naquela foto amassada, pois  um dos poucos elos que me liga ao estranho que foi meu pai, um estranho que morreu uma dcada mais 
jovem do que a minha idade atual. Algum de quem no tenho lembrana, de quem no tenho conhecimento sensorial, passava o dia todo, todos os dias, pensando em mim, 
se dedicando a mim, amando-me o mximo que podia. Talvez, de alguma forma misteriosa, ele esteja fazendo-o numa outra dimenso. Talvez eu terei tempo, muito tempo, 
para renovar um relacionamento que cruelmente se encerrou mal havia se iniciado.
      Menciono esta histria porque as emoes que senti quando minha me mostrou-me a foto amassada foram exatamente as mesmas emoes que senti naquela noite de 
fevereiro num dormitrio de faculdade quando pela primeira vez cri num Deus de amor. Algum est l, eu percebi. Algum est observando a vida enquanto ela se desenrola 
neste planeta. Mais ainda, esse Algum me ama. Foi um sentimento surpreendente, repleto de uma esperana indmita, um sentimento to novo e avassalador que pareceu 
que valia a pena arriscar a minha vida.
*
Referncias bblicas: Lucas 18.
***
Agradecimentos
      TALVEZ ALGUM DIA eu tenha de escrever um livro sem a ajuda de outros, mas espero que essa poca no chegue to cedo porque atualmente dependo imensamente das 
sugestes editoriais de outros leitores. Sou profundamente grato a meu amigo Tim Stafford, de quem dependi totalmente para a leitura deste manuscrito em trs rascunhos 
sucessivos. Esse foi um trabalho de amor: antes das oportunas sugestes de Tim quanto aos cortes necessrios, o manuscrito era cinqenta por cento mais longo.
      Tive tambm a felicidade de participar de uma reunio de avaliao de manuscritos junto com quatro outros escritores - Steve Lawhead, Karen Mains, Luci Shaw 
e Walter Wangerin - que me ajudaram a estabelecer o estilo da verso final. Ento em reunies  parte, Walter me desvendou alguns dos mistrios de como narrar histrias. 
E estes outros tambm leram e criticaram o manuscrito, dando-me conselhos valiosos: Elsie Baker, Dr. John Boyle, Dr. Paul Brand, Harold Fickett, Hal Knight, Lee 
Phillips e Dr. Cornelius Plantinga.
      Depois de eu trabalhar com base no conselho de todo esse pessoal, Judith Markham, minha editora em trs livros ante- riores, preparou o livro em sua forma 
final. Judith proporciona uma rara combinao de diplomacia, sabedoria literria, bondade e, acima de tudo, uma busca da qualidade. Ela  boa amiga, e tima editora.
      Devo tambm mencionar Frederick Buechner, G. K. Ches-terton, C. S. Lewis, Jrgen Moltmann, George MacDonald e Dorothy Sayers. So nomes com quem voc j cruzou, 
pois aparecem ao longo de todo o livro. No sentido mais verdadeiro, eles so meus '"pastores". Em grande parte continuo a crer devido a eles.
      Uma classe que lecionei na minha igreja (La Salle Street Church) garantiu que pelo menos durante cinco anos eu estudasse detalhadamente o Antigo Testamento, 
e seus alunos contriburam com muitos pensamentos, bem como com muitas perguntas irrespondveis.
      Mencionei algumas vezes uma inspiradora visita s montanhas do Colorado: sou grato s famlias Koneman e Brayton, que possibilitaram esse perodo.
      E quero agradecer ao Richard. Ele tem a coragem de ser honesto; aprendi muito com ele. Espero que ele nunca pare de fazer perguntas, que nunca abandone sua 
busca.
* * * * *
Prezado leitor,
Sua opinio acerca deste livro  muito importante. Escreva-nos. Pea tambm nosso catlogo. Voc o receber gratuitamente. Nosso endereo:
EDITORA MUNDO CRISTO Caixa Postal 21.257, 04698-970 - So Paulo, SP
Os Editores
* Uma expresso como "Deus aprende" pode parecer estranha porque normalmente pensamos no aprender como um processo mental, numa seqncia que vai de um estado de 
no saber para um estado de saber. Claro  que Deus no est limitado pelo tempo ou pela ignorncia. Ele "aprende" no sentido de passar por novas experincias, tais 
como a criao de seres humanos livres. Empregando a palavra num sentido semelhante, a carta aos Hebreus diz que Jesus "aprendeu a obedincia pelas coisas que sofreu".
          * Algumas pessoas no encontram qualquer consolo na viso dos profetas quanto a um mundo futuro. "Dia de So Nunca", dizem. "A igreja tem batido nessa 
tecla durante sculos para justificar a escravido, a opresso e todas as formas de injustia. Quanto ao pobre, empurram-lhe goela abaixo a esperana do cu a fim 
de evitar que fique exigindo demais na terra." A crtica procede porque a igreja de fato at hoje abusa da viso dos profetas. Mas voc nunca encontrar aquela promessa 
vazia nos prprios profetas. Ams, Osias, Isaas e Jeremias tm palavras severas acerca da necessidade de cuidar das vivas e rfos e estrangeiros, e de acabar 
com a corrupo em tribunais e sistemas religiosos. A igreja na terra no deve simplesmente marcar passo, aguardando que Deus intervenha e ponha em ordem tudo que 
h de errado. Ao contrrio, eles, o povo de Deus, devem modelar o novo cu e a nova terra, e, fazendo-o, devem despertar anseios por aquilo que algum dia Deus far 
acontecer. Na qualidade de agentes de Deus, atuam para eliminar os motivos de desapontamento que, de outra forma, as pessoas poderiam atribuir a Deus.
          * Entendo que a Trindade no  de modo algum uma doutrina simples, e aparies do Filho e do Esprito podem ser identificadas em todo o Antigo Testamento. 
Mas provavelmente no falaramos de uma Trindade totalmente  parte da Encarnao e de Pentecostes. Cada evento revelou sobre Deus algo que anteriormente no fora 
conhecido, e cada um provocou uma revoluo na maneira de as pessoas pensarem sobre Deus.
          * Meg escreveu livros fortes e tocantes sobre seus dois filhos: Following Joey Home ("A Nova Casa de Joey"); Vil Get to Heaven Be/ore You Do! ("Chegarei 
ao Cu Antes de Voc!") e The Time of Her Life ("O Tempo de Vida Dela").
          * Um dos livros "apcrifos" em circulao entre os cristos primitivos conta a histria de uma mulher chamada Tecla, uma convertida do apstolo Paulo. 
Supunha-se que sua f a defendesse de todos os ataques: animais selvagens recusaram-se a com-la, e homens repentinamente pararam no ato de violent-la. Quando seus 
torturadores tentaram queim-la na estaca, uma nuvem de chuva e saraiva apareceu em cima e extinguiu as chamas. O livro teve ampla circulao, mas basta ler outros 
livros da histria da igreja, como o Foxe's Book of Martyrs, para descobrir por que, no final, rejeitou-se a histria de Tecla como sendo apcrifa.
          * Essa diferena de percepo tambm pode ajudar a esclarecer um dos aspectos mais intrigantes dos profetas. Com freqncia eles no se davam ao trabalho 
de dizer se os acontecimentos preditos - invases, terremotos, um Lder que viria, uma terra recriada - aconteceriam no dia seguinte, ou mil anos depois, ou trs 
mil anos depois. De fato, predies prximas e remotas freqentemente aparecem no mesmo pargrafo, tornando-se mutuamente indistintas. A famosa profecia de Isaas, 
"Eis que a virgem conceber, e dar  luz um filho, e lhe chamar Emanuel", se encaixa nessa categoria. Os dois versculos seguintes deixam claro que o sinal se 
cumpriu nos dias do prprio Isaas (muitos estudiosos presumem que a criana foi um filho do prprio Isaas), e, no entanto, Mateus aplica o cumprimento final da 
profecia  Virgem Maria. Os estudiosos da Bblia tm at expresses especficas para designar essa caracterstica comum aos profetas. Para um Deus que inclui todo 
o tempo, a seqncia  a questo menos importante. Deveramos, ento, ficar surpresos com o fato de que incurses no tempo, feitas por um Ser atemporal, tivessem 
repercusses nos dias de Isaas, nos de Maria e at nos nossos?
          * Certa feita o mstico espanhol Unamuno, em conversa com um campons, sugeriu que talvez houvesse um Deus, mas no o cu. O campons pensou por um minuto 
e ento replicou: "Ento para que serve esse Deus?"
          * "Voc j ouviu acerca do homem que acendeu uma lamparina numa manh ensolarada e foi para o mercado gritando sem cessar: 'Procuro Deus. Procuro Deus'...?" 
"Por isso mofavam e riam s altas uns aos outros. O homem pulou para o meio deles e fuzilou-os com o olhar. 'Onde Deus est?' gritou. 'Vou lhes dizer. Ns o matamos, 
vocs e eu.' Todos somos seus assassinos, mas como  que pudemos fazer isso? Como poderamos engolir o mar? Quem nos deu a esponja para remover o horizonte? Que 
faremos quando a terra se livrar do seu sol?'" - Friedrich Nietzsche, The Gay Science ("A Gaia Cincia").
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